Mujica: transcrições-transliteradas

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Toda pelea material que no dê pelea en el campo para una nueva cultura e nuevos valores, sucumbe.

José Mujica, 05/05/2017, FESP-SP.

Se não se transforma a cultura, não se muda nada. A mudança cultural é a mais difícil, principalmente a cultura da terra.

Como se vai cuidar do meio ambiente se você é um gastador compulsivo de energia? Muda-se de celular o tempo todo.

Deem valor a cultura – mas não a cultura das bailarinas e dos quadrinhos, mas a cultura que se respira na cozinha e na terra do povo, deem valor a cultura dos partidos e dos dirigentes dos movimentos sociais que lutam pela mudança, que lutam pela perseverança da cultura de uma maioria e não de uma minoria. Lutem por uma cultura sóbria. É compreender o milagre de estar vivo – e que não tem nada a ver com o pensamento do desenvolvimento. Para ser feliz é preciso ter tempo livre, para cultivar os afetos. As coisas não nos fazem felizes, mas são os seres humanos. Para ter tempo para o amor, para os filhos. Tempo, caso contrário, será um sujeito condenado a viver ansioso pagando parcelas. A felicidade é como os pássaros que cantam em cada amanhecer. Há que lutar pela felicidade na terra, não é sensualidade, mas é equilíbrio. A miséria crônica não pode ser felicidade para ninguém. Não seja mais feliz por comprar mais coisas. Ser feliz tendo tempo para cultivar nossa liberdade, para que nós não julguemos, é que sair desse mundo de palavras grandiloquentes que não se baixam à terra. Seja feliz quando você queira, sem prejudicar ao outro. Para isso, é preciso tempo livre. E caso não tenha responsabilidade econômica, adeus. O guerrilheiro que vai coletando cada vez mais coisas na mochila, chega uma hora que não consegue caminhar. E aquele que não consegue caminhar, não vive.

A academia não deve ser um pulmão para multiplicar riquezas e superioridade de acúmulo.

A academia deve ser o espaço de talento, amplificar e multiplicar as lutas de um povo. Não é ser superior, o sentido da academia é cultivar a liberação e distribuir a consciência do comum. A academia é um instrumento de luta e compromisso, não é para escrever em revistas, mas desentranhar conhecimentos, pulmão da militância social fundamental para os agentes das lutas sociais e do povo.

* * *

Eu sou Pepe. E sou ateu. Não creio em Deus. Respeito muito todas as religiões. Ajudam a vida a viver. Não é pouca coisa. Mas como estou muito longe de Deus, não posso saber o que tem que fazer o Brasil. Me atrevo, sim, solidariamente, eu que não sou inteligente, que o povo brasileiro possa superar a feroz contradição que possui e possa jogar para e com a América Latina. Brasil é muito grande, ainda desintegrado e muito injusto, um dos mais injustos no mundo. No continente mais injusto, porque nossa origem histórica é fruto de uma repartida feudal. Ainda não havia triunfado a revolução burguesa. Ainda estávamos longe do espírito e fomos repartidos em 7 colônias. As classes sociais tem idade, em sua conduta, e estão submetidas a sua história. Quando nascem, estavam sob a mística do trabalho. O burguês é revolucionário, luta contra o feudalismo. No Sec. XVI-XVII, o guerreiro tirou a armadura e colocou as perucas. Nossa burguesia, hoje, não vive de revolução, mas de apropriar-se da riqueza. O Brasil como o resto da América Latina é ainda feudal. Nossa independência não se deu, pois ainda era mais importante a relação com a Europa do que com seu próprio povo. Toda capital tem um porto. Essas coisas não são casuais, estão presas a nossa história.

O único recurso inesgotável é o conhecimento. Mas não somos proprietários do conhecimento. E não somos pq politicamente fomos incapazes de defender a massa crítica e nossos talentos, que se vão do país. Andamos como estrangeiros em nossa própria terra e depois vamos trabalhar em uma multinacional. Pq falhamos politicamente, pq se não há política, não há canais.

Acredita-se que na america latina o ensino vai mudar tudo. Sem ciência não há progresso. Mas a Alemanha era a mais educada em 1930 e veja o que aconteceu.

Se a política se esquece, se não há responsabilidade política, não culpem a educação por não transformar o mundo. Não podemos nos livrar dessa responsabilidade.

Brasil, não deixe de militar, não se desmolarize, que não pode durar uma situação que humilha sua cultural popular. Isso é uma barbaridade contra a humanidade.

Há que se viver como vive a maioria. Há que se negociar com todos, mas definir com quem se está. A responsabilidade é política. E se não há essa responsabilidade, se está condenado.

A política se importou mais quem ganhará a próxima eleição e mamar nas tetas do Estado do que com um projeto de integração nacional.

Não se pode entrar numa luta de modo a se esquecer de raciocinar e paralizar um povo. Negociar e negociar, mas sem trair.

A democracia liberal é um valor básico e cheio de contradições que temos que se a ver com elas.

Façam crítica com liberdade.

Minha geração pensou que lutava pelo poder. Tontos que fomos. Devemos lutar para que a civilização humana suba um degrau. Toda evolução supõe duras derrotas em vários campos. O lento processo de ascensão civilizatório foi feito por duras batalhas que, atualmente, parecem coisas pequenas.

Pode-se ter uma vida inútil por tornar-se uma besta de consumo insaciável.

Vale a pena dar uma causa a vida: ajudar os outros a estarem um pouco melhor.

A diferença do homem dos outros animais: orientar sua própria vida.

O que para uns é um fardo, para outros é uma liberação.

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Um sistema cria sempre uma cultura. O erro de meu tempo foi acreditar que a mudança das forças produtivas bastavam para criar uma cultura melhor, um povo melhor, um homem melhor. Cultura, sistema de valores que pautam as reações reais da vida cotidiana. Se a cultura do mercado assume todo o sistema de valores, na crença do acúmulo, da ganância, do lucro, funda-se uma cultura baseada não na população, mas no triunfo do individualismo.

O caçador ancestral, caçava para o povo.

O caçador, hoje, caça para si.

Necessitamos uma cultura que nos defenda como espécie e não como indivíduos. Estamos raciocinando como pequenos, mesquinhos, ignorantes.

Para que queremos ciências se não lhes damos importância? Para que queremos ciência se não as transformamos em decisões políticas?

O desastre ecológico é consequência da incompetência política, de uma civilização que nos domina e não podemos dominar.

A primeira civilização do mundo que não tem uma condução.

É preciso tratar de lutar com mais inteligência e menos bestialidade

Deixar que as pessoas vivam a aventura de sua vida

Piedade para com o milagre da vida

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Se queres mudar, não podemos continuar fazendo o mesmo.

Um problema de medida, de dose. Um problema de saúde e de segurança pública.

O primeiro passo para a condução dos problemas com as drogas, é a segurança pública por meio da legalização.

O segundo passo, o mais importante, é o da saúde. É o do controle das doses.

Estamos condenando uma planta maravilhosa.

Que andemos bem com Satanás e com Deus.

(Ao final, Eduardo Suplicy canta “Blowing in the wind” na companhia de Mujica. O microfone aberto após toda a apresentação permite escutar Suplicy indagar se tinha sido boa a ideia de cantar, bem como se as fotos tiradas deles dois tinham ficado boas. Todo mundo, no fim, quis tirar uma foto com Mujica. A cultura do mercado -midiático- ainda triunfa.)

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