Trilogia do espírito I



hobo clown, by allison schulnik [still] - gênero feroz; muitas vezes tomados por uma mesma espécie; grandes variações na estatura; não raro tende a ser quase negro.

 

I.

 

BREVIÁRIO DE INTEMPÉRIE

ou MIRAGENS CINEGÉTICAS SOBRE A NATUREZA DO ESPÍRITO:
REMINISCÊNCIA DA ALTERIDADE SEM SER

(fevereiro 2007 – agosto 2008)

 

 

 

[atestado para o óbitum-enphermétikos]

– “… ele era suave, amável e mórbido…”
– “não me estranhe agora!, bem na hora que estou louco!”

 

 

À P O É S – P O I É S I S

 

 

 

* * *

A escrita de uma escritura. Uma caçada histórica e imemorial da força e não do poder. Força de morte de vida, vitalidade impura, digna de destruir qualquer um que se aproxime dela com tamanha sede e violência. Julga-se que é na existência enquanto existente que pertence-se a algo. Mas ainda teme-se dizer que na escrita há algo que escapa, que “nos” escapa, mas não à linguagem. Imagina-se algo maior ou menor do que o ser e já se está numa dimensão duvidosa de afirmar-se algo fixo da qual somente apercebe-se no instante pela atualização da potência em ato e logo em matéria, num tempo em que não se distingue um do outro, mas quiçá este rompe com qualquer sistema de causalidade física para retornar a uma dimensão sem lei, isto é, autodeterminada. Qual força que não subjulga a si mesma? O processo psico-físico e determinante das ações humanas, assimiladas pela história da razão como Conhecimento (Humano), apodrece, perecendo àqueles que o exercem, por falta de seu, dito, maior triunfo sobre a vida em vias de ausência deste para consigo mesmo: a atenção à história das forças, da Potência (paradoxo do movimento e da imanência do eterno retorno). Um fábula do Fármaco e do Paradoxo;

* * *

1. do Sentido pelo espírito: um conhecimento de práticas para uma intuição volitiva enquanto instância e imanência da vitalidade do desígneo – uma inteligência do <óikos>.
2. Da transformação a meta-morfose: a ‘outra percepção da forma’ enquanto suas mudanças e mutações. A visão do sem-olho não nos permite refazer-se no informe. Sugere-se aqui, abjurar de conceituar o informe para aceitar a inevitabilidade do que jamais devém forma, a não ser não-ser…
3. Na ordem, o milagre da natalidade. No caos, o desastre em criação do fracasso.
4. O paradoxo e a produção de sentido. Uma ‘possível’ presença: presentificação do não-ser?
Um rizomático espírito contra o poder do absoluto – “paciência infinita numa revelação expressiva”,
o espírito só se apresenta quando no engano é o ilusório que determina as condições de disposição.

(Definía como activa toda fuerza que va hasta el límite de su poder. Es, decía, lo contrario de la ley…)
5. A mensagem que o mundo nos dá, o peso das impressões que o tempo carrega.
6. O trocadilho da ação: no que os pensamentos se transformam quando os pensamos? O que eles não deixariam de ser enquanto não fossem pensados?
7. Mas o pensamento não é um conjunto de imagens, idéias ou mesmo de “pensamentos”, multiplicidades. Não é um espaço de realização das representações nem uma incontagem produção de pulsões. Pensa-se até como um reduto, um espaço, ou uma doença. O pensamento, antes de mais Nada, semeia a prática do que não é perceptível antes que seja conhecido por outras instâncias, que não são nem a da sensação nem a do intelecto. Daquilo que insana e incessantemente se faz.
8. Um movimento evolutivo: numa existência e sua alteridade,
o destino de nosso caráter traça-se de acordo com a composição do ânimo-espírito.
9. O signo é um fragmento e um instante do mundo. É a forma que podemos realizar a instrumentalização do informe. Ainda sim, uma totalidade que incita o paradoxo de suas tarefas e desígneos: a produção de um sentido, o qual revela uma vitalidade que dura na sua transmutação. Noutra, o rebento da explosão do acontecimento, o estilhaço autônomo e própria apresentação das relações, corte do ato e que nele se concentra todos os ocultos caminhos de um próximo fato e do próprio porvir: o sem-sentido e as desventuras da vida. O que seria tal <espiritualidade>?
10. Valorizar o que se é. Saber valorizar o que o outro é.
O duplo valor do amor. A esquizogenia dos valores do ser.
O ser seria um valor do homem caso não fosse um “estado” do universo.
11. A impossibilidade do amor universal:
Não deixarei que se transforme num monstro e me devore… terei de devorá-lo primeiro…
12. O erro no conceito de espírito nas religiões da idade média que passaram a modernidade:
a redundância de o espírito ser uma vida das forças, tal como um homem é tomado pela possessão de sonhar com o corpo de outros.
13. O espírito não tem sua realização fora do corpo, da matéria. “Deus está entre nós”. A legislação ou a tentativa de se criar um idoma para suas relações resultaria num sacrifício de todas as suas possibilidades de proferir razões para a produção do que se é. Logicamente inverso, a todo instante que o corpo é e deixa de ser o que era, o espírito O está sendo.
14. Caberá dentro de uma identidade, diferentes personalidades – marcas ou feridas abertas dos afetos, expressões virulentas da subjetividade? A estas, talvez, lhe caberá a função de exteriorizar e se apropriar do espaço para que sua identidade continue fluindo segundo a descaracterização de sua falência.
15. A unidade da casa, da família, da raça e da terra está se deteriorando, porque não haveria de se perdurar tamnha enganação de constituição das “uniões”. Deste modo, hoje, é impossível constituir um grupo de pessoas para viverem juntas, instaurando um conjunto conceitual de modos de habitar e cultivar. Tomar conta de outra pessoa é como pedir para morrer. É indesejoso estar em tolerância com outra. Cuidar do próximo se tornou um martírio. Na Grécia Antiga, o homem era o chefe da morada, mas seu trabalho era fora dela. A mulher, a companheira, era incumbida dos afazeres da casa. O homem, quando em casa, se ocupava apenas de se divertir, alimentar-se e descansar. As provisões da casa eram trazidas pelo homem, mas era a mulher que os preparava. Era também o homem o encarregado de arrumar qualquer destroço da morada, mas a mulher deveria alertá-lo sobre o injúrio.
16. O não-julgamento – o juízo estético – do sofrimento é um dos retornos a identidade anônima pela expressão ascética.
17. A escrita estará por nos dar tanto a descrição de nossa enfermidade quanto a análise de sua frequência e incidência. Cabe a nós diagnosticá-la, acertadamente, com sua própria excrescência…
18. Para além do bem e do mal, tal qual uma pergunta: na enfermidade, em meio a queda do espírito ao carnal, a desilusão do intelecto, na disposição poética de tornar energia em matéria, a vertigem nos assalta como uma assombração deformada de nós mesmos. Não nos reconhecemos. Nossos desejos se tornam desesperados, ansiosos, involuntários. São reações débeis ao escravismo natural. O que nos cria, agora nos sacrifica. E a imaginação, tão aclamada pela sua potência de alteração, ela mesma sendo a revelação da exaltação poética, converte-se no nosso maior carrasco: faz desejar uma realidade já corrupta pela nossa condição debilitada. Inflama-nos com imagens de um buraco ainda mais fundo; faz perpetuar a dor pela multiplicação das possibilidades de um fim cada vez mais obscuro e cruel. Esse fim, ainda mais próximo por uma falta de vontade que lhe acarreta por não imaginar uma transformação devida, só será convertido num começo quando morrermos – a enfermidade e eu – de vez. Todavia, como não tornar o porvir num devaneio ou reflexão sobre o fracasso? E como não temer a pulsão negativa que este, porvir, pode se tornar?
19.

(Leia-se enfermidade como sintomas das porfundas percepções e captações de alteridade do ser – não de sua essência, mas de sua saúde, de sua expressão enquanto processo de formação constante. Cocneitualizar a Enfermidade é como o princípio do entendimento sobre o páthos, das afecções da paixão. Seria talvez as primeiras lições do homem que entrevia sua perenidade enquanto animal – a afirmação de sua morte, tal trans-formação – confabulando assim o que estaria porvir. O enfermo sempre foi um ser “iluminado” pela Paixão: pulsão de morte.)
20. …enquanto isso, sou um cabaço. e me fodi.
eles advém o verbo. pelo movimento capturado, belos atos anoitecem na alcova da sedução e sofrimento… nos encontraremos de fato, num porvir ancestral. não julgueis o contrário…
“Maravilhosamente! Este lindo cabacinho se oferece deliciosamente a mim. Eu sou um culpado, um infrator, eu sei; tais atrativos são feitos para os meus olhos (e só, devo devorá-los); mas o desejo de dar a essa criança as primeiras lições de volúpia suplanta qualquer outra consideração. Quero que sua porra escorra… quero esgotá-la, se possível… (Ele a masturba)” – vosciferamos a resistência pelo prazer concedido… para está ética dos primórdios, a identidade deve se corromper, se assujeitar no sofrimento, para uma abertura de energia… ela nos faz ver, alucinar, do que somos capazes… a libertar um desejo imbatível: um espírito que está aqui e agora, morte que acalanta a vida, vida que embala à morte… (sua realidade vai além de meros advérbios de lugar e tempo).
21. são os sons, os cheiros, os movimentos, os sentidos frágeis, abertos e desdenhosos, cada um com sua relevância ao momento… é a sensação que nos acolhe a cada instante… um Sentido que é forjado não pelos seus significados, nossas criações posteriores, barulhentas sensações das sensações, reações sem verve… mas é pelo que envolve ao sentir o mundo: antecede qualquer outra sensação deixando uma marca, uma fenda – um não-sentido?, – tal qual o delírio que se instaura numa imagem do que é e do que foi e do que pode ser, ao mesmo tempo, impregnando o mundo em nós pelo conjunto de signos, todos eles, criações sem significado algum…
22. O trabalho se tornou um martírio. Não trabalhamos mas para a vida, mas contra ela. Todo o projeto de uma vida se calca por um trabalho que não é o que atua o projeto, nem o que o constrói diretamente, mas este o separa da pulsão que o move.
23. Uma doença até a morte: na reminiscência de Kierkegaard, encontra-se o estofo ético de uma enfermidade, pela a estética da relação. Flerta-se, de maneira tenaz, com o jogo do subsolo dostoiesvkiano, segundo o qual, um subterrâneo é a consciência mais profunda de suas alterações, a superfície dos combates morais. Este “solo” de um “reinado” é entregue as suas transgressões da “plebe”, dos devires, os quais Nietzsche ergue suas vozes e apresenta-nos, álias, como escrivões de plantão para os topos-reais do estado “alterado” ou do saltoo: sabe-se bem que o maior veneno seja o simulacro, tal a sua concepção arcaica do forjar de de forças e percepções, na configuração aesthética, não mais que fantástica – a transformação dos corpos é vista com atraso, a impressão da morte frente a nossos olhos é como um surto inoportuno. Um realismo sarcástico e feroz, a aesthética-poiética é o solo sutil onde as criações sobrepujam-nos para um além mais do que atual: as enfermidades são a percepção aguda de um páthos incompreensível – da potência imanente de desintegração e transformação.
24. Mesmo após o veredito da falência, da decadência, devemos aturar o osso, a carne, os fluídos…
Aturdidos, esta persistência, ainda numa construção, na elaboração da osmose material arquitetônica, arcamos com a condescendência do que se individua e se amontoa, do que se junta e se separa; nunca deixamos de sustentar o entranhar uma vida nela mesma, de sua ação enquanto imanência: ela se desprende do mundo, para mergulhar em si. Nunca deixamos de fundar esse espaço onde a vida se encerra nela mesma, enquanto esta insistência da energia em se movimentar, dando motivo, sobre seu padecimento, para a própria insurreição da vida…
25.

O sentido – o atual. A verdade – ato reativo de significação do desejo. A moral – a batalha dos valores sobre o cunho da razão e da dose de ativação.
26. Toda experiência como uma verdade experimental.
27. Passei o meu nascimento submersso em sonhos.
No meu aniversário, estarei dormindo sem eles…
28. A derredeira infância: algumas idades perdidas reaparecem quando no equilíbrio, o desatino espiritual (no conflito, somos, quando um corpo não é mais uma alma, uma coisa só). Estas idades ainda infantes tendem ao rejuvenescimento do processo material – isto é, a matéria torna-se ainda mais dinâmica na sua formação, correlaciona-se com os tempos na materialização de seus desejos e por hora, resgata sua verdadeira intenção. Acarretando ao processo em si, um repertório de construção.
Mas a vida mesma do homem é um instrumento de educação e de produção – é algo que nos diz muito sobre nós, como nos instruimos para um caminho ou outro. É também uma obra por se fazer e uma obra que diz-faz.
29. O novo – a realidade que desponta no horizonte como uma explosão de acontecimentos nunca antes experimentados – não acontecerá pela imitação dos atos dos outros nem pela criação de um novo. A criação, nesse sentido, é exatamente a possibilidade ou abertura que damos aos acontecimentos. Nossos atos não serão criativos se, ao se misturarem com o mundo, não produziram um efeito que modifique tal realidade. É o efeito da mistura entre os atos, o acontecimento, por se assim dizer, é que conceberá um novo sentido ao mundo: a abertura é a mistura como medida, e é este efeito que retornará como a possibilidade de gerar novos desejos, e assim, fomentar a novidade, os rumos do porvir.
30. As ruínas do caráter, do cunho, da escrita, da índole, o que grava, sinal gravado, marca, traço particular do rosto, natureza particular de alguém, marca de estilo, consequencias de severos e consecutivos estádios de uma enfermidade, nunca devem ser negligenciadas. Antes de mais nada, as ruínas como um fracasso psíquico e triunfo volitivo, onde nossos desejos que não se realizam e retornam mais fortesonde os desejos que nos atravessaram e não se realizam, retornam mais fortes, são o auguro de um debilidade racional que, de certo, um esforço a atingiu para um fim diferente do esperado. As ruínas são (parte de) um processo oculto, no sentido etimológico da impossibilidade de residir nele, de cultivá-lo, de dar cabo a não ser arriscando-o até o seu extinguir, e dele, recolher as reminiscências de um <caminho esquecido> ainda a ser percorrido;
31. As doenças mentais derivam de uma exclusão da razão total de sua doença. o alcance dessa enfermidade é que trará as devidas alteridades, enquanto que a impossiblidade de desenvolver essa nova logica que está por ser fundada no ser, são as demências que passam a corroer seus atos.
32.

Para lidar com o Mal – tal má formação dos afetos no corpo assim como na dimensão da consciência enquanto desespero ou pecado – o ser-humano não deve contar só com a prática racional. Acima de tudo, para lidar no ponto da formação desses afetos, ou seja, para adentrar o percurso no raciocínio do intelecto que leva a pessoa, a partir do que sente em relação a alguém ou a alguma coisa, a fazer algo atroz, é preciso de uma outra pátrica. A prática das imagens pelos signos, da farmacopoesis.
Poés-poiésis.
33.

História, uma fantasmagoria.
34.

A loucura, pela idéia pura, a monstruosidade.
A loucura, pela sensação incessante, a perplexidade.
Ambas, terrores brutais da vida.
35.

A poiésis da poesia: um ato de potência contra o desespero da consciência (sobre o material e o imaterial, o corpo e a incorporeidade).
36.

Diferença entre Eu e Espírito: desespero e a doença até a morte.
Kierkegaard; quanto mais consciência, mais eu; quanto mais consciência, mais vontade.
O eu como a constituição flagelada e autofagocitada da consciência e da vontade.
É a observação de nossas vontades nos fazendo. Mas, que critério mais sombrio para nos auto-avaliar e nos identificar?
Somos, nos identificamos com uma mistura de passividade e consumismo de nossa energia, “simpatia e egoísmo” – ao utilizarmos a consciênca como a única contemplação das forças, como uma estrutura dos acontecimentos nos fazendo, tornamo-nos também este fechado circuito de forças, que vai se autoalimentando pela potência, fragmentando-se pela dicotomização do que é ou não é observado, chegando até o esgotamento no ato: potência para o enfraquecimento – um desespero, doença até a morte – impotência de constituição de si, senão, de um fantasma (o eu).
Seria o eu, como queria Kierkegaard, uma síntese do finito e do infinito que deve tornar-se a si mesma, através da relação com uma força TRANSCENDENTE a ele, isto é, Deus? Ou uma autodestruição por este conflito gerado metafisicamente por ele?
Não seria o caso deste eu, ainda pelo filósofo noruegues, ser a própria contradição de uma constituição em vida?
O espírito, ora vai, seria esta outra realização, nem necessária nem impossível… uma expectoração do universo, entre a vida e a morte da matéria… qual aquela que nunca cessa de ser…
37.

Todos os transtornos dos afetos – agonia, angústia, desespero – se tornaram meras afecções, como que passageiras, instantâneas, focadas em certos aspectos de nossa identidade e com causas e efeitos bem determinados na nossa saúde e no nossos desejos.
38.

“A experiência da loucura ou o lirismo da existência na sua constituição, consiste nada mais que na PERMISSÂO para um sentimento ou afeto fugidio e vertiginoso, instaurado entre o lembrar e escrever, mas precisamente quando nos inscrevemos no mundo: é a permissão de perceber uma unidade perdida em meio a reflexão, uma transparência absorta que reslumbra no limiar da razão redescoberta.
(…) Na imagem, ou o símbolo, um outro – o próprio louco (e não é louca a pulsão do outro?) -, contém a compreensão desse instante eternizado no nosso inconsciente – é ele próprio que não nos faz perder em si, e resgata nossa intuição quando dele nos deixamos trespassar para um outro mundo, o do espírito – uma memória que é um sentido -, uma memória que nos guia a um novo (ser) sempre inesperado, decidido por se apoderar desta ruptura com a matéria anterior que lhe concederá sua duração”
39.

Asneiras; o erro é sempre esquivo quando investigado seu equívoco.
Consciência: ciência comuta;
ou peça na extremidade da haste da broca manual, constituída por uma chapa curva de metal que o operador encosta ao peito quando quer exercer pressão sobre a ferramenta
38.

a liberdade é irracional.
39.

Eupalinos: não há detalhes na execução.
Cada nuance é um ato que não converge para sua expressão ou destaque solitário. Eles são como imperceptíveis frente a obra que deve mover-nos qual um Deus em direção ao inexprimível. A beleza não está no eterno. Nem no finito. Tanto o instante quanto a história roga por ser um instrumento do fluxo.
40.

Ainda em Kierkegaard: “há um jogo com os desejos que não nos são permitidos percebe-los atuando nem de onde vêm, apenas sentir suas influências estranhamente desconhecidas, tal um acaso… e, não obstante, identificarmo-nos com a sutileza com que nos move – mesmo, com tão perversa insistência…”
“deveria ser interessante podermos ver, com alguma antecesdência, as forças (deste acaso) cujo aparecimento condiciona o conteúdo mais oculto da existência – não por acaso, o que mais potencializa nossas ações as quais não são notadas pela consciência (os atos falhos, aquilo que poderiamos chamar de impetuosidade)”
“Cabe a nós identificarmo-nos com esse estranho abandono de nós mesmos, esse abjeto indesejado, pequeno monstro que vai se desenvolvendo em nós: uma monstruosidade porque não é diretamente desejada por nós, sua constituição foi acontecendo sem os nossos atos diretos — mas o que eu estou dizendo? se os efeitos de cada desejo e de cada realização deste desejo, são propriamente o que cosntitui meu caráter? A indireção, o refluxo, ou a não-direção mesmo, é a dinâmica de nossas forças quando se despreendem de nós, para exatamente nos fazer me seguida por essa ‘pulsão louca de direção’.”
“Viver pelo interesse, pelo histerese, poderá gerar tal angústia em se perder nos seus própriso desejos, pois a vida do interessado, segundo o interessante – tal pré-disposição -, se exprime sempre imediatamente quando se está sendo afetado, tendo na imediatidade desta vivência, deste despertar de si pelo afeto, a exclusão mesma da realização da pulsão pelo interesse, pelo objeto que o gerou – não há mais aquele desejo, mas também não há a identificação plena com nossa essência: queremos desejar outro novamente. Há o engano de achar que devemos nos interessar pelo que nos interessa a cada instante, pois, mesmo que nos incite numa reflexão para o próximo desejo, é uma reflexão limitada, presa a imediatidade, que não dura muito por ser possuída novamente por outro interesse…”
41.

Um corpo-sem-orgãos ou um orgão selvagem?
Esquizofrenia e a Convalescência do Conhecimento da Morte.
O espírito não é propriamente um corpo, mas também não é um orgão. Não estabelece lugares, situações, fatos, estruturas. Nem seria um princípio de organização dos fluxos ou ordenação hierarquia da construção da matéria, onde se implicaria numa afirmação teológica da necessidade da vida enquanto pré-determinada por uma força exterior ou maior a ela mesma. Contudo, um espírito transparecesse com o que a antiguidade definiu como um Organon, um conjunto de impressões que se relacionam e conduzem os afetos. Isso se assemelharia a uma prática de linguagem mesmo, das organizações e desorganizações através do ato e da abstração, que estabelece um campo fenomenológico das formas, ideais ou materiais, como signos, mas que não o são, num espaço do constituição do Sentido – a virtualidade ou a potencialidade enquanto uma possibilidade sempre por vir, uma “outra” lógica da realidade. Desenraizamento dos fatos, da memória, da imaginação, da história. O espírito é o transmutar-se de forma em formas, desterritorialização do nome e do eu, a criação, o possível, o ato poético do Ser enquanto disposição de. É uma lógica no sentido intrínseco de FAZER uma existência (praxis + ethos). Mais que um estado corporal ou um método de existir, agir ou pensar, a atividade do espírito é um Rito: é um experiência em sua dimensão mais crítica, de cisão, de ruptura, e, simultanemanete, de concisão, de conciliação, de anulação dos opostos. VIVER as diferentes realidades do bíos, das forças como uma só, do que foi ou do que será, do que está sendo, não se identificando com nenhuma estaticidade do corpo ou em alguma repetição funcional dos orgãos. Os juízos não passarão de projeções. Os conceitos se estenderão até o menor detalhe de uma execução. É uma investida da Obra sobre o Ser, profetizando sua própria ausência de razão para ser feita, epifânico movimento de extrema racionalidade até a VISÃO de afrouxamento dos laços entre a forma e sua formação inteligível, tal irrazão que seria a pura onipotência, desviando-se das direções de atualização e codificação, e atingindo o que não se efetua, o desfazer-se do que se É (personalidades, hábitos, pulsões) ao presenciar-se na abertura ao não-efetuável – uma imagem do caos, da energia, do não-ser; este fazer se afastaria de qualquer evento transcendental, mas na prática da “arte sem arte” [ZEN] e busca mesmo de uma imanência do Ser, acometeria num silêncio existencial ou um Sentido pleno da expressão enquanto uma produção imperceptível de potência. Um espírito não tem linguagem, não tem visão. Ele está na intersecção do visível e invisível. Tudo faz sentido ao passo que a razão não deixa de existir, mas se esquece e vaga, habitando por completo esta imagem da energia tal como uma inexistência do indivíduo ou medida, ou até de uma pulsão, sem direção, quase o não-ser: assombração, uma morte da Vida do sujeito tal como ele a presenciara até então, um retorno ao indefinível, onde não é ELE mais que o vive. A percepção se desprende do objeto. A alma evapora do corpo. O corpo evacua-se da alma. Um delírio para além do engano do intelecto, o próprio Lógos filosófico daquele estadio do Ser correspondendo a um conhecimento inconquistável, fora do poder – o do improvável e do impossível (uma postura para com o inefável).
42.

À Kazuo Ohno; “o belo continua até a eternidade. Há um existir infinito.”
[dele, não se repara nem por um segundo: o belo é um modo de perceber o mundo, pelo qual, se esvai-se nesta mesma extrema relação entre ‘razão de ser’ e ‘sofrer por’, uma experiência única e inusitada de estar no mundo. É um modo no qual se encontra um trabalho para se gerir nas variadas e infinitas formas de perceber tal mundo neste instante de relação íntima consigo mesmo, numa espécie de alucinação, aguçando a proeminência de devires que tal instante pode produzir. Enquanto sensação, o pensar é um acontecimento inevitável neste momento, ao mesmo tempo em que se desnorteia em fluxos incontroláveis, que não deixam de promulgar uma certa “atividade própria”, que nos convida a se ativar, na prática de contemplá-los e ao que eles nos traz, nos leva, interagindo com eles e resultando-se deles numa metamorfose consigo mesmo. Pensamento e Mundo são a mesma produção de Forma, de idéia, de uma imagem que se prolonga numa memória. A beleza é a experiência onde se adiquire uma identidade plena e eterna com o mundo.]
43.

Takigushi Shuzô:
A poesia não é uma crença. Nem uma lógica.
A poesia é um ato. Um ato que nega todos os atos.
Aí se dá no instante em que a sombra do sonho parece a sombra do poema.
44.

sabedoria humana e o divino delírio.
Medo e territorialidade:
retenções dos fluxos pelas forças reativas que invertem a lógica da potência – o que se faz, se apodera da própria pulsão de produção que o atua.
Deleuze e a diferença da repetição.
Aquilo que falamos de nós, isto que se diz, não é uma determinação de nosso ser:
Ao contrário, é a determinação de um espírito, da vivência energética desse ser (memória, imaginação e consciência).
O ser não se divide por causa dos entes criados. Ao contrário, cada ente apresenta-se como uma nova face do ser por se desdobrar. Abre-se a possibilidade de diferença. Aquilo que se diz, difere de nós mesmos.
Uma geometria espiritual da experiência vital:

História e sonho. Sonho e história.
A unidade da imagem na inconsciência. A fragmentação da mesma no consciente.
Imaginação e memória.
A razão é o corte. Dá a forma.
A consciência – a imagem – é uma operação divina: divisão
A poesia – a linguagem – é uma operação divina: síntese
Não conseguimos pautar nossas ações nem pela memória, nem pelo desejo, nem pela imaginação.
O ethos é o do espírito. O do informe.
Assim como o sem fundo da consciência é a alma, o sem fundo do eu é o espírito.
Uma poética é necessária, acima de uma dialéctica, para lidar com as potências.
Não poderiamos desejar o poder.
A palavra e o ato.
a poesia é abertura da potencia pela palavra.
transformar movimento, músculos, fluídos, sopros, posições
em potência novamente: um sentido de que o impossível move o que se pode fazer.
Almoço Nu.
Interzona – não-lugar onde o agente é um espião das forças.
Zona das fabulações e transações espirituais;
A meio passo do irreconhecimento e da transcendência da personalidade e, não por acaso, pela dor.
|–Alucinação é a perturbação mental que se caracteriza pelo aparecimento de sensações (visuais, auditivas etc.) atribuídas a causas objetivas que, na realidade, inexistem; visão fantástica, sensação sem objeto. Impressão ou noção falsa, sem fundamento na realidade; devaneio, delírio, engano, ilusão.
|
|–Não há uma causa objetiva, nem ao menos final, na alucinação. O objeto, por assim dizer, é manifestado como causa e efeito |do processo alucinatório. Ao contrário do que pensam os médicos, todos os acontecimentos em estado alucinatório são tomados |pela consciência como efeitos de uma causa, até então, inexistentes ou mesmo imcompreensíveis. Perturbação mental e corporal |enquanto perda do controle das direções dos afetos.
|
|–Alucinose é o fenômeno alucinatório de cuja irrealidade o sujeito tem consciência, ao contrário da alucinação.
|
|–Delírio é a convicção errônea baseada em falsas conclusões tiradas dos dados da realidade exterior, mantida por uma |pessoa, ainda que a maioria dos membros do seu grupo pense o contrário e possa provar que está certa [O delírio se distingue |da alucinação por ser independente das impressões sensoriais e por apresentar idéias supervalorizadas, rigidamente ligadas à |crença delirante.]
|
|–Problema mental orgânico reversível, cujos sintomas são: decréscimo da vigilância, desorientação espaciotemporal, |confusão, ilusão, interpretação delirante da realidade, alucinações visuais, auditivas, táteis etc.
O mundo duplicado: A imagem, o Espírito, o retorno a potência.
Convalescência. Se a vida já é um simulacro da energia, com cada ser ou função vital do mundo sendo uma fração das infinitas que dividiram o todo, a própria função da vida, sua primordial atividade é, não obstante, a criação de uma outra realidade: um outro simulacro? (a cópia do modelo energético só poderia fazer outra cópia? a ilusão da ilusão não é uma verdade?
O mundo das representações, das relações, não seria um mundo entre o real e o virtual, entre a potência ou ato, mas sim uma zona intermediária em que não existiria oposição entre os dois: o acontecimento imagético da ordem do juízo (você exprime uma vivência intencional sobre algo não necessariamente um objeto, mas, de início, sua própria existência) é uma combinação de infinitos tempos e influências os quais seguem a mesma dinâmica do desejo, antecipando qualquer tipo de ação ou julgamento, onde forma e formação estão em pleno andamento. Por meio da linguagem, do corpo a palavra, fazemos ressuscitar existência de tal natureza esquecida.
(*)
A alucinação é o encontro da razão com essa realidade. A razão se perde, sua lógica opera livremente.
Não há mais a medida para a ação, os fluxos cedem ao que de fato se propensiou a formar: o seu Espírito, imagem poética da existência, um outro tempo em que a percepção é precindada pela analogia, não é só a memória, a imaginação, a sensação, as impressões, os juízos dos quais um corpo informal se impregnou, mas de todas as possibilidades que este corpo pode alcançar. O espírito é tanto o fluxo e o contra-fluxo de uma existência, o que ela fez e o que ela deixou de fazer, a história e a não-história, o peso e a liberdade, as linhas de fuga e o Intempestivo.
– Quando o corpo e a alma não existem, o tipo de existência que inventemos para presenciar o mundo é o Espírito.
O “sócius” é um corpo viciado e viciante. Em sua geometria das forças, há uma cadência ou nuance que regula (“autoreativamente”) o impacto dos encontros em cada corpo envolvido: é parecido com a destribuição das forças na física para o tamanho de cada corpo – mas aqui, a physis afetada produzirá um segundo encontro: o espaço aí deslocado, transformado, terá outras velocidades e e movimentos, direções, sendo este segundo encontro um “acaso” do primeiro. O refluxo é um encontro oculto, por ser revelado. A defasagem está aí.
Este conhecimento – tal como uma postura – não deverá ser contra o HOMEM; tampouco a seu favor. Será, todavia, inverso ao tipo de juízo para a continuidade do homem segundo sua HUMANIDADE.
amar a vida. matar o mundo.
A incurável alteridade que padece o Uno.
O trabalho científico – o artefato, uma ficção [construção] dos fatos.
(A obra, o Rito, a Festa.)
O combate para a formação do sujeito, sua Obra, é precedida por uma outra formação (ou deformação): o espírito não é uma nova matéria, mas o constituinte de cada nova materialidade – é um “inabitante da obra”, sem a fazer mas sem deixar de fazê-la apenas por compor-la. Não há uma racionalização, um objetivo neste passo. A ausência da obra, caracterizando o estádio de loucura, não quer dizer que não há mais nada se fazendo no sujeito. Mas ele passa a perceber, sem o objeto – ou seja, não há a dialética do que faz e do que é feito – sua implícita ordem dos afetos e desejos: o espírito são os caminhos e descaminhos de uma construção do sujeito, seu habitante tanto na parte humana quanto na não-humana (sendo esta última apenas percebia num estado “espiritual” ou “delirante”).
Desejo não é uma direção. É um despreendimento. O desejo seria mesmo a primeira razão de ser ou seu inverso: a ansia de transformação ou a força do golpe exercida por um corpo. Mas de onde provem tal intensidade de movimento, de mudança, de transformação? Qual sua instância incorruptível de emanação de potências, gerando forças e corrompendo formas, e da qual ele se descola? Será ainda o desejo apenas um poder de centralização em outros pontos, um poder do Eu, de identificação? Subsistiria no acontecimento algo de anônimo como sua vital intensidade de incorporação? Na dessubjetivação do corpo, desenraizando a identidade pela história, o eu como referência existencial é o obstáculo para a solidão, na falta, num desejo repressor. A solidão soterra-se no medo, então, soçobra como equívoco da unidade. As imagens sabotam a unidade e seu fluxo: há uma vala entre transcorrer e durar – por ela escoa a linguagem, inabitante do movimento, do próprio devir. Eis um tempo para – desaprender o pensamento. A ordem dos fatores corrompe o resultado. O acontecimento é falho – o ato quer virar potência que não quer virar ato. O que quer?
São todas as forças, que a partir do encontro em uma presença, recomeçam todo o sistema de volições e o desejo, esse conjunto de forças, nada mais é que o virtual em plena atualização; o desejo é o instante, a todo instante, que o movimento se faz puro.
O sentido corriqueiro da expressão “o espírito de alguma coisa” ocorre por um equívoco da concepção da percepção sobre alguma coisa; o que se desperta ao evidenciar a vitalidade de um ato, um objeto ou prática que se abstrai, é possível realmente senti-lo mas sobretudo, penetrá-lo. O equívoco redunda na preposição “de”, quando está destaca do próprio objeto uma espécie de vida, que pode ser como que absorvida, utilizada, praticada – um poder ou uma potência? Antes dessa questão, vale considerar que de nenhuma maneira é que vamos absorver esta vitalidade apenas pela enunciação da existência dela; no entanto, é sua enunciação, um truque ilusiório que nos assombra frente sua potência como uma imagem – mas sua realidade não a é -, que provoca-nos ao acontecimento de um novo desejo, pela possível existência de um estado em que corpo e alma e objeto não seriam mais que partes de uma mesma existência.
“Foucault ventrílocado”:
Há de se retomar, mais uma vez, o giro da “prática dos giros” na história da loucura. O filósofo francês reticulou o giro da segregação, do silêncio constrangedor, do poder tomando de assalto a potência. Não da perca da razão, mas da dignidade de perder-la.
Se há uma história dela, a loucura, não é a da sua privação o exaltação, louvor ou censura: a procura de entender ou conceber os percurssos dos homens ao longo da história através do que não fora planejado nem ainda percorrido por eles faz frente aos estudos corriqueiros de uma pesquisa histórica fundamentada pelos fatos e sua cronologia de acontecimentos, sem levar em conta as relações entre a própria mímesis e poiésis envolvida na produção dos mesmos. Entre elas, as relações são como atemporais, não permitindo constituir um corpo definido como um corpo reduzido do espírito da época e dos fatos estudados. Enquanto a mímesis constituiu a técnica, uma abstração da forma para a prática da mesma, SUA RAZÃO DE SER, implantando os devires necessários para que os desejos percorram seguramente os movimentos da matéria até que uma outra se produza, a poiésis corresponde a toda inteligência configurada em todo o percursso dos movimentos: cada instante, ao ser visto historicamente, é uma produção de uma vida, um ato puro que difere do anterior, transformando-o em outro. É um inteligência no sentido de ser a constante figuração, ou seja, a emanação de uma continuidade, uma extração a mais da própria forma sem que isso interfira na sua integridade, um desenho da forma simultaneamente a sua transformação no intuito de acompanhar o movimento por inteiro, o possível e o impossível, reatando-se a vibração mesma do movimento e seu risco, compondo com o improvável, mas previsto. A partir de uma DES-RAZÃO, a poiésis produz um espírito científico como Bachelard anuncia – uma matemática, como máquina, incorporada a todo o resto: ela responde ao que produz e o produto expressa o que ela está sendo. Dinâmica da vida como o falseamento do modelo: a cópia corresponde a corromper – e não obstante, aniquilar – o modelo, na tentativa de entrever a vida mesma sobre a vida, além e sob a vida, a morte e o nada.
O giro da loucura e não o outro (o que esfacelou a prática da loucura) – o que não é razão sem tomá-la na plenitude do que ela pretende ser? A razão e o próprio projeto? A razão e a ruptura ou um retorno? Loucura e fabricação – farmacopéia do retorno?
“Então, e somente então, poderá APARECER o domínio no qual homem de loucura e o homem de razão, separando-se, não estão AINDA separados e, em uma linguagem bem originária, muito tosca, bem mais matinal que a da ciência, INICIEM O DIÁ-LOGO DE SUA RUPTURA, O QUE TESTEMUNHA DE UM MODO FUGIDIO QUE ELES SE FALAM AINDA. Ali, loucura e não-loucura, razão e não-razão estão confusamente implicadas: inseparáveis, já que NÃO EXISTEM ainda, e existindo uma para a outra, uma em relação à outra, na troca que as separa.” – FOUCAULT, prefácio ‘Folie et déraison’, 1961.
[a troca ou a relação, o movimento – racional, propriamente dito – é um corte, uma extensão e uma intensidade. Os animais não interpretam ou abstraem seu movimento para inventá-lo num “outro plano” e depois pratica-lo de alguma forma diferente. Suas adaptações e modos de vida correspondem inteiramente as condições de seu habitat, da composição de sua corporatura e complexidade orgânica, e de sua capacidade posta tipos de extensão de energia eles podem alcançar (uma espécie de “comunicação universal” dos corpos ou formas). O movimento, por ser entrevisto desta forma como a força vital da vida, esconde a essencialidade de reconhecer os movimentos pertinentes ao seu estado de ser e os que não são. Um animal percebe os seus semelhantes, principalmente pele tipo de movimento que o outro emana e ele percebe de encontro ao seu. O instinto, poderiamos dizer, é uma espécie de ética de todo animal. E não será assim com o homem também, um animal? Contudo, o movimento concebido pelo instinto do homem é extremamente mais desolador – ele não interpreta e não abstrae para “outro plano” o que sente e vivência, da mesma maneira como os animais. Todavia, a abstração é uma espécie de concentração ou contração, uma pulsão de pulsão (vontade de potência?), energia acumulada para a explosão inevitável de uma energia que se expande, alcance outros espaços, viaje em outros tempos, frequências – uma intensidade. O instinto do homem é o modo desolador como essas intensidades influenciam em seu devir-homem. As afecções, forças de movimento, tem um impacto muito mais profundo no corpo do homem – não no sentido de que sentimos mais dor uns que outros, mas o impacto no homem é mais avassalador… não importando a intensidade dos afetos. Todos eles, o movimento, aprofunda-se na tez humana por todos os seus meandros e espalham-se até os extremos, desdobrando e cortando a superfície de seus atos e abstrações, provocando inúmeras confusões de substâncias de sua constituição que desregulam-se por frações. O devir-homem não poderá mais reconhcer o que é ser homem enquanto um instinto, um modo peculiar de ser. Mas esse modo peculiar irrompe segundo outros devires: alcançar a emancipação de ser do que não se suporta ser pela mesma difusão de penetração dos afetos. A troca vira alteridade, mecanismo de variação e transformação, apanhando os objetos que estão em relação e acaba por criar na relação uma outra vida, outra substanciação ativa em meio aos corpos (matéria negra da física quântica ou o ístico acaso?). O corte da vida por outra. A vida sendo trespassada por sua própria vivência e vitalidade.
O fracasso do ser – um nada existencial – é pior que a condição de morte?
A linguagem nos permite conceber sempre um novo mundo, uma alma a cada instante.
Não é de se assustar que tal alma, futura e passada, essa infinitude dela seja como que um espaço próprio da alma, uma duração a qual supera todas as outras. O É do SER se faz ali. É o tempo que delemita está duração e não uma instância particular ontológica.
(Cabe a nós pensar, paulatinamente, que tipos de subjetivação esses sistemas de trânsito constituem.
Vale lembrar que, a medida que esses sistemas mudam, a nossa vida cotidiana muda drasticamente com eles.
Não só pela aquisição e desenvolvimento de faculdades psíquicas e certos conhecimentos práticos (calcular o tempo de viagem, como qual direção tomar, como chegar no destino, etc), mas pela própria determinação subjetiva a qual o sistema impõe – eu desejo aonde e o que vou fazer dependendo de como chego lá, de quanto tempo eu levo para chegar, qual e o que vou fazer em cada lugar e comparar os tipos e as opções de transporte envolvidas, etc. Enfim, a – qualidade e quantidade de – locomoção é um dos centros do nosso raciocínio e do poder decisivo de nossas ações. Mais do que uma uma influência psicológica e física, a potência de locomoção e os sistemas que a determinam socialmente incunbem de implantar em nós pensamentos políticos e morais, sendo a determinação dos sistemas, na maioria dos casos, deciões políticas e morais aquém da nossa realidade e necessidade de locomoção.)
Sabedoria do infante pensamento a observar a separação e a união em dor que é memória de um fluxo, um saber do Culto: à sombra, o silêncio prescinde o tempo da fruição do Belo, distância que traz a prece do espaço-luz.
SENSAÇÃO X PERCEPÇÃO
EMPIRISMO X SIMULACRO
Da consciência e da doença voluntária – o trabalho sobre si.
as categorias inerentes ao espírito correspondem a potência – regeneração, eternidade, transmutabilidade, presentificação.
“Est in Mercurio quicquid quærunt sapientes”;

All is in Hermes that the wise seek –
O mercúrio é a substância que permeia toda a matéria.
É substrato da transmutação material assim como o seu estado inicial de estratificação.
Ommaggio a Ezra, o Pound:

imagens queimando em fótons no pântano negro
quando acerra os olhos e firma-os no topo dessa espessa escuridão
solapando o que ainda ilumina a escuridão dos olhos…

serão imagens ou formas remanescentes de uma luz que de já tão vista
nos espantam com sua tensão e fulgor no bafejar de suas diretrizes

“a poesia contra a tirania dos afetos”:
a dupla cegueria da visão ou o olho-útero
prática intuitiva da contemplação sem-olho…
A tomada de consciência do nosso corpo e diferente da tomada de consciência de um objeto.
Para nós, apenas o nosso corpo é compreendido como “coisa em si”, mesmo que ainda fugidia. Ao contrário do objeto, a consciência do corpo possa redimensionar a realidade do mesmo
Mas, ao mesmo tempo, “visto” pela consciência, o corpo não deixa de ser um objeto. Daí a dificuldade da construção de uma ética, de uma arte para a forma/ação deste objetividade subjetiva.
Como nascerá a verdade do seu oposto? Como nascerá a verdade da alucinação pelo engano ou ilusão que ela apresenta?
Quando tratamos da existência, na busca de uma precição intuitiva do que é “se fazer” quando a interagimos no seu modo de produção e informação, estamos tatando não só de um comportamento, de um humor ou de uma personalidade. Na realidade, não estamos falando nem da mera contemplação do Eu e muito menos na identificação de um agente na sua relação com o outro. A existência não se estabelece pelas vivências concebidas e intencionadas apenas na consciência, mas também inconscientemente. Esta existência não deixa de ser um encontro e um desastre: um trabalho de colisões, distâncias, repulsões, atrações.
Enfim, para perceber, e por que não, identificar o que se vive, o que subsiste de tudo que criamos acima da “existência essencial” (um termo inapropriado para evidenciar o que se quer dizer), a existência não é a busca de uma identidade apenas física, biológica e psicológica. Há um campo que, de um certo modo, interligaria todos esses <modos> de existência. Um campo fenomenológico aonde as possivelmente separáveis “existências” fariam-se numa só – isto é, percebe-se tal qual numa coexistência dos tempos: virtual, atual e real, numa prática das consistências para a imanência – a produção do corpo sem orgãos e mediante o trabalho de um orgão selvagem –
Convenhamos, o conceito de <espírito> já se está um pouco gasto, mas é com essa gastura e indefinida aceitação do que se quer elucidar com o termo, aqui pretende-se perceber em que sentido se é possível tratar da espiritualidade e do espírito – o sentido propriamente dito, de que não é um plano a parte, não é algo separável entre o corpo e a alma, mas como dissemos, subsiste em todo e no resto: uma essência existencial, como disse Merlau-Ponty.

Godard e a imagem-música.
A luz é o primeiro animal visível do invisível.

Espírito e a “inteligência” das coisas.
O pensamento é o contato do não-ser com a existência.
Uma metáfora para “O Escaravelho de Ouro”:
A busca inconspícua do fracassado, virtualmente atormentado, pelo tesouro oculto de uma lenda remota, de uma história incontada mas repercutida, uma evidência, uma imaginação, uma possessão, um raciocínio, uma busca de um conhecimento perdido. O método e a potência desta loucura pelo conhecimento.
A vontade de verdade não é a imagem correta do pensamento.
(quem sabe, poderemos falar que a Fé é uma força do Nada)…

[Foto: Múltiplo agrupamento de gerações de estrelas.]

(Pensemos como a possibilidade da visão das estrelas que já morreram, ou a nebulosa, espírito remanescente da energia estelar para a transformação em outra, qual uma explosão instantânea, supernova: a imagem e o pensamento sobre ela, a imagética entrópica, desdobramento de formas e mais formas, intensidades de vidas, modos vidas).

“se tratando de ilusões, devemos tomar um extremo cuidado em escolher a certa” (Praticante anônimo de alguma religião)
– A verdade, ou a perfeição, não é um estado da forma, não é um juízo sobre a mesma. É, no entanto, uma prática – qual a prática de algum deus. É uma prática em um duplo sentido: não só o da pragmática da prática, de toda a razão que pode se abstrair da forma da vida, de todos os mecanismos e modos de agir a forma que a natureza inventa. Mas há um outro sentido, a reverberação ou extensão do primeiro ou mesmo a sua desvirtualização e designificação, que poderá se revelar num estudo fenomenológico dos acontecimentos do natural: o da irrazão, a loucura, o erro, a ilusão, enfim, a “fonte” da constituição semântica do que poderia ser considerado o “conceito da imperfeição” das regras da natureza ou da própria natureza – alguma intenção? – de deus. Esse sentido, que brota sempre esquivo e nunca furtuito, fugidio e presente, quase imeperceptível ou inconcebível, constância perturbadora da irregularidade das velocidades, a volição beirando o impossível de sua constituição e permanência – uma singular e monstruosa natureza do homem -, é a intensificação (sem fundo da potência) da vivência do primeiro. A vivência do sentido é a experiência como re-atividade esquizo das forças. A incompreensão do todo no instante (a idade dos acontecimentos, sua duração, o que a metafísica ocidental tentou tratar), do ACONTECIMENTO como uma razão primeira e oculta das coisas, é devido a simultaneidade da apreenssão desse todo e de sua mudança radical enquanto uma undiade. Mas é também como podemos entrever e fortalecer uma conduta ou uma educação para a prática das coisas, a sabedoria prática ou ética do ser. É o sentido como numa percepção alterada, um delírio do juízo, no qual este não se depara com o objeto, mas apenas com as forças que o constituem e constituem, consequentemente, o todo. Na desistência da forma, há a mistura com um cuidado para notar está noção da potência na ativação formal. A descoberta desta dinâmica sútil, mas violenta, que FAZ a potência da diferença, interina ao acontecimento, este pertencente a potência da repetição, e onde a perdição da identidade com o todo, neste momento – o qual não poderia ser considerado momento, pois aqui o tempo é puro nascimento, qual uma fé -, o sem-sentido se estabelece como o grau zero de toda escrita, a escrita de uma potência na vida: uma potência do nada, tal a o sentido de deus como imagem criadora e ao mesmo tempo, função própria do simulacro como fundadador do que nos desperta à vida. Nesta quase inexistência como indivíduo homem, contemplação e atividade, o espírito aqui não é uma imagem como fragmento do tempo, mas um instante como o tempo idêntico ao fluxo de energia: tal o pensamento.

“a perfeição que (Ele) busca está no modo como as pessoas re-agem”.
Perde-se e se ganha sentido da vida a todo momento. Cabe a linguagem desenrolar as regras desse jogo. A cada ato (lingüístico ou performático) toda a cadeia ou colônia de significaçãos se altera, revelendo no acontecimento, relações e não-relações, efetuações e não-efetuações. Dependendo do acontecimento da potência ao ato novamente, a cada alteração, é na linguagem – o processo de movimento e significação – que estendemos as possibilidades de nos mantermos ativos e vivos.
Analogia e alimentação.
“como se fosse” equivale a uma forma como a linguagem expressa para a razão – ou seja, para a racionalização, para a possibilidade de – as sensações vividas pelo corpo enquanto em estado de contemplação das imagens (alucinação).
Sartre e a Imaginação.
A inércia da existência em si, é uma imagem incompreensível para a consciência.
Sua independência da espontaneidade e do capricho, determina sua autonomia da própria coisa, é o que subsiste sem ela. É uma imagem que escapa a relação com as outras. Ela não tem uma razão. O não-movimento é apenas uma percepção,
sensação que se mantem inabalada a uma percepção que possibilita a alteridade para intensificar tal vivência.
Imprevisibilidade e o “corpo das forças” (o acaso e não um fim).
O paradoxo é a formação do intelecto, conceitualmente, no exercitar do ideal e as impressões, onde o jogo de imagens cria a abertura a uma nova “empeiria”.
Não posso comunicar a realidade que eu gostaria que fosse. É contrariar a possibildiade de mudança dela. Neste caso, a “mentira” não ajudaria a arrastar o movimento do real em direção a sua idealização, mas sim em negativizar sempre a mudança, caso essa seja mesmo negativa, ou até que não mude, o que também estabelece uma mudança, o movimento da permanência, contrária ao que eu queria. Teria, assim, de mentir de novo, reestabelecendo uma nova negativização. Para positivisar a mudança, deverá se ter um fidelidade no exame do real, mas a ficção deverá atuar na composição das possibilidades desse real ser totalmente irrealizado ou irrealizável.
E se sonharmos que somos outra pessoa? Isto seria como nos vermos, sentir o que sentimos, mas mesmo assim ter a perspectiva de outrem. O método esquizo por excelência.
O conceito é a parte sensível do intelecto?

O objeto, quando falamos dele, falamos de sua realidade como a par da nossa. No entanto, a objetividade, de onde eu percebo o objeto, nada mais é que a atualização das coisas para mim. è como se o que eu faço no mundo e a mim mesmo se apresentasse como uma objetividade, a qual possui um objeto como o real – seu fim. Objeto e o Eu, nesse caso, não estariam separados. A percepção sem objetivo enganaria essa enganação.
a edéia de Deleuze – como um conjunto de orgãos, sexuais, as reminiscências são eróticas.
É pela alucinose que nos damos conta dessa existência-inexistente, tomamos consciência de um fazer que até antes parecia imperceptível. No entanto, não é a alucinose uma experiência passível de um método que aborde todas as sensações e percepções que a alucinação pode nos trazer. É como que após a experiência que a verdade trazida por ela vêm a tona, quando trabalhada.
É ela que nos revolve pelos tempos e encontra existência aonde nem nossa memória ou imaginação chegaria pelo simples impulso da consciência, razão ou vontade…
Caberá num sonho perguntar a uma imagem?
O que eu quero ver e ouvir, o que eu quero esconder…
Sonhar seja tão somente tal vez o “sempre consigo”, um eco de si: com a dissolução do eu em imagens, movimentos invonluntários, matizes e des/organizações do próprio corpo e mente, o sonhar com a decepção ou o fracasso não é simplesmente porque irá acontecer, mas por ela estar exatamente fundando-o no momento. O sonhar é a lente de aumento, mas que na escudridão, só vera mais escuridão. Mas de fato, é também uma história e uma imagem poética que a ouça, a desenho sem parar, no desespero de desaparecer. Delinéia o meu ser no atual momento de uma existência ignorada. Sonhar é para a percepção de si não para sua previsão ou precaução.

A AUTONOMIA E A HETERONOMIA DA INDIVIDUALIZAÇÃO COMO PROCESSOS DA FORMAÇÃO PARA ESPÍRITO-LIVRE:
os sem identidade…
Memorabilia: memento ou souvenir, a cada brecha ou fratura do tempo, um objeto, um caminho que constantemente faz história (vitalidade dos signos…)
partindo da memória e do movimento, a imaginação é a que se faz uma prática de um espaço sempre em transformação, o da percepção e do simulacro: a paisagem sonora, “soundscapes” como quis John Cage, é as reverberações sensíveis e ideais do objeto em movimento, o qual vai configurando os estados da percepção do homem. è como aprendemos sobre o mundo ao mesmo tempo que interferimos nele, mudando nossa disposição em relação ao real. Que outra prática não seria parecida com essa, no intuito de desubjetivar as impressões desse real em nós, na audácia de tomá-lo como nossa extensão?

(uma prática, como está performance – mas que pode ser estendida até uma prática constante, ou seja, se apropriar das reverberações normais do mundo e recompo-las de uma outra maneira, com outro sentido…
por exemplo, a performance só evidencia uma prática já imanente a nós… ão somos “uma esponja de informações e sensações”… podemos como que modular elas, dentro de nós, para garantir o máximo de potência em responsa a essa afecção que recebemos…
estendida até uma poética do espírito… uma forma de abstrair sensações, razõs e desejos para a composição de uma vitalidade.. um corpo… um monstro… abjeto.)

(bem… vou elaborar melhor… eu entendi essa performance como EVIDÊNCIA de uma poética por ser feita… uma poética de configuração da subjetividade… o desconfiguração da mesma… contra a passividade perante as afecções, a favor de uma atividade que elabore elas para a potência… não importa qual afecção seja (o ruido lá de fora que causa nauseas, o beijo que te faz sentir vergonha, o calor que te dá sono, enfim… reconfigurar todas essas ligações… troca-las, inverte-las, arranca-las…)
Poética pois para lidar com as forças, pela velocidade e invisibilidade delas, devemos lidar com suas impressões, seus sintomas, suas imagens no intuito de ir descobrindo a “instância” mesmo dessa força e manipulá-la até o máximo…)

(ela, como performe, a “dona de casa” se apodera da realidade – pensa sobre e age em – não só mais a partir dos objetos, da objetividade, mas da subjetividade que se forma… a subjetividade como o espaço de encontro dessas forças todas e que compõem o real…. por isso a importância de uma prática que adentre esse espaço… para que não fiquemos a merce de potências que se formam, para não nos tornarmos como que automatos, né… só na base da reação… (“ah, achei feio isso aqui, vou mudar de lugar”… mas qual lugar? qual mudança? por onde você pensaria tal coisa? é um método de “descobrir caminhos” do Sentido… ou seja, o Sentido é quando uma potência atinge seu máximo em nós e ela nos dá uma clareza e uma votnade de agir sem igual…
[orgie du corps sans orgue] a “identidade” “dona de casa” não é bem uma identidade… é a busca, pela subjetivação, ou seja, escolher um MODO de ser, para encontrar esse ESPAÇO das POTÊNCIAS… sei lá, Deleuze diria que é o plano de imanência, enquanto que o objeto ou o real é o plano de consistência…)

a performance não deixa de ser e explicitar uma poética prática… pois, ao mesmo tempo que lida com as impressões, ela muda já a configuração e a função dos objetos espacialmente… existencialmente, eles passam a SER outra coisa, a TRANSMITIR outra sensação e, por conseguinte, outro Sentido, outra potência… outro MODO de ser…

[caccuri]

Os faraós do Egito antigo tinham duas funções: a do guerreiro e a do sacerdote. Representavam, ritualisticamente, os valores da coragem e do conhecimento. A profanação com a morte dos infiéis para a conquista de um existência temida, sagrada e pueril, numa simulação de um absoluto dominável. Um homem que teria tanta a labuta na guerra quanto a obstinação para um poder indomável da espiritualidade. Ele dispunha das potências para isso: desde o poder político e financeiro, até a disposição de mestres e estudos que levassem a desenvolver tais funções. Seus templos eram também as moradas dos deuses aqui na terra. Daí, à sua altura, a dimensão eresulta num tipo de construção de acordo com sua imponência e onipresença na vida das pessoas.

A indignação é a afecção que eleva-nos e nos evidência uma experiência direta com o páthos que nutre e conecta os homens na sua mais profunda e dúbia natureza: o senso de justiça, a dignidade da vida – o fazer-se.

“poiésis” grega – o fazer do objeto e o fazer da palavra.

“Afinal, um filósofo não é somente alguém que inventa noções [conceitos],
ele também inventa, talvez, maneiras de perceber”
G. Deleuze, aula sobre Espinosa

Gryphon: "I am dominated by one thing, an irresistible, burning attraction towards the abstract. The expression of human feelings and the passions of man certainly interest me deeply, but I am less concerned with expressing the motions of the soul and mind than to render visible, so to speak, the inner flashes of intuition which have something divine in their apparent insignificance and reveal magic, even divine horizons, when they are transposed into the marvellous effects of pure plastic art."

O espírito não é do domínio simbólico. Mas do fenomelógico.
É a experiência, a insistência, a existência de uma força do acontecimento.
Toda infinita mínima de corpo é grandiosamente indistinta do todo no seu estudo que nunca acaba.
A eternidade é o “menor” outro.
A percepção é o modo ativo pelo qual revelamos a nossa relação com as coisas, na qual formamos nosso próprio existir em torno dessas relações.
Quanto maior a dinâmica (dúnamis), menos perceptível é o fluxo (lógos) e maior sua persuasão e intensidade (peithós).
O verso – feitura da matéria pelo imaterial, do espírito pelo corpo:
o rito, o ritmo, a consciência, a expressão.
Na sociedade, culto ao ator. Àquele que condiz sua atitude com a situação.
A simulação como protótipo ético da pós-modernidade.
As práticas da existência, os modos de “otimização/energização do ser”:
da alimentação à limpeza, do sono ao trabalho, as culturas estão para fazer circular/recriar esses procedimentos.

O porvir da política – “É o máximo que se pode fazer: não mudar o mundo, mas retirar-se do mundo”
Humberto Eco, Folha de SP, Mais!, 11/05/08.

Estou neste trabalho, o da insurgência: da prática das potências, que fazem da existência um trabalho do fluxo da vida e não contra ela. Sei de uma extrema capacidade, de potencialização e atualização, que habita os homens a tempos, desde os primórdios seja transmitida a eles (algo não-humano até…), mas são raras ou não houveram, até então, educação ou consciência que tenha se perpetuado ou sido transmitida conforme o próprio passar do tempo, com suas práticas e vitalidades, ou seja, o Espírito dessa Educação, já que a vontade de poder e o próprio Poder dos homens sobre os outros fez com que diversas culturas apagassem de suas memórias tal aprendizagem que só se trilha caminhando…

Há em algum tempo ou dimensão em que atingimos a alteridade da existência, nos transmutamos e sentimos diversas intensidades que nos atravessam, mudamos o modo de Ser, existências que se intercalam na composição do que chamamos Vida.

Contudo, não há um Ser desta Vida, senão, o ser como uma experiência deste tipo de formação energética que é a vida. Multiplicidade e acontecimento. O que existe na vida? Tudo existe e não existe: a vida faz parte da dinâmica do Ser/Não-ser. A existência é a própria prática do Ser, de um modo, de uma potência, de um conhecimento de ser que está contido na vida. O que corre nessas existências é o fluxo de diferentes velocidades e intensidades, singularidades da força: cada modo ou conhecimento tem sua singularidade e sua prática, mas todas as potências coexistem enquanto tais, enquanto potência, e podem ser atingidas por toda a existência ou por todos os existentes. Aí é que está: a potência é algo que faz parte, intrínsecamente, do que é e do que não é… ela é a força da transmutação, da mudança, do movimento, do ato, da Vida. Aristóteles pensava que Deus ou o conhecimento que se pode atingir através da espiritualidade fosse um ato puro. No entanto, acredito que seja alguma potência pura e quase imperceptível, tamanha é sua intensidade que quase não deixa ela Ser – uma energia.

Assim, presumo que haja algum conhecimento que se aprende durante a experiência da vida, a existência, e enquanto humanos, talvez sejamos nós o que precisamos mais trabalhar para atingi-lo, essencialmente pq somos dotados de tamanho contato com essa potência, nos causando a duplicação dela: a razão. A razão não é o contrário da potência, mas é o ato da mesma e, não obstante, sua atividade é seu inverso, sua dissipação enquanto essência, é ausência de si enquanto existência. A razão, em seu ato, é algo que nos impede de perceber ou ver a potência na sua atualização, não permitindo conceber a realização de todas as forças que se movem para o acontecimento de tal ato.

Eu resmungo e titubeio na convicção que este conhecimento ou esta aprendizagem ainda possa ser chamada a respeito do Espírito ou da espiritualidade. Senão, por que tantos povos utilizaram deste tipo de nomenclatura, cada qual na sua língua, no seu signo e traduzindo seu sentido a apartir de uma experiência da morte em vida? Não é uma sensibilidade na morte, mas uma sensibilidade da morte…

(Para uma percepção [aesthesis] do não-ser ou do virtual…?)

O que será este espírito? Qual sua função? Onde está sua experiência? Muitos tentaram deduzir, estudar, ensinar, viver este tipo de experiência da existência que se chama espiritualidade. “A dificuldade, talvez, resida em conceber o espírito como uma potência, uma força de passagem e atravessamento ou transição, e não uma forma ou um objeto”.

Quando no julgamento de algo, a quase todo instante, pois — procedimento da racionalização, evidência de uma Razão, que é a atualização da matéria, isto é, revolvemos nossa potência, relacionando imagens e sensações, para a medida ou dose da próxima ação, com o intuito de pratica-la segundo o mais potente ato possível (ato sendo o processo mesmo de atualização; há uma inteligência que se ocupa disso… o espírito) –, o ato de julgar já é uma potencialização enquanto imagem e logo um rompimento ou projeção para com a mesma em detrimento de uma outra forma, a transformação por um ato, porém análogo ao objeto de julgamento, o que não se faz por acaso: toda a potência revolvida e trazida a tona no momento, será de extrema influência neste processo. De fato, está potência, que chega até nós em sensações e logo em imagens, depende do que e de como ela apresenta formas em nós para que o ato seja de acordo com a situação e o ambiente, e logo, com nosso desejo. As imagens que se projetam têm um papel fundamental; saber quais devem se trazidas a tona não é um exercício do desejo imediato, não é uma deliberação que é feita no exato momento em que acontecem as asparições. O espírito de cada animal já está dado, de cada vegetal ou mineral, cada ser, já está concebido. Aos homens, este espírito é feito por ele mesmo. Ele nasce com a capacidade, mas é ele que traça seus limites. Este exercício contínuo e inevitável é a feitura de nossa existência enquanto vitalidade da potência: daria a essa prática o nome de poética (como objeto e como palavra, matéria e imatéria) do espírito.

Resta saber por que tantos povos e culturas deram um nome a um tipo de existência, tão variada entre eles, mas que pelo seu desígneo, aparentavam trazer a potência dessa existência.
Das varias tribos indigenas da América, dos povos hindus e budistas, das religiões messiânicas do oriente médio e das politeístas dos nórdicos e gregos, das atribuladas concepções do espírito na filosofia e no xamanismo, da concepção espírita do espírito, da concepção ocidental capitalista e psicológica de o espírito como orgão complexo a ser chamado de mente ou a consciência… todas essas visões tendem a trazer algo em comum: o espírito, por assim dizer, é uma imanência na própria matéria, uma vitalidade incrustrada na feitura dos atos de cada dia, uma inteligência como vital-idade (ou primeiridade?) na qual a organização material e atual, dependente dos fluxos virtuais, pode ser transformada e elaborada pela atividade espiritual.

Imagino que o ritmo das forças dependem de como elas são “tocadas”. O destino está nas práticas com as quais executamos a música: o fluxo da vida.

Há uma verdade escondida por detrás das alucinações, dos vícios, dos erros, das “iluminações”… todas, ainda, experiências de natureza muito “obscura” para o homem.

A espiritualidade se percebe através destas experiências, porém, a repetição dos mesmos, impede o desenvolvimento dela. Ela é, como disse anteriormente, a percepção [aesthesis] destes movimentos do ser, do ser se fazendo pelas variações de potência; mas estas também podem variar e acontecer, se tornar racionalizações onde não mais acompanhamos, não fazemos parte, ou nós mesmos expulsamos estes tipos de variações por julgarmos perniciosas ou absurdas, estranhas… mas elas aindam nos habitam com oque abandonadas e voluptuosas, incessantes, provocando em nossa consituição de personalidade e caráter como que num automatismo, nos conduzindo num “acaso” ou “destino”, uma vontade não mais querida. Os sentimentos em relação a isto deve mudar, mas para isso, devemos compreender o que nos vai ser sempre estranho (esquizo, louco) por natureza. O espírito é este tipo de “fazer” subjetivo e objetivo, e os espíritas, creio, acertaram ao dizer que todo tipo de vício ou perturbação mental que não “gerida” pode e acarretará na feitura de um espírito mutilado, onde forças não se cruzaram e vazios acabaram por centrifugar nossa aptidão à potência: são sintomas de uma alienação da própria potência de sua existência: a espécie mais triste e enfadonha de Animismo.

O espírito não seria um corpo extra, ou um fase de transição entre a vida e a morte, mas de certo, ele habitaria as duas fases de ser. Se é quando morto? E as memórias, a fama, o conhecimento desenvolvido por um em sua existência e que se perpetua durante os tempos? Por isso a característa existente-inexistente, um paradoxo da existência… eis a vitalidade como Espírito. Ele não possui, então, uma corporeidade, então não terá alguma política, uma moral ou uma saúde; não haverá tempo nem vontade que que se apodere dele, contanto, como Nietzsche procurou, ele não possui liberdade: é, ao contrário, a liberdade enquanto o trabalho para uma obra: o que é vital a si é como fazer sua existência, o que criar nela e dela. O espírito é esta atividade e um conhecimento, ao mesmo instante de beleza – a criação de vida; é ele a constituição da intuição volitiva, uma inteligência universal [noûs do ôikos] nas singularidades do Ser, uma inteligência que apresenta uma prática, a qual se envolve em todas as outras práticas, atemporalmente, como uma Alteridade (Outra idade): derivado de todas as manifestações do Ser, um conhecimento divino e universal, como uma postura e como uma abertura, o tocar e o som, a imagem e o objeto, a matéria, a sensação dela, e a imaterialidade (não é forma, por sua vez não há isomorfismo quando se <fala> dele, se faz por) que se revolve na transformação.

somos e não somos, estamos e não estamos (aqui)…

loucura?

“Imortais mortais, mortais imortais, vivendo a morte daqueles, morrendo a vida daqueles”
Heráclito
Do mito a história – a perda dos procedimentos poéticos para a prática de uma vitalidade do tempo.

Ato, rito e sentido – cada ato num rito tem um sentido específico, atribui uma função material e ideal ao mesmo tempo. O ritual, intrínsecamente, é produtor de sentido à medida que compõe o ato além de sua causalidade, procurando estabelecer, desde sua formulação, uma correlação da matéria com sua potência, deliberando as forças que devem ser empregadas e instigadas pelo ato.

O desejo instintivo contém uma inteligência oculta.
Um sistema de informação para a sociedade moderna e contemporânea é elaborado com o intuito de destacar dos fatos materiais o seu enredo informe, isto é, em formação: o discurso informativo pretende, com todo o seu aparato retórico, extrair a causalidade dos acontecimentos, causa e consequencia deles, evitando a apologia ideológica de qualquer força atuante do fato. Pretende discursar sobre os desejos, motivos, possibilidades, sem incluir qualquer menção que dê enfase de continuidade a um futuro que ressalte a razão de seu próprio enfoque dos fatos. Mas fracassa ao denotar qualquer tipo de neutralidade desse discurso, de extrair da perspectiva, uma história das falhas, dos desejos, dos impulsos – peca ao simular este informe histórico acético ao substituí-lo por uma “visão feita da história”, mais passional do que qualquer opinião, mais ideológica do que as ideologias do senso-comum, já que é ela que o produz na modernidade, é ela ao distorcer a realidade material e o porvir da mesma. [Jornalismo, para atingir o informe da sociedade, prcisou infiltrar-se nele detendo poderes de controle e organizaçã social, podendo assim, estender sua mensagem enquanto a “história do tempo por agora”]
Uma escrita, desprovida da consciência de sua própria razão de existência, acaba por deixar um legado enquanto medidas de um homem em sua sobrevivência.
Destino Grego: ao invés do lógos inventar as razões para determinar suas atitudes, por que ele não trabalha as causas para direcionar suas ações?
Não ignorar o páthos ou ir contra os afetos, as sensações e sentimentos, as imagens que surgem, mas trabalhar com elas, pelas mesmas imagens, sensações e afetos, numa jogo de composição, de força, extraindo conceitos, isto é, sentido para o próximo ato, para a diretriz, ao fluxo, até retornar ao próprio páthos em plena potência.
Em sonho, o lógos não adormece.
Toda pulsão está relacionada ao estranho, ao violento, ao imprevisto e ao amor.
Blanchot/Deleuze
Na condição de paciente, nunca se espera por, mas se trata de.
O ato de criação se trata de um tempo sem tempo, o processo contínuo de alteridade na criação de algo para além do existente, mas que o retorna a ser interior e exterior a si mesmo, mesclando suas virtualides e realidades: do intempestivo, a vitalidade como espírito.
“Gilles Deleuze: o ato de criação” uma idéia muito proxima a essa… A partir de uma frase de Blanchot em A Escritura do Desastre (???): “Quando somos pacientes, nós o somos sempre a respeito de uma desgraça infinita que não nos alcança no momento, mas relacionando-nos com um passado sem memória”, define-se o ato de criação artística para Deleuze pois “Esse passado sem memória ou tempo original é o que Deleuze evoca com o nome de acontecimento; por isso, afirma que o sujeito artista recebe a revelação de um tempo original como acontecimento ou ferida” (a partir de A lógica do Sentido, especialmente os cap. Do Acontecimento e Da Univocidade)

A memória da espécie, paradoxalmente, é o ponto de origem de um passado sem memória…

“O imediatamente dado não é ‘velocidade infinita’, ‘imanência pura’, para nenhuma consciência, e só se chega a esta na paciência infinita de uma revelação expressiva em um regime de signos, ou seja, para além de qualquer intencionalidade ou voluntarismo. Para Deleuze, só se alcança a gênese ontológica que se efetua como o expressado encarnando o tempo original na impessoalidade do acontecimento, e isso supõe um estado alterado ou um delírio do sujeito.”

quando me agarrei aonde nada havia para se esperar
fui invadido por um vento, um movimento, um destino…

(de sutil e intenso, seu risco e perigo)

não há mais motivo para esperar… ansiar o porvir… “redundar potentemente”… torná-lo uma prisão; na cabe a ansiedade e esperança, as a atenção…
não sei bem ainda o que isso quer dizer…
Mas há uma postura a ser desvendada: a nossa consciência contemporânea afirma que habitamos os diversos tempos, só que ainda manipulados por tecnologias de desvirtualização… de previsão e provisão…

para encararmos o porvir eterno de tempos, nós, ermos devires, seremos seu inabitante…
De Ares a Ogun.
O eu pele. O eu boca. o Eu olho. O eu bexiga. O eu pescoço. O eu veia. O eu viscoso. O eu meiado. O eu dengoso.
da alucinação e da miragem, para a percepção de um “real-idade”?
Durante a história do homem, as variadas imagens, reminiscentes alucinações sobre as poéticas da alteridade, foram denotadas segundo diversos nomes, cada signo ou símbolo trazendo consigo um sentido preciso as necessidades de potências que cada povo carecia. No entanto, todas essas localidades virtuais, a própria potência e não-lugar que o nome esconde, percorre as várias percepções da humanidade há um bom tempo. Uma tal poética está para ser convertida numa prática a qual seu mote será não mais dogmatizar os métodos, os fluxos, as idéias –
Realidade virtual é a desvirtualização do virtual em detrimento à lógica do atual
O espírito é a identidade como acontecimento, o real (virtual + atual).
Nas faces do mundo vivo exprimem-se os códigos genéticos da aleatoriedade do eterno.
(a existência é a própria essência das forças)
Sinto como se fosse traído o traidor.
Engolfado no próprio veneno, tenta olscutar a própria dor.
Não há quem diga que ele esteja mal. Ou que não vê.
Só não quer mais é pensar enquanto isso não lhe faz ser.

É como se ele não entedesse o que havia feito.
É como se nunca fosse entender.
Não poderia sentir, pensar, imaginar, a não ser após o fato consumado.
“devemos fazer e muito, se queremos ter a competência de falar com a vida daquilo que ainda engatinhamos com paixão”

A imagens são transmissões do virtual.
A paixão, não deixa de participar da matéria enquanto seu movimento.
Uma imagem não deixa de ser uma paixão.
A ilusão, nesse sentido, carrega uma espécie de verdade, de certeza, de convicção:
uma vitalidade que transita pelos sortilégios da duplicidade da matéria, de sua reminiscência virtual.
Imagem ou realidade?
As afecções não deixam de ser os próprios sortilégios da criação.

Na consciência, a economia da morte.
Os sentimentos, as emoções, os afetos… a humanização do páthos –
nada sai impune em meio às sombras.

A prática poética do espírito… a feitura do real
Da racionalização [atualização] do páthos ao retorno do páthos enquanto imagem –

o que é fazer uma vida?

É conquistá-la mediante o convencimento de sua finitude
ou por enganá-la na sua contínua insistência?

“todas essas coisas que DÃO a consciência que tais afetos precisam para ganhar o mundo e nos lançar como autores desnaturados, como feitores de sonhos candentes”
O não-ser só o percebemos pela sensação.
Da inexistência só o concebemos pela imagem.

As vezes um estádio de espírito (um modo de feitura) leve seu raciocínio da mente a manter a súpura do corpo. Inventar personalidades, modos de ver, sentir, agir?
A alucinação é a percepção da fé e início da dissoluação e da possibilidade de dúvida.
O delírio é a convicção enquanto processo de abertura, atenção e consistência para o porvir.

Inversamente,

A alucinação é a escuridão dos fatos, das personalidades, das organizações superficiais.
O delírio é o anti-método dialético para a persistência da conciliação dos tempos.

Assim,

A alucinação é uma percepção alterada da consciência à sensação [aesthesis] de um todo mediante prática do uno, disjunção e conjunção, estádio uno em meio a multiplicidade do lógos.
Todo o irracional e o racional fazem parte de um só processo de conhecimento.

A identidade estatrá na transformação que nos submetemos e não na forma que adquirimos.
Toda poética é uma biopolítica e não o contrário.
Deve-se fazer memória enquanto uma imaginação. Não desiludir. A ilusão está na luz que ela refrate. O que era isso era outro. O paradoxo do entendimento.
“…La literatura parte del verso y puede tardar siglos en discernir la posibilidad de la prosa. Al cabo de cuatrocientos años, los anglosajonos dejaron una poesía no pocas veces admirable y una prosa apenas explícita. La palabra habría sido en el princípio un símbolo mágico, que la usura del tiempo desgastaría. La misión del poeta sería restituir a la palabra, siquiera de un modo parcial, su primitiva y ahora oculta virtud. Dos deberes tendría todo verso: comunicar un hecho preciso y tocarnos fisicamente, como la cercanía del mar…”
J.L.B. – La Rosa Profunda
Por que a palavra, o verso, o ancestral <lógos> é concebido hoje como a tão desacreditada prática de comunicação numa sociedade falida pelo acordo, injustiça de seus valores e corrupção de seus próprios ditos pelos feitos dos mesmos?

Alvo de tanta monopolização social e ideológica, é difícil conseguir ler e perceber entre tantos escritos algo por tomar-lhes vitalidade e disposição. A palavra, o <lógos> que um autor investe em prol de seus desígneos, por qualquer eleito um cátedre, docente ou nomeado intelectual, redator de uma lei ou mesmo de um ensaio ético-político sobre as ações, vista sob os olhos do próprio autor, é um ato falho, abortado de qualquer lógica, consternação frente a morte sem pudor e é como se do que fizemos através de nossa linguagem, de nós mesmos, nada retornasse de alguma forma a nós, nada da expressão reinvidicasse uma vasão e transformação no agente pelo qual se faz aberturas de possibilidades, do ato ao devir, o que, de fato, faz da expressão do ato, um signo compreendido num valor nulo: é como se nada valesse a pena pela força que forja-se e direciona, pelo espaço e tempo distorcidos que adentra o autor, ao lugar impossível que o ato de expressar-se nos arremssa. Como se do lógos expresso nada nos fosse parte. Perde-se o tudo; desta maneira, ignoramos o fenômeno de cada expressão em desdobrar-se infinitamente num fragmento de tempo, um corpo mutilado se faz total por um instante. Do pensamento à imagem, do músculo, nervos, e sons, todo o movimento do virutal ao atual e seu seu retorno. Memória e imaginação contemplam o fazer imperceptível: cada ato é um ato de comunicação. Por senão, pela palavra, a investida dos devires dos corpos mesmos por tal movimento, fomentamos a energia para a escritura de nossa existência. Assim, falar hoje, assim como escrever, poderia se dizer da atividade de sonâmbulos e alienados. A escrita se torna uma redundância irônica e fatal, que nos levaria a insônia e ao desespero…

O <lógos> ou a Palavra entraram numa letargia de sua produção. Pelos inúmeros processos em que se acometeu um erro, suplantamos a criação por sobre o incriado: literalmente, o poder de transformação objetiva e subjetiva, acabando por domesticar nossas sensações e nossos devires da e em relação a linguagem (ao que incessantemente fazemos e o que não deixa de se fazer através de nós). O próprio fenômeno do <lógos> enquanto um movimento insuperável – nem ao dormir o lógos não para de se mexer – é sublimado pela determinação simbólica (atualização, direção, forma), assim como num verso ao discurso, ou a própria Escrita – ato e potência da escritura, de extrema identidade e morte – tornam-se reféns de uma “gramática da desvirtualização”, uma gramática que engendra limites e intercepta o poder sobre a vida ante os vivíveis: pelo símblo, fizemos nossa morte. Tornar o poder da linguagem numa normatização, uma nuvem denominadora de territórios e de subjetividades, de sentidos, não criativos, nem criadores, de espaços, tempos, realidades, mas, ao contrário, fomentadores de uma realidade única e opressora: a do entendimento e o regime da loucura. Apaga-se da vivência, enquanto uma falha ou um erro ou ilusão, a analogia das formas, a sinestesia da expressão, a poética (a feitura enquanto escritura) que decompõe o real, que acabam por se diluir no próprio ato das relações linguísticas, onde esta diluição é novamente estrutura na hierarquia do Entendimento, hierarquia essa que o próprio Regente Gramatical predispõe na educação segundo as palavras, as construções gramaticas e suas formas de disposição do discurso, onde uma palavra perde sua autonomia de transformação de realidade e esta passa a ser um campo de inverdades pelas limitações que se atribui: os sentidos são condicionados a se repetirem e se atrelarem a páthos e nomes – a potência é vigiada. Os silêncios, os sons, os códigos e sistemas, assim como as próprias figuras de linguagem regem o devir da língua. Mas ao se instituir um Sistema único de expressão e compreenssão, um regime esquizofrenico do Sentido, obliterasse, aí, a percepção real da existência da linguagem enquanto um paradoxo da expressão de um corpo, da flexão do mesmo e da confecção de sua existência e sentido: da expressão, quando os sons que emitimos ou os traços que escrevemos para exprimir uma palavra, não mais existem enquanto tais, mas passam por uma transformação em sensações, imagens, sons os quais ativam o devir-língua, o devir-palavra, o devir-imagem, o devir-corpo, o devir-louco.
Não é porque as pessoas aparentam algo é que elas levam a cabo.
Nem se deve temer nem o medo nem o fracasso. É o conhecimento da fraude, do fim e do recomeço, da pesquisa do desastre e do método da morte, do inexistente enquanto informe ante a existência formal.
E Sartre por uma filosofia do escritor nômade ou A Escritura da Falência do Ser (teorias-poéticas do Outrem). “Lagos do não-ser”, “viscosidades da matéria”: a palavra, é também a ameaça que se instaura na representação do sujeito (as especulações do ser e não-ser), recolhendo das imagens e sensações o inaudível e indizível, embrenhando-se na imperceptível escuridão simbólica do ato fenômenico da comunicação. A escrita nos faz boca e ouvido, concebe corpos sem orgão mediante a pulsão do Orgão Selvagem: a linguagem é intervida na inexistência existente por ordenações e desordens por onde os homens tomam parte de um mundo na sua obscenidade escatológica: o nu é feito pela palavra e no qual permite-nos tocar, agitar, transformar-nos mediante êxtases e essências metamórficas – caímos nas nossas miragens, ilusões que despenca-nos nas vertigens de nossas atos e pensamentos, de superfícies irreais para encontrar-nos em vazios por percorrer. Nos arrastamos por entre os poros, as lacunas e transpiramos num aparecimento etéreo de nossa ausência, redescobrindo o não-ser em nós – a possibilidade do impassível. A literatura seria a escritura tal de uma “subjetividade social” em revolução permanente (seria mais, tal uma história total, do homem enquanto existente por ela ou não?…).
O mythus (ainda) é a voz que carrega as diversas histórias de sobrevivência, narrando o veredito irreverssível dos tempos.
“A Nuvem”, Fernando Solanas e Pavlovski. A Escuridão e a Neblina:
Os dois tipos de cegueira, dos <meios> de conduzir a loucura.
Cartola; “Fita meus olhos (…) vê como eles falam (…) Que os meus olhos falam o que não vê”
O pensamento e a impossibilidade de pensá-lo: Artaud e o teatro espiritual dos múltiplos, a crueldade para arrancar uma identidade para além das faces do eu. Eis o pensamento e o não-ser: em Cartola,

“O pensamento é uma folha desprendida
Do galho de nossas vidas
Que o vento leva e conduz
É uma luz vacilante e cega
É o silêncio do cipreste
Escoltado pela cruz”
Assim que, como em tempos quando países lutavam entre si para garantir a existência e engrandecer suas nações, na busca da preservação da dignidade de um território e de uma cultura autônoma, e os filósofos partiam de problemas não-filosóficos os quais eram arrancados dos acontecimentos e conflitos sociais, por sua vez, numa contemporaineidade de exaltação da multiplicidade de expressões em prol da unificação do poder sobre os modos de existência de cada pessoa, tais problemas não-filosóficos não bastariam para elucidar apenar casos de grupos ou nações bem definidas entres seus problemas: ao contrário, cada crise ou paradoxo articulado na análise deste problemas reflete a que ponto estamos de estabelecer condições de encarar o problema atual que enfrenta a existência humana indiferentente de cor, raça, nação ou tempo em que viveu…
A danação de uma formação educadora para o espírito e para a potência: qual de nós aguentara às vias de um tratamento do incurável? Uma sensibilidade beirando o improvável… (em puro páthos).
(Cioran, Nietzsche, Xamanismo, Budismo, caminhos de perdição)
Chamemos de <farmacopoese> um conjunto de práticas que modulam, configuram, esculpem por fluxos a matéria. São praticadas tão somente enquanto uma “relação” entre elas mesmas: elas envolvem desde a ingestão de substâncias em doses estipuladas, à criação de idéias e conceitos. São práticas do simulacro, para se atingir tipos de percepções, estádios de disposição: a partir daqui, concebemos as coisas e a si por abstrações e trajetos de um lógos que não mais se autoidentifica com um só percurso, mas por todos recônditos do pensamento.
Ora, estamos falando de um ato exatamente da razão, mas enquanto percepção ativa do que é ocultado em sua ação, bem aí, em seu processo de relações no qual o <lógos> empenha suas operações de combinações entre as coisas, uma com as outras, anulando, transformando, inventando, mutando, um sem fundo e num sempre tempo atual, que por tais práticas tratam-se aonde nenhuma outra ciência consegue estipular ou projetar nosso pensamento: tratamos do <informe> e a farmacopoese antecede qualquer tipo de educação que seja meramente “formal”.
o orgão selvagem do abstrato ou da evolução criadora, uma infinita mutação do não-ser em sua atração e repulsão nos estados diferentes da sua atualização… é perceber uma função, ainda que impassível, na medida em que a constituição de nossa liberdade se faz pela percepção de uma “Inteligência Natural” (Pound) a partir da feitura de um Espírito (conhecimento do irracional para o homem);
Há algo de inesperado agindo na postura do homem quando este se vê em meio a acontecimentos que não condizem com a disposição atual a qual ele se preparou. É como se o que houvesse planejado para lhe acontecesse, se realiza num inaportuno, pois sua postura é inapropriada para que lhe permita disfrutar de tais acontecimentos. Isto é, o ideal acontece num momento em que sua própria disposição, a qual ele a esteva construindo até então para atingir tal ideal, não mais condizesse com o mesmo, impossibilitando de que este, de fato, seja um ideal para o agora, culminando numa das mais infelizes contradições do comportamento humano. O fado da consciência tardia: lamentar-se da falta de um pensamento político à altura da percepção de sua realidade.
O delírio é instinto.
Dos antigos povos originários e espalhados no mundo, os mais numerosos são os que ainda disputam lugar na globalização mundial em meio a uma luta por reconhecimento de suas etnias. (Nela, não existe um vencedor: acabarão por se extinguir à todos pela sua confiança de uma supremacia de vida.)
O Homem-Elefante.
A monstruosidade da vida: dela, nada lhe pertence, nem ela mesma.
Contudo, é de sua autoria, cada feito que o transforma num homem aceitável ou não.
Assim, deixamos à sociedade o julgamento de nossas transformações: o medo de não ser aceito esquiva-nos da feitura de nós mesmos, na procura de uma “normalidade” arbitrária…
A imagem é nela e por ela, a visão de uma busca:
a beleza enquanto analogia, enquanto transformação.
De um corpo ao outro, é a reflexão do intempérie, o simulacro por excelência, a infame vitalidade eterna.
A queda da humanidade: os Impérios e a depravação, perversão causada pelo poder (Maias, Romanos, Persas).
O multiculturalismo é fruto de culturas ainda perdidas e nas quais, tais percepções reveladas, deixam de ser para o homem, mais uma tentativa de reverter o poder da centralização dos modos de vida.
A recusa de Cioran em se tornar um religioso: uma aposta numa alteridade mística, num forma de contato e sacração do profano em quanto experimentação de um absoluto perdido? “o que parece certo é que esta indefinição absoluta e esta resistência a ser classificado, essa recusa de tomar partido e aderir a posições estabelecidas, é tudo menos inconsciente ou involuntária”.
Êxtase da experiência mística do delírio.
Juan-David Nasio, “A Alucinação”: neste livro, Nasio busca situar o desejo do sujeito na origem de toda alucinação, o que faz com que esta seja compreendida num quadro que transcende os limites da psicose, nos quais ela é freqüentemente abordada. Para isso, parte de três premissas: a alucinação existe sempre na relação com o outro; a alucinação pode afetar qualquer indivíduo; a alucinação certamente é um sofrimento, mas consiste também em notável capacidade de percepção.
Falso paradoxo semântico, todavia um paradoxo da existência?
O objeto das sensações e percepções em meio à alucinação é o próprio corpo e pensamento do alucinado:
o ser em acontecimento é percebido como a ausência de uma existência própria pela qual este atravesse, marcando, assim, a posibilidade da loucura em entrever um conhecimento infalível: a ausência da obra racional de constituição do “eu” permite que este, o “eu”, seja apercebido na diluição de sua história e desejo em pura sensação: imagens, sons, gostos e gestos são os efeitos da atuação de uma força a qual, em estados não-alucinatórios, seriam imperceptíveis e não-reflexivos.
De onde, isto é, como viria está convicção inabalável despertada por tais sensações sem objeto a ser atribuida a algo para além do próprio alucinado? Não será está convicção uma prova da potência intrínseca e imanente do pensamento em relação as suas representações? Não será a possibilidade da coexistência dos tempos, assim quando estes são percorridos pelo pensamento?
O que dispararia/despertaria, então, um surto alucinatório?

A espiritualidade deveria retornar as suas raízes: perceber a imanência de forças naturais, de inteligências divinas nos elementos das naturezas, nos seus acontecimentos, é a sabedoria do Espírito contido em cada uma dessas manifestações: um conhecimento de pura potência, páthos puro, no qual revolve a razão por criar novas formas e modos de agir e pensar. Na antiguidade, deuses se movimentavam entre os vivos como espíritos, que ora antropomorfizavam-se, ora tendiam a manifestar-se pelos fenômenos os quais eram atribuidos a eles: uma sabedoria divina que trazia no Nome do deus, no seu Conceito, e, uma vez invocado por rituais, trazia uma espécie de vigor, de disposição para um ato ou percepção os quais se faziam “necessários” no momento. É este tipo de conhecimento que podemos trazer dos estados alterados de percepção e consciência, uma espécie de MIRAGEM do seu estado em transformção, de seu ser por inteiro, isto é, envolvido por todas estas forças divinas, sagradas e profanas.
Em diferentes religiões, diferentes deuses/espíritos eram invocados por diferentes práticas que permitiam incorporar diferentes atributos relacionados a essas deidades. No entanto, todo esse processo não deixa de ser o normal para o humano: o normal no sentido patalógico – somos afetados, ainda, pela mesma maneira, por estas virtualidades.
Valquíria (Valkyrja): o escolhido dos mortos.
deuses, Inimigo dos dois lados: possessos, tais forças nunca respeitaram religiões ou crenças, apenas a força.
Obsidian, pedra vulcânica, espelho de fumaça: a violência de homens contra homens vêm de longa data. Poderíamos até supor que alguem faça uma História da Violência, sabendo que haverá sempre o páthos do mundo infringindo sobre a matéria toda e a violência íntima, voraz, como uma continuidade das forças do mundo sobre homem. Esta última violência é a que caberia desde os rituais, latrocíneos, assassinatos, genocídeos, etc. Mas é esta também a violência que o próprio homem infringi sobre o próximo como extirpação da primeira. Uma espécie de compensação?
Mas aonde iremos quando esta violência que usamos contra nós mesmos superar ainda mais nossa gana de viver? Isto é, quando não aprendemos a lidar com a violência do mundo e ainda sim aumentamos a carga de amargor, desespero e violência sobre nós e sobre o mundo, o que restara de nós?
O medo é um espelho para tal situação – quanto maior o nosso medo do outro, maior será nossa violência contra nós e o mundo. Uma fumaça escura emana do fundo e cega a nossa espécie…
De monstros e demônios: fantasia e mutação de forças em comum.

Whoever fights monsters should see to it that in the process he does not become a monster. and when you look into an abyss, the abyss also looks into you. ~Nietzche

You that like a dagger’s thrust,
Have entered my complaining heart,
You that stronger than a host
Of demons, came, wild yet prepared ~ The Vampire, Charles Baudelaire

The lady strange made answer meet,
And her voice was faint and sweet :–
Have pity on my sore distress,
I scarce can speak for weariness :
Stretch forth thy hand, and have no fear !
Said Christabel, How camest thou here ?
And the lady, whose voice was faint and sweet,
Did thus pursue her answer meet. ~ Samuel Taylor Colerige, Cristabel

fazer Sentido é o trabalho de uma percepção na busca do irracional: a razão, o ato, eis aqui a criação do conceito que, sem representação alguma, se faz vontade e movimento.
Psicodelia e substâncias farmacopéicas, da alteridade e o devir-louco na onsituição de um devir-potência, disposição para a potência: o processo e a prática da razão e do espírito através da percepção e do trabalho dos fluxos pela sensação quando na alucinação se entrevê uma convicção do delírio: a desordem do “nosso” lógos não altera o “lógos” do mundo, pelo contrário, as medidas se equivalem na sua falta de intenção, permitindo ao próprio corpo orgânico redefinir-se numa ordem completamente nova de ação.
Notas sobre <percepção>. Na brevidade eterna do instante, o paradoxo é a “lógica” ou o próprio ato analógico ao seu acontecimento puro: de ambas as direções imperceptíveis de seu ato, logra-se por pressentir e ressentir ressonâncias de tal acontecimento.Ressonâncias, convicções, devires que, por sua vez, dilatam a incomunicabilidade deste momento: o simulacro se faz uma vitalidade para todo o real.
Precedendo o instante do acontecimento, presente-se a verdade da ilusão: um passado já perdido.
Posterior ao movimento, ressente-se a desgraça da verdade: um futuro ainda ausente.
Alucinose e as Experiências Fora-do-Corpo: as sensações não vêm mais do sentido, mas das imagens, do intelecto.
o Espírito, a Duração, o Pensamento;
o trabalho de um conhecimento.
A necessidade de fazer uma história da filosofia, além de possuir também uma função e um prazer eróticos, é pela abstração máxima que a consciência efetua em todos os modos de vida e acontecimentos ao longo de nossa existência para que possamos, de algum modo, nos livrar-nos do desespero porvir.
No entanto, a utilidade de estudar tal história, por contribuir com um certo torpor dos delírios do homem até então,
é pela liberdade que nos apropriamos por conduzir nosso destino através e para além da contingência e necessidade geradas por tantas tribulações de percurso.
Atômica e sutil, a verdade é a expressão de uma realidade, de uma totalidade, na mistura de emoções, sensações, desejos e memórias de uma vida e, principalmente, de COMO ela se afirma enquanto a negação de sua perenidade, de como toda essa mistura se apresenta, em cada instante, e se atualiza e transmite vitalidade nas suas transformações. Muitas vezes, a verdade é antagonicamente ao O QUE se afirma (nela ou dela).
A prática da <grande saúde> – para não nos viciarmos no mesmo remédio, para não caírmos na loucura do emplastro ideal ou da farmacopéia rural para as nossas dores, estendemo-nos a conquistar e a renunciar de que a idéia que já nos apascentou um dia, tal cura, talvez não mais funcione para você…
Não devemos ser preguiçosos na busca de sempre mais um devir que <nos leve até aonde ainda não estávamos daquele mesmo modo>, de um transvalorar os valores de cada época, situação, conduta e história…
A POÉTICA HISTÓRICA como uma prática crítica de captação; ou antes, um descolamento de devires no próprio rizoma da história. Esta, como um fenômeno ambivalente, infinito e perene, mais do que um relato e diferente mesmo de uma ciência dos fatos e causas e consequencias, será a reflexão sobre as impressões, sobre a sediemntação, uma prática da resistência ao corporeidade. <Pensar> de forma atemporal não só os fenômenos e fatos que ocorreram para a formação da realidade atual, mas para retirar desta aparente continuidade, para alcançar novamente o páthos da coisa ou da imagem, novos aconstecimentos adormecidos até então, não-efetuáveis devires-potências de realidades secretas, alteridades ocultas pela superstição e credos; é necessariamente deflagrar novos caminhos do desejo em se afirmar, em se realizar na força do homem em se fazer, em se dar. Logo será também a trapaça inerente, a confabulação, o fracasso mesmo do existente, contra as tecnologias que mantêm o curso dos acontecimentos da existência (e os reproduz contiguamente).

A ontogenese do indivíduo, de cada <ecceidade>, é um processo contínuo de desidentificação da forma e da matéria, e mesmo das gerações e corrupções do real. A <ecceidade> enquanto identidade e diferença dessa mesma essência, enquanto prática da alteridade, é um cultivo de um passado sem memória do ser, uma primeiridade ou primitividade ou um “tempo original”: a memória é a imaginação histórica, a sensação e vitalidade do fluxo inteligente que o percurso do intempestivo traça e dilui-nos por através de nossos próprios acontecimentos.

A história enquanto memória é alucinação, a ficção é sonho, sonho é destino, o destino é a busca da criação de si.
A poética enquanto simpatia é analogia, abertura máxima ao puro páthos, enquanto menor carga de potencialidade na prática da alteridade, presentificação das relações.

Para acompanhar os fluxos do tempo enquanto presente puro, vamos da analogia a alegoria e logo, para a paródia, a qual se descobre uma outra visão: a poesia é o fazer entre a o atual e o virtual (de não-ser a existência enquanto ser)
Memória, alucinação, encontros e desencontros de identidade.
Sobre o que sonhar já não está mais sobre nosso controle… ou estará? Caberá a nós “sermos chefes de nossa casa”?
O sonho já é, por si, um processo de julgamento. Cada imagem, ou o fluxo do Imaginário pessoal, é o juízo para cada ato de sua existência. Como se fará, então, que seus desejos não sejam maculados pelo que é decidido por você, mas não se o sabe como?
O conceito (um phármakos) inventa um ethos nômade, um óikos sem cronos, potencializando a energia espiritual (uma disposição, uma intuição volitiva para uma vitalidade, uma inteligência como postura, de um corpo sem orgãos ao orgão que selvagemente produz uma organização intransponível).
A forma como as sociedades humanas viam e percebiam o tempo e a duração das coisas é, de fato, a expressão da Verdade sobre cada povo e sua cultura, sua identidade, suas criações. O tipo de linguagem, de raciocínio, de percepção está envolvido na noção desse “tempo mutante” durante séculos: a maneira como as sociedades descreviam seus antepassados, como eles introduziam e educavam os mais jovens ao dever do dia-a-dia segundo doutrinas de relações com o passado e o futuro, o desenvolvimento mesmo da língua e dos conceitos, do que era Saúde e do que era Loucura, enfim, é esta noção que explicita um Sentido da vida em cada época, desenrolando na própria trajetória do tempo, um conceito sobre a existência: a realidade de cada era determinante do como as pessoas se transformavam, politica, social e psicologicamente, constituindo a atividade de alteridade como fundação da constituição do indivíduo numa sociedade.
Segundo Octávio Paz, a “imagem poética é alteridade”: assim, pois, é nela que reside parte do real, mas junto com o devir mesmo deste real, sua analogia com o irreal. É nesse algo de irreal que se apresenta como revelação, enquanto porvir que desconecta o tempo de si mesmo e com sua real-idade, esta imagem que faz ou que ativa algo de diferente no real, consiste no seu princípio interno de alteração, sendo manifestação inexpressiva de uma percepção ativa sem objetivo do que se é, na condição de apossar-nos de não-ser.
“La palabra experimental es válida, siempre que se entienda no como la descripción de un acto que luego será juzgado en términos de éxito o fracaso, sino simplemente como un acto cuyo resultado es (el) desconocido” afirma John Cage; toda ação de linguagem, carrega consigo um sentido embrionário, indiferente de suas relações aposterioris, o que incita um não-sentido no seu ato, porém, não indica uma falta de sustento pragmático. A linguagem, nesse sentido, especialmente a palavra, seria, então, espacialmente um desdobramento do lógos, sua reverberação, sua expressão última, enquanto acontecimento de sua existência consistente, fazendo da linguagem, extensão de toda a força do movimento originário: tal sua característica experimental.
A atividade moral humana consiste na confecção de preceitos e conceitos, inflexões e reflexões sobre as imagens como dinâmica da espiritualidade ou uma <aesthesis do virtual>: são percepções ativas sobre as forças em acontecimento, um trabalho do Sentido para o Espírito – da lógica à vitalidade (do lógos ao bíos).
Foucault e o livro-experiência e Bachelard e o livro como um devaneio aplicado.
Façamos ressoar, então, o que Foucault quis dizer com o ser da linguagem enquanto desaparecimento do sujeito: um ser que não é mas subjetivado, em tempos que o subdivide historicamente, mas é atual em toda sua virtualidade – a escrita da experiência surge na experiência dessa própria escrita de si, uma escritura enquanto identidade com seu fluxo de vida (seus pensamentos, reflexões, anotações, leituras, devaneios e sonhos, anedotas, passagens alheias e anônimas sobre o homem e a natureza).
A linguagem e os agenciamentos de morte.
As imagens não fazem uma história, mas um corpo.
A história, é, senão, o desdobrar desse corpo em outras imagens.
O espírito ou da identidade: porque insistir tanto num conceito em que há tempos (algumas décadas, talvez) se vê sua relativização de posturas e que deviraram delas as doutrinas de aprisonamento de seu Sentido e da prática de suas poéticas possíveis sobre o impossível embaixo de seu desígneo – mais uma vez, revitalizando as relações deste plano em torno do signo-arcaico, então, o homem reinventa sua forma de interação com o mundo num tempo microscópico, quase imutável, mas de infinitas variações de quantidade e qualidade das transformações-transações, possibilitando a arte não-fisio-sófica de historiar a potência irracional e sua vida e inteligibilidade-espiritual. São os rastros dos lógos, de todos os processos deste Tempo Originário, onde o passado sem memória é uma postura mnemónica a disposição para inventar-se a si mesmo enquanto duração, numa superação e transmutação constante do Páthos ao passo que deixa de ser o que seu passado e seus futuros encontros/desencontros incalculáveis acabem consigo. Em qualquer instante, o real e seu simulacro, seu distúrbio em si enquanto dinâmica, a desordem é apercebida enquanto Imagem, uma história infinita. Porque dessa história, a não-história e o não-efetuado corre enquanto um fluxo inefetuável, um tempo rizomático próprio para a prática genealógica do não-ser e para a percepção de simultaneidades e captação de multiplicidades do acontecimento, gerando/operando uma prática poética de inventar um corpo mediante sua simulacrização imanente ao pensamento pelos devires-loucos, traçando o impossível do virtual ao atual, do préindividual ao indivíduo, o meio de imprecisão dos Estados para se extravazar qualquer tipo de Páthos que reaja contra a criação de Realidades ou se transforme num Reativo do pensar enquanto doutrina do porvir, um medo inerente ao fluxo, um medo da Morte – o único sofrer afectivel inescapável. O que é o agora deste “como”: após uma frustrada utopica asséptica (dizia Pelbart) do homem eterno ou mesmo do Superhomem – um além-homem por ele mesmo, em outras palavras, é preciso de uma desistência, desacreditar antes de insistir-se em viver enquanto está: não é mais uma moralização dos percursos necessários para cada um se ver livre da História, do Passado, do Futuro e da Cultura do Tempo, da Existência, mas é exatamente desistir destes pressupostos como princípios e investir num percurso nômade para a genealogia ontogenética e criativa de si mesmo enquanto inúmeros simulacros e o que não somos: assumir a responsabilidade de qualquer subjetivação e objetivação do que se é existir e do como, seu proceder, a não-existência ou a prática mesmo de uma escritura (poética-histórica) enquanto desastre – uma obra para a demolição do “eu” ou o obrar do “eu” enquanto golpes de morte da indeitifcação forma-matéria-subjetividade, potencializando um elemento sublime de alteração (diferença imanente, uma fé?) de desejos na insistência de uma memória energética do que seja da vida e para a vida. Leva-se a cabo o conceito da ética e do abandonado e livre nos tempos: um bíos-ethos.

Assim, um plano conceitual emana-se de um “fazer” inócuo, que poderá nos levar a fazer nada. É preciso reelaborar o Sentido da Linguagem a todo momento. Não enquanto transcendência ou niilismo do Existir destas ou por estas inúmeras relações, mas para o pensar ser esta atividade-movimento própria e elemental da alteridade nas relações do devir do eterno-retorno do “instante” e do “novo”. A comunicação, uma vivência do irracional, uma loucura da razão: não é sua ausência, não é ausência de mundo, não é a perda de si, mas é um modo de captação de movimento e totalidade. O instante invivível para sempre. Não há como se ver a materialização do todo, uma patológica loucura reativa de nossa sociedade por bloquear nossas práticas de encontro-desencontro de si. Mas, exatamente, o pensar é esta EXPERIÊNCIA-LIMITE (que não há escolha entre viver ou morrer disto, a qualquer instante um ou outro poderá acontecer, dez vez ou não) do que não é humano ou do não-humano. Não sermos enquanto com o que nos identificamos durante os tempos. A identidade e a memória numa duração sempre revolta e subvertida no Tempo, é ascendente à prática da escrita da existência enquanto diferença. Uma saúdelouca.
Toda poética é uma reflexão ativa: crítica e inventiva. Podemos dizer mesmo que ela nos dá realidade, atualiza, em todos os tecidos, o que se torna diferente enquanto produção de corpo, ato. Pensemos na imagem. Para redesenhar a lógica da imagem poética, a imagem que funda os juízos e as intuições, (a própria lógica de um julgamento ou do ato), que se dá numa continuidade repercursiva até que outra vibração ressoe pelo desdobramento deste plano virtual ao se debruçar sobre esta mesma ilusão de continuide. O objeto alucinatório que se cria ou mesmo a alucinação entre o desejo e a realização é, de fato, uma invensão. uma forma de atribuir metas e ao ver que chegar lá, não é nada mais do que aqui. É produção constante do aqui. Assim, desaparecemos mesmo do tempo progessivo e mesmo do cíclico, para nos precipatarmos mesmo na vertigem histórica da força, desencadeando um outro processo produtivo de identidades, precisamente ao adentrar neste plano alucinatório atemporal. É repensar a história como um presente sem fim, atribuindo-lhe outro sentido, por uma outra linguagem que desperta.
O existencialismo já esgotou nossas lamúrias em relação ao mal-estar que a liberdade, a dor e o Outro provocam. É tarde da hora de fazer o que eles nos evidenciaram, não apenas a exaltação da Dor e nossas idéias para controlá-la, mas a Liberdade de trapaceá-la, usá-la a nossa favor. De uma passividade em relação ao páthos para uma atividade de suas afecções. Saber é sofrer. Platão é dito como o primeiro, mas antes dele, outros já entreviam uma prática não-filosófica (acima de tudo, com experiências a favor do não-senso, da Dor, da desordem e do fracasso) para a filosofia “sair” através de si mesma – Deleuze talvez tenha percorrido em seus estudos de filósofos aqueles que mais lhe pareceu entrever seu problema para consigo mesmo, e assim deve ser…
Pregar a maior trapaça que um filósofo poderia acometer contra seu ofício e, principalmente, contra a História de Uma Humanidade. Seria preciso usar de todos os artifícios para que isto, não atingisse o Outro, mas apenas o Eu, o grande agenciador desse privilégio ontogênico do homem. Assim, estaria-se salvo de qualquer rechação teológica: estariamos então, no reino natural e selvagem do fazer tão somente o que lhe cabe – destruir-se a si mesmo da melhor maneira possível.
Um absurdo relativista da criação – o mundo é descoberto com o tempo a partir da experiência de seus movimentos imutáveis enquanto suas relações, mas de relações infinitas de seus funcionamentos. O que será <a verdade>, afinal? O sentido é extramoral – não é conceituável ou conceitual. O senso e o não-senso operam a unidade de uma produção de inteligência enquanto potência e não enquanto o ato, impondo uma doutrina razoável para a afirmação do mesmo. Não é o conhecimento, produto das ousadias da razão e movimento a um fim, abismando a potência enquanto moral-ideal inatingível e distituindo seu acontecimento: é o falseamento do acontecimento pelas razões arbitrárias de um pelsão a sobrevivência. Não obstante, o poder é obscuro no exato princípio simultâneo a quando se chega ao fim.
(Sarte, Cuestiones de método, pág. 2)
Pergunta: “Há uma Verdade do homem?”
– haverá uma História progressiva da Verdade enquanto acordo do que a Razão estabelece como acontecimento na História do homem? A História, como hoje ainda a concebemos, e que não deixa de ser uma fabulação de todos as vivências do homem, um conceito sobre o atemporal, não deixa de entrever os acontecimentos não-relatados, e ainda por cima, toda a potência do não efetuável? O papel da história deveria ser “outro”, ao invés de ser reinvidicada por ideologias fanáticas pelo poder como um plano da Verdade para garantir a legitimidade de suas ações para manterem suas constantes investidas e revoluções sobre quem “domina” o poder sobre os modos de existência da humanidade.
Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe. (Deleuze)
(Blanchot, Escritura del desastre)
– Em sua preocupação com o ínfimo, soberania do acidental enquanto um porvir que não devém, o desastre ameaça em mim o que está fora de “mim”, do “eu”, alguém que não sou e se volve passivamente outro (lacuna, segundo Lucrécio, simulacro, segundo Epicuro). Como lidar com tal aparição de si mesmo aquém de qualquer conhecimento objetivo sobre este simulacro-limite, a avantesma que reflete eternamente o vetor de demolição traçado pelo espírito sobre as identidades do eu? Por aqui, um trabalho elucubrador sobre a alucinação e o estado de convicção do delírio.
“aquilo que esta fora de mim, alguem quem não sou (que nos foge ao pensamento e pesa na consciência), se volta passivamente um outro”.
En ese sentido he dicho: quien ha avanzado en el
camino del conocimiento, quien no desconoce la mirada helada de la
lucidez, adopta un estado oficial de las cosas. No juega a la
diferencia, no le apasiona Prometeo ni Dadá. Digamos que se asume como
un Epicteto deambulando en las planicies de la duda, como un “héroe”
de la resignación y del ocultamiento.
(Leobardo Villegas)
Cada lógica ontogenética, ou cada principío de individuação se tornou um valor capital, um ideal vendável para a sedução da potência num resultado previsível ao fracaso do processo.
Indiferença e paciência:
“Cuando Pirrón dialogaba con alguien, si su interlocutor se iba,
continuaba hablando como si no hubiese pasado nada. Sueño con esta
fuerza, de indiferencia, con esta disciplina del desprecio, con una
impaciencia de trastornado”. (El Aciago Demiurgo)
J. Lacarriere nos cuenta una anécdota concerniente a Macario el viejo,
aquél asceta que se retiró al desierto de Egipto (en el alba de la fe
cristiana) a orar, a ayunar, a casi no dormir, a matar sus pasiones y a
vencer las tentaciones del demonio. Un día un discípulo se acercó a su
retiro y le preguntó: “Señor, quiero que me enseñes la sabiduría”.
Macario el viejo le contestó: “Dirígete al cementerio más cercano e
insulta a los muertos”. El discípulo cumplió con la exhortación del
santo y fue e imprecó a los muertos, luego regresó y dijo: “Señor, he
ido y he insultado a los muertos”, entonces el asceta le preguntó: “¿Y
qué te dijeron los muertos?” – “Nada”, contestó el discípulo. A
continuación el asceta ordenó a aquel que pretendía el secreto de la
sabiduría: “Regresa y alaba a los muertos”. Así lo hizo el discípulo. A
la vuelta, le dijo al hombre santo: “Señor, he ido y he alabado a los
muertos”. “¿Y qué te dijeron los muertos?” Preguntó Macario el
viejo. “No me dijeron nada”, fue la respuesta. “Entonces debes ser como
los muertos”.
Será a atenção o modo de passivamente ativos em nossas percepção sem objetivo, captarmos o desejo em seu desrazoamento.
Toda idéia instaura um devir-delírio ao homem. Em sua imoralidade – contempla-se apenas os traços sobrepostos do que se imagina e do real, ambos imagens -, a idéia produz uma sensação de disposição que (re)organiza o que se <entende> sobre o proceder (as misturas das afecções). Este devir é o que desenvolve no corpo uma nova percepção sobre si. Está idéia é como se déssemos um olhar diferente a nós e consequentemente ao mundo. Ambos, ainda enquanto uma visão, ao expectorar para fora, o delírio é a determinação do ainda não julgado, do irreconhecido.

Toda idéia é apaixonante ao investir-se num delírio involuntário para a sua prática: para praticar os ditirambos provocados por esta imagem-juízo convém ao corpo reter-se nas eminências de uma frustação, um pânico perante a falência da paixão ao ideal.
paradoxo da impotência do acontecimento como linguagem:
livre da relação de referência, a representação, tal como uma imagem ou um espectro-simulacro, pode se dar como pura apresentação, ao corte do real – a fissura do vício das intensidades onde a desubjetivação acaba com qualquer objetividade e subjetividade, gerando uma experiência íntima com a exterioridade.
(Kandinsky) É a arte que, sendo expressão necessária de um tempo (uma cultura, uma região, uma causalidade), expressão vital para compreensão deste tempo por um povo ou nação, que engendrara, assim, toda uma estética, uma percepção ativa do mundo – uma moral e um espírito.

"Demasiada cordura puede ser la peor de las locuras, ver la vida como es y no como debería de ser."

“Posso até dizer que o ser da linguagem é o impreciso que nela habita”?
Apenas à loucura, desapercebido da obra, no objetivismo panfágico, é que percebo a imutável pluralidade da razão.
E se tornarmo-nos apenas mais conscientes de nossa dor e, no entanto, em maior número, talvez falharemos em nos condizer como abastados de Deus e salvos por natureza, mas ao nos sentirmos abençoados de que todos possam comiserar-se com o sofrimento do outro num grau máximo existencial, como que divino e difícil de ser conquistado pela linguadem racional, ao menos saberemos que o conhecimento de uma vida é o traço do que se é, uma poética-histórica como processo de descobrimento do não-ser, de uma escrita de identificação com o fluxo constante a não ser nem além ou aquém do que se é, escritura que devém do que se inscreve no que é, sempre inerente ao que já se foi e ao que será, um não-ser iminentemente que jaz fruto de uma energia inconcebivelmente inteligível…