Trilogia do espírito III

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III.

DILETANTISMOS DE CONVALESCENÇA

por Quérser Meumór

(janeiro 2009 – dezembro 2009)

 

 

 

 

“só o monstro pode ver as coisas como são,
pois este, já está fora da humanidade”
(Cioran)

 
“Já li tudo, cara, já tentei macrobiótica psicanálise
drogas acupuntura suicídio ioga dança natação Cooper
astrologia patins marxismo candomblé boate gay ecologia,
sobrou só esse nó no peito, agora o que faço?”
(Caio Fernando Abreu)

 
“será que só apareceu agora, isto
que talvez você tenha escrito
já daqui há algum tempo?”
Que, quem?

 

*  *  *

 

 

O que na experiência do desvairio, isto é,
no desentendimento racional desestigmatizado
– ESCRITURA E DESASTRE, LINGUAGEM E DOENÇA, TRAÇO SEM RASTRO, FISSURA E QUEDA –
ao subverter-se à ordem do raciocínio, implicando numa outra organização,
o que sobra para nós se não um conhecimento,
intrínseco, de nossa condição zero estratégica,
sem construção nenhuma, amoral, tal como veio ao mundo,
este pequeno e soberbo e mentiroso mundo
que toma a loucura da superfície, do respiro, entre o ar e o sufocamento,
como a vista da liberdade ao inventar-se novamente?
Um bom vizinho é aquele que viaja. Um amigo que se estranha de vez em quando.
E o que estou fazendo novamente, senão, me equivocando
ao tentar “explicar”, da alma ao sonho, da transcendência a imanência, do ritual à política:
“tenho que ser preciso, tenho que refazer” (C.F.A.)

* * *

O sentido que não-é, sendo…

* * *

… e remonto: no vício, o corpo pede. Devemos ser pacientes. “Devemos ser paciente com o destino”, quando este não vem. Quer dizer, não esperá-lo significa talvez o espírito, sua vitalidade, sua potência, efeito das estratégias de efetuação do corpo pelo pensamento. A <contra-força>, refluxo do trajeto de qualquer intenção, é, de fato, razão e desejo. Ambos, sem por isso precisar de ‘se conscientizar do fato’, precedem a contravenção sobre a imagem, marca e extrapola o ato. Assim, convencer-se de si mesmo no intuito de despertar um novo trajeto, ‘uma nova vontade’, inaugurando um outro fluxo – e por assim dizer, sempre outro refluxo – um mito que, constante, deve dar cabo de refazer este impulso ilusório e volitivo, isto é, intuir os descaminhos, o que não se efetua no racocínio. Tudo isto pode ser demasiado doloroso a ponto de forçar o paradoxo, contrariando o juízo fundador do curso. Mas mim, si mesmo e eu: eis um <sacro> não-lugar como o conhecimento do abandono ao que é (hipoteticamente) sempre na sua irracionalidade.
* * *

Quando mudamos de hábitos, e as pessoas estranham, as vezes perguntam: “algum problema?”

* * *

Não sê, se elas te escolhem ou se escolhes a elas: lúdicas e lúcidas lutas pela existência.

* * *

O monstro – aquilo que não reconheço e que escondo de mim mesmo, aquilo que desejo (não sem dor) que não seja eu (deixei de ser e me esqueci do que sou e serei). Monstruosidade – este processo de obliteração da alteridade (e sua devida retomada e investigação, quando imerso por tudo que fora ignorado).

* * *

A beleza é a alteridade dos mesmos, espírito vitalício do conhecimento em mutação: o próximo, o outro, o limite.

* * *

(A percepção é o modo (o quantum) do que se sente, da sensação): as propriedades químicas dos medicamentos nos interessaria aqui para uma microfísica dos afetos, poética dos buracos negros e caminhos de minhoca no sentido mesmo que se procura para a sobrevivência sem-sentido.

* * *

Encherto: Creio que tenho uma certa atração por pessoas fogosas, as quais, à primeira vista, poderiam me impressionar com seu jeito estabanado. Esta crença na paixão pessoal de alguém a outra coisa, uma atividade ou mesmo uma pessoa, me possibilita aventurar-me muitas vezes em desajeitadas tresnoitadas, incumbindo-me de ir esfriando as coisas conforme eu vou/ia achando muito estranho todo o lance: que diacho de entrega é essa que não se recebe? Mulheres que, de fato, se se convencessem de que eram diferentes, tão somente que a parceria velava o conluio dos fraquejadores. Permitir-me acreditar na promessa de entrega já que essas mesmas contratuam contra seu favor, a incubência de encarrular-vos em toda situação de prostada regulação da abertura do relacionamento à uma dissipação das entre-anas da liberdade amorosa avantajada – é redundância cínica e insolente.

Acho que apenas me casaria com vadias, então.
* * *

Dor é a tal que nos ensina justiça. Com ela, a linguagem aprende seu mais afiado idioma: o da verbalização da indignidade. A incompreenssão de tamanho sofrimento, submetimento de sua vida à uma força que a ameaça, dispõe-se num ato de violência contrária, mas não de mesmo teor: reinvidicação do direito a vida como uma necessária consciência (imagem fragmentada) da paradoxalidade à condição mesma de vida. Como esta exaltação da persistência moribunda, a dor nos revela a impotência do lógos diante da inconmensurabilidade do que o punge, de onde chegaria a nossa força em perdurar tamanha potência de sobrevivência. Mas se formos realmente falar nas entrelinhas, há seres que até agora não deixaram de existir por bons milhões de anos-luz…
* * *

A natureza não tolera erros. O erro só existe para o homem. É ele que define uma “meta” (faz da imagem a projeção como um ideal para o futuro) e espera que este se concretize, ocorrendo o acerto. Caso se desvie do caminho, este incorrerá num erro. Na natureza, os “erros”, ou melhor, os desvios, nada mais são do que as prórpias transformações para que a mesma se sustente. Ela não se importa com os acertos, afinal, tudo acaba virando ela. Os desvios, se assim podemos falar deles, são os que a mantém viva e ditam seu caminho – não é evolutivo, muito menos melhor, ou pior, tão somente é seu devir ir, surgir, ressurgir, esconder-se na ausência da aparição do que não fora esperado porvir. É como se não houvesse erros que nãofossem absorvidos pelo próprio movimento, sem mecanismo pois nada o gera e nada o fará parar, se não, sendo este um “mecanismo” de uma produção constante de movimentos. Podemos ver, então, que a lógica do erro e do acerto, do bem e do mal, para o homem, é algo que inibe seu pensamento “reciclador”, “reaproveitador”, “afirmativamente diferencial”, a medida que estipula o ideal como meta intrasponível.

* * *

O “eu” é um desejo objetivante, um impulso de autodeterminação, em suas vias neuróticas, da origem da razão – ou em outras palavras, uma força reativa que tende a imobilizar e identificar o “agenciamento motriz”: um desejo que tende a determinar todos os seus devires.
O impulso do “eu” retroalimenta-se ao passo que o engenho (o gênio, a razão) se torna refém de uma patologia da não-alteridade. Aparece, como princípio desejante e integrador, uma vontade de constantemente se reconhcer numa só idéia, num só modo de vida. É a pretensa (e daí suas vias neuróticas e possessivas) estagnação do virtual frente as infinitas modificações imateriais e materiais do atual. Uma realidade constantemente ameaçadora e insessantemente atraente.

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O sentido é efeito, puro efeito. Efeito de forças que, em colisão, desdobram-se em outras forças, compostas, contrárias, tracionantes, atrativas, repulsivas. É a direção que as forças tomam quando encontram consigo. É o sentido conquistado com as imagens e as ações que subjetiva as forças que confluem conforme os ritmos inditados.

* * *

É bom dar coisas aos outros pois, não se importando com a sensação de dar e perder, no retorno de seus investimentos, temos uma sensação de que estamos ganhando e que no fim, estamos ainda ajudando.

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Da natureza e suas formas e fenômenos o homem abstrai não só imagens e idéias a respeito de seu funcionamento, mas imagens e idéias que condizem com o próprio funcionamento de si. Isto é, das variadas formas de fauna e flora, bem como dos acontecimentos suntuosos e intermitentes (desastres naturais e variantes), o ser humano produz condutas para si mesmo, a paretir de suas criações confabulosas. Criamos uma história por cima dos acontecimentos e este conjunto de imagens e juízos formam a uma “constelação moral” para uma atividade ética (daquela que se faz a resistência de seu desejo).
Mas o que seria, então, o controle dessa história, ou a supremacia de uma sobre a outra, sendo que são inúmeras as condições de vivência de cada ser humano?

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A insegurança de caráter que leva uma pessoa a não afirmar a potência que se apresenta nas relações afetivas que se elaboram, pode decorrer de uma auto-cobrança na pretensão de alcançar feitos de um ideal descompassado com o desejo; ao se cobrar excessivamente um ideal aparte de sua constituição rítmica/afetiva, nos leva a saborear, diversas vezes, o gosto do fracasso, já que este se torna sempre um receio – quando não uma eminente derrota pela impotência – de não cumprir tais metas disparatadas com o “verdadeiro” ensejo da ação. O projeto ideal será aquele disposto ao acolhimento da situação atual em cada tomada de decisão, sabendo (confirmando) suas capacidades de realizar aquilo que menos se espera e mais se anseia: a resistência ao animismo e indiferença.

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Se a origem da palavra cósmos, em grego, tem suas raízes na idéia de <adereço> ou <adorno>, e logo sendo tratada como <ordem> ou <lei>, a concepção de uma relação do ser humano com o mundo não poderia estar mais dependente da beleza como esta. Isto por que, cultura e historicamente, se uma palavra é disseminada e desenvolvida pelo povo a ponto de evoluir em seu significado para abarcar outros (e maiores) aspectos da vida humana, não se nos pode passar impunemente a relação desses conceitos com as coisas que designaram – uma filologia etnológica pode e deve nos ajudar a entender o processo de apreenssão, percepção e construção dos conhecimentos humanos acerca da natureza e seu tempo. Assim, o mundo visto, primeiramente como um “tremendo” adereço, como que compondo bela e de forma harmoniosa a vida de si e de tudo, possui uma relação de beatificação do homem pelo mundo e vice-versa. O homem na vida mundana, existindo com o mundo, se torna belo; logo, quando o mundo começa a ser referido a algo mais do que uma “simples” harmonia e <composição> (fazendo parte) com o homem, e se torna uma lei, uma ordem a qual o homem se submete e dela precinde, uma súbita mudança de comportamento (e de expressão do homem) se dá com o mundo. Talvez não seja um grande estranhamento perceber, então, que as outras derivações pelas quais as palavras para designar esse tal “cósmos” (se assim se quer, o cósmos grego), adereço-primordial, as quais foram surgindo ao longo da história, designaram papeis semelhantes nas apropriações do homem sobre seu meio. Assim, a deterioração deste adereço-primordial, com um forte apelo estético-afetivo, passa a ter uma conotação material-possessiva, tratada de forma indiferente e com “funções” apenas de acumulo, satisfação ou instrumento.

E se… por que tal beleza nos é tão cara e as vezes, irremediavelmente, prodigiosa e cruel?

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Não consegue escapar, mas de qualquer jeito lhe escapava.

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O sofrimento de nosso tempo: “um homem descarnado, com a cabeça caída, os ombros encurvados, sem pensamentos nem olhar”. “Nossos olhares se dirigiam ao chão”.

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O monstro da linguagem, o túmulo da vida, se faz poder quando usado na coerção da expressão humana. Por outro lado, se faz potência, adubo da vida, quando estimula a confabulação dessa aberração que é o <sentido>.

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Não precisamos de ir atrás de experts e outros conjugues para estabelecer definições e aplicações de conceitos-chave para a constituição de uma crítica aos velhos sentidos e significados de palavras ordinárias e constantemente utilizadas de forma indecorosa no dia-a-dia.

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Dispositivos interfaciais de microcaptura? Twitter and blog’s aware. Onde refletimos em nós mesmos a escritura de um algoz inssaciavél.

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Para Adão, filho da terra de cor vermelha, todo-o-homem após foi visto, ora branco, ora negro, como uma mistura de caipora com curupira. Uma pequena abordagem sobre a transposição dos mitos e seus valores conforme a relação do homem com a natureza se transforma.

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Pequenas coisas (pequenos atos) que me acostumei a fazer, a julgá-los postura de acordo com meus postulados, aqueles que promulgavam a mesma corrente de juízos e encadeamentos para a disposição. Quando tais postulados começaram a ruir seus predicados, e de fato, àquilo a que se dirigiam não mais correspondia aos meus atos, minhas respostas a eles já não mais serviam para perpetuá-los. Comecei a abjurá-los e descomedidamente, permiti-me gozar dos novos gostos que já circundavam uma outra <condição> para a existência.

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Gestos naturais codificantes para atribuir-lhes uma função virtualmente atrelada a interpelar metainformações.

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A proficuidade de micro-atividades objetivantes (e por conseguinte, subjetivantes das necessidades e fragmentações de si) demanda uma fragmentação, senão, um estilhaçamento dos pontos de atenção e raciocínio que fadiga o processo de percepção e captação para a retomada de disposição constante da própria atenção e concentração, embotando nossos sentidos de modo sistemático e prolixo e impedindo a própria abordagem crítico-meditativa dos acontecimentos pelos quais se encaminham os fluxos da vontade (e da ação).

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“Não consegue-se a concentração e disposição necessária para praticar uma devida atividade, a qual se apresenta como uma impossibilidade direta de desenvolver esforços para a prática (devido a uma imagem ideal desta atividade, reiterando outra imagem de incapacidade e fracasso frente a não conquista desta idealidade, convertendo-se racionalmente em uma falta de experiência que o inibe de tentar); contudo, ela se representa com uma imagem lógica (idéia) de que ela só está inacessível por ora e deve ser abordada de modo diferente, impedindo -de fato- que seus esforços se concentrem na <disposição> para a atividade”

Ao enfrentar a situação para a possibilidade de suspender um <certo juízo> (a imagem poética que se torna lógica, isto é, viciada) que o permita reter o processo circular e paranóico de tentar resolver o problema da impossibilidade da atividade, ao invés de se concentrar energeticamente na mesma, deve-se estar atento a idealidade que se propaga por entre estas imagens – daquilo a qual pensa e costuma fazer (hábito ao vício)

o lógos que segue a imagem deste ideal, que se liga a uma idéia de prazer (que apenas retoma certas sensações de experiências anteriores, mas não é o prazer em sua manifestação, o provocar da sensação), tende circular neuróticamente, e impossibilita a concentração de fato na possibilidade intrínseca da atividade, já que é nela (e diante dela) em que se encontra o sujeito.

* * *

Há tempos em que nada se diz: o não-ser é o não-vir-a-ser, sem-ser sendo:

Viva
a chuva fina
cai sem tino

roa a fumaça
assoprada na cabeça

pelada e nua na mão do menino
avanteja sua graça

como no país as avessas
tal uma psicodelia de praça

* * *

A desconfiança, sempre a não-confiança. Crer em quê, <sobre o que> esperar?

* * *

A diferença do estado de sono para o de vigília, se dá por uma mudança de <foco>. Quando passamos do estado de sono para a vigília, nosso desejo, nosso fluxo, pouco se aflinge pela exterioridade. O corpo está em repouso, por mais impulsos e sensações que o sono possa provocar. Poucas coisas nos atingem, mas ainda estamos em intensa projeção. O foco está aberto e íntegro, livre para produzir o que lhe estiver tanto latente quanto manifestadamente impregnado. Está-se em plena construção das imagens e sensações, tudo numa dinâmica sem desfragmentada. Pouco a pouco vamos despertando e alertando o corpo para receber o estímulos exteriores. Ele desperta como numa fome: de trabalho, de dissipação de toda essa energia acumulada pela focagem. Logo, este mesmo foco começará a querer focar-se em cada um dos estímulos, fragmentando-se e dissipando aquela sensação de imersão e inteireza.

Pode-se dizer que o processo ao contrário, também é válido, mas cada um com sua qualidade prática e estratégia de gestão de forças.

* * *

O idealismo das imagens – um certo modo de tratar as afecções que nos assustam, que nos afligem de forma a desestabilizar nosso conjunto imagético-moral – constritos no jugo alienante a visão do mundo sobre uma mesma chaga, logo, nos tornamos reféns de uma tirania afetiva que ou paralisa ou convulsiona, ambas formas de servidão das repercussões alheias a nossa disposição.

* * *

…em meio ao caos da multiplicidade, a ordem dos signos bem como a expressão linguística realizadora das potências e transformações incorporais são, destarte, modos de modulação das forças imanentes que decorrem de um conhecimento como postura – físico-espiritual.

* * *

Não estou mais interessado no eu ou no outro. Para mim, e para os outros, portanto, não há valor. É impressionante – daí o fascínio deste investimento inicial e devidamente solitário – estar em comunicação com as coisas: não é aprender a ler, ou ver respostas, aceitá-las, mas este fim e começo das coisas indizível – não há estado, atestado pela condição prévia de visualização e memorização, mas a combinação indecifrável, num código que pode ser constantemente reconstruído para a fruição da mesma disposição das composições – o todo?
Esqueça-se também o todo. Como a realidade se demonstra em caminhos que possam desatar potencialidades em sentido num investimento que em nós se pretendia ínfimo e insignificante?

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Assim como não só devemos contemplar o belo, podemos praticá-lo.

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Num crescente de sistemas e mecanismos de identificação em massa, onde pessoas são levadas a criar perfis segundo uma série de informações para se apresentarem tanto real quanto virtualmente, uma grande maneira de se desidentificar é mesclar as informações criando avatares fora da realidade. Isso também não nos deixaria de levar a uma espécie de velamento das pessoas e um aumento da permissividade das ofensas e ataques.

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a paixão se esquiva de si mesma e entorna seus enleios ao desconhecido, inesperadamente…

 

 

 

 

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Hexagramas 10 e 23. Sobre o julgamento da imagem (a edéa, a idéia, a forma com vida e veneno). Conduta e desintegração: o céu, criativo, por natureza, está suspenso sobre o lago. O pó está entre eles. “A Desintegração. Não é propício fazer movimento algum”. A desgraça, a natureza do fruto, é impossível protelar. Ao ser comido, o mal toma partido. Ao deixá-lo cair, o mal levado a cabo, destrói a si mesmo – nasce o bem.

Comentário – “A Desintegração significa destruir ou ser destruído. Os fracos (linhas fracas) conseguem alterar os fortes (representados pela última linha forte). ‘Não é propício fazer movimento algum’, porque os homens inferiores estão crescendo e dominando. O homem superior contempla os símbolos do hexagrama (aceitação e calma), e, de acordo com isso, paralisa todo o movimento, aceitando a situação e continuando onde está. Ele observa com cuidado a plenitude e o vazio, o aumento e a diminuição – a sucessão eterna de fluxo e refluxo que constitui o curso do Céu”.

Imagem – “A montanha descansa sobre a terra: a imagem da Desintegração. Assim os superiores cumulam de generosidade os inferiores, assegurando paz e estabilidade”.

As Linhas

Seis embaixo: Ele começa a destruir as pernas da cama. Os perseverantes são aniquilados. Desastre. Homens inferiores começam sua destrutiva ação de intriga subterrânea para, dessa maneira, tingir o lugar onde o homem superior é mais fraco. A firmeza do homem superior se perde, e os súditos que permanecem fiéis a ele são aniquilados através de calúnias e toda espécie de maquinações. Nada há de fazer, senao esperar.

Seis na segunda: A armação da cama é destruída. Os perseverantes são aniquilados. Desastre. O poder dos homens inferiores cresce. Os perigos estão muito próximos da própria pessoa. Os sintomas são nítidos: a calma está perturbada. Ele perde o auxílio dos que estão acima e dos que estão embaixo. No isolamento e sem amigos, é necessário extrema cautela. O tempo requer um afastamento oportuno. Se ele quiser manter inflexivelmente seu ponto de vista, encontrará a desgraça.

Seis na terceira: Desintegração da relação com os destruidores. Não há erro. Ele está entre os destruidores, com os quais mantém relações externas. Mas permanece ligado a um homem superior que lhe dá força interior suficiente para se libertar dos que os rodeiam. Sua atitude cria um antagonismo com eles, mas isto não está errado.

Seis na quarta: O leito se desintegra até atingir a pele. Desastre. A desgraça alcança aqui o próprio corpo, e não só o lugar de descanso. Ele está muito perto de um terrível infortúnio. Não é mais possível protelar a desgraça.

Seis na quinta: Um cardume de peixes. As damas da corte obtêm favores. Tudo é propício. Diante do princípio forte e luminoso, a natureza do escuro se transforma. Esta linha submete-se à superior e encabeça todas as linhas fracas, tal como uma princesa que conduz suas servas ao esposo como se fossem cardumes de peixes, obtendo dele alto favor. O inferior encontra a felicidade e o superior impõe seu direito.

Nove em cima: O fruto maduro não é comido. O homem superior obtém uma carruagem, enquanto o inferior perde sua própria casa. Fim da desintegração. Quando o fruto cai por terra, de sua semente nasce o bem. Levado às suas últimas conseqüências, o mal se destrói a si mesmo.

* * *

A realidade imparcializada pelo discurso verídico, pelo informalismo derivado da mediocridade ao se contar sobre o que realmente acontece, é de fato muita mais distante do que a ficção que retrata a realidade não apenas em sua aparência.

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É legal ter alguém apaixonado por você? Uma paixão duradoura pode ser mortal. Uma pessoa apaixonada pode cometer sérios riscos a sua e a vida dela, só para manter alimentado tal sentimento que a sustém. Invertem-se os paéis – o objeto é a causa. E alimentá-lo em troca, é como cometer suicídio.

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Estava tocando ‘I Put Spell On You’ quando, sem mais nem menos, o equipamento de som queima.

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Piedade do amor: ninguém aprende a viver junto a não ser matando-se ao outro.

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Tautologica e paradoxalmente, a humanidade caminha para aquilo que sempre temorizou tornar-se: aberrações à deriva, derivadas de todos os seres, num devir monstruoso.

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Não devemos curar os males da alma com remédios da carne.

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…lhe mando o sonho só para você ter uma idéia… é um jeito de escrita peculiar que está se desenvolvendo… meio em pequenos rodamoinhos com um sentido embrionário em cada olho e que cada perspectiva, cada fragmento, totalmente dependente do tamanho ou local, do significado prévio que pesa em cada signo e imagem concebida, corresponde a uma tentativa de brocar-se e vazar-se o “idêntico”, o simulacro da unidade, indeterminalidade do desdobramento mesmo destes infinitos entre os afluentes do ato de compreensão, para recuperar esta identidade-esquiza, esquiva, ao passo que transporta e desterritorializa a primeira impressão e a livre-associação através do vigor do acontecimento que está sempre de escape, fazendo do percurso um lar, uma intensidade que lhe acolhe à medida que você se abandona a ela… e passa a operar os devires livres que se soltam do <impacto pático> [do páthos] sobre nós, desmemoriando impregnações e imagens que pudessem reterem em certas impressões viciosas o que é sendo ou foi e o que está por vir…

fazer presente em multidão…

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O ideal e o ressentimento. O tédio e o ascetismo.

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Imagem/afeto ou de uma patogenética do simulacro. Sofremos com as imagens, sofremos com o impacto que elas trazem a partir dos lumes em nossa mente. Imaginando coisas antes de dormir, me perdi na volição das imagens e fui conduzido por corredores escuros iluminados apenas em suas bordas com algum fluído neon. Ao virar num dos corredores do labirínto neônico, qual foi meu espanto ao acordar pelas luzes faíscantes que de repente ofuscaram minha visão e quis fechar olhos ao abrí-los?

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O hábito aliena. Ilusão de liberdade, de “facilidade”, ele permite a desvinculação da consciência com a atividade. Logo, desvincula o falar com o pensar, o pensar com o agir, o agir com o falar. Nele, a consciência esta apta a conscientizar-se de outras coisas, enquanto, autômatos, perduramos em nossa mesma feitura.

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É a guerra uma vaidade pela morte?

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Ao escrever, não devemos manter uma posição ressentida sobre os acontecimentos. Não é para se lamentar ou convencer-se do fracasso ou infortúnio que se acomete sobre nós. Muito menos é para se ausentar como participante do acontecimento, enlaçando-se em ruminações e descobrindo culpados de suas paixões e sofrimentos. Ora, se há algum motivo para se escrever que não seja aquele do desabafo, do mero reconhecimento da fatídica “realidade”, é aquele em que inventamos a história do acontecimento – absorvemos as reverberações, aprofundamo-nos nos mais obscuros e inviezados julgamentos, contradizemo-nos e e nos irreconhecemos perante as reflexões contundentes que brotam da crítica desterritorializante. Vemos que aquele espaço e tempo enfrentado e sucumbido perante nossos desejos, não foram senão, parte desta invenção “re-encontrada”. Invenção de nós mesmos.

* * *

Já faz algum tempo que ando comendo verduras e outros alimentos com os quais não me simpatizava. Contudo, a cada garfada, a cada prato terminado, vejo que <fico satisfeito> com um pouquinho menos do “eu” que me impedia as coisas. Será que estou formando um outro “eu”?

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O repentino empenho de espremer uma espinha – o desenlace de uma inquietação acumulada – a justificação de um cuidado estético – o desenrolar de um hábito permissivo.

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Em vias de considerar tal “momento” uma espécie de consciência da doença, daquele contra-projeto de vida, o empenho mesmo que o engenho aborta na obra desempenhada, constituindo como pequenos engalfos e soluços de premonição espectral daquilo que jamais deixaria de porvir: a entonação das palavras devem se tornar mais lisas, contudo, o vocabulário é áspero, “monumental”. Este entusiasmo mórbido em levar cada punhalada nas costas sem saber de onde veio como um ávido frescor da brisa leve numa manhã de primavera.

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Tudo que se escreve parece que perde seu sentido com o tempo, a ponto de carecer de um <novo>. O entendimento, algo imanentemente fugaz.

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“um traço sem rastro” diz Blanchot: o fim da “era dos planos”, das diretrizes, das especulações aos ideais-fixos, ditames presioneiros…
Estratégias para o fim dos traçados e registros. Cage completa: “um espírito-mente que desenha linhas está inclinado a fechar-se”. Estratégias para a abertura das mesmas. A obra como auto-destruição do “eu”.

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procuro não mais recorrer à vontade de saúde, mas sinto-me saudável em meio a tantas condolências…
não é sobre despertar vontade ou fazer decisões, mas por onde cada corte vai permitir-nos vazar…

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Um amigo meu me diz, a palavra não basta… assim como também o som, a imagem, o corpo… Mas tão logo a precariedade do ente se escancara, sua impotência perante os ditames das forças nos revela sua faceta criadora – podemos escolher, da melhor maneira possível, o liame de nossas mortes…

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Porque hei de temer o desconhecido se estou em sua busca?

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Em que medida o que já sonhei não virou realidade?

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Nos últimos anos, exagerei nos temperos e temperamentos…
Acabo por sentir a asia em meu baixo ventre, o gasto ácido no reconveio.

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Retomando a menoridade…

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Arco-íris, a vida irisada, a tensão do efêmero, no instante em que dura o que se é. E nas cidades, já são poucos os arco-íris sob o fogo solar através do oceânico gotícula.

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Talvez escrever sobre as coincidências, as situações de absurdo e constrangimento perante o inesperado, já que ando abandonando blusas e casacos com as saudosas mulheres neste frio arenoso…

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O caráter das imagens não é fictício, muito menos representacional. No sonho, evidencia-se a atividade virtual do ser. Aqui, as imagens são as manifestações de um fluxo contínuo composto por infinitas combinações e associações de multiplicidades, o menor páthos resaltando as efervescências da matéria.

Todo ser, contudo, tenta se fixar.

Com atenção e cuidado, ao aulscutar, contemplar e prescrever a imaginação, sensações nos arrebatam de uma tal maneira que experimenta-se o acontecimento imaginado quase que por sua realidade, tal a liberdade da invenção. Fica aqui claro que digo invenção quando se desenvolve uma sensibilidade do não-efetuado, ou quiçá, do que não está sendo…

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E pelo visto, ao contrário do que fora esperado, talvez a corrente de mim mesmo tenha se arrebentado em algum momento. Ou me esforço para juntar as sensações, que não passam de vagas lembranças, já que meu corpo não ruboriza-se com o resguardo perante este possível “ar aristocrático” que permeia minhas intenções dos últimso anos. O que terá em mim se escondido, quisto e apagado?

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Negar a morte é um ato de heroísmo? Ludibriarmos da fatalidade ou mais: exaltar o inefável como parte do que somos, caso ainda deixêmos de nos reconhecer como tais? Heróis ou vilões, alienados ou alucinados?

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A alucinação é o senso-comum, já que a lucidez não vê divisões na experiência de si – tamanha sua raridade…

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A dor retém a atenção, tensiona as potências numa só direção, impedindo os devires – atando a consciência, alterando-a sem rumo.

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Os buracos, as lacunas, as rupturas, todos os esquecimentos de uma vida: é isto que importa (permite) ao movimento. Daquilo que só se pode confabular, a ficção como investigação do inexequível.

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A invenção é a expressão ecologicamente ética (ethos/oikos) <par excellence>.

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“todo o segredo da vida se reduz a isto: não tem sentido; mas todos e cada um de nós encontra-lhe um.”
(Cioran, O Ocaso do Pensamento)

Será preciso um “senso-comum” para se viver em comum?
O sentido da vida… Sentido, vitalidade, vigor espiritual. Se todos tivessem o mesmo, isto ajudaria a convivência?
Todos e cada um encontra um sentido. Sentido quando pensando o todo, e sentido pensando a si mesmo. Um sentido quando se pensando em comum, outro na solidão de cada um de nós. Encontramos um sentido para todos nós e para cada um de nós, mas este sentido único, diferente em cada um, na sua diferença – por mínima que seja – é que define este “comum”. É por que cada um tem um impulso “totalizante”, isto é, tem a experiência de integralidade e participação com o todo – é o todo em certo sentido -, neste caso, não seria o sentido, o senso, a própria diferença que nos uniria? Mais do que encontrar um único, seria preciso aprender a viver na loucura, em meio a tantos sentidos…

A vida seria, enfim e então, “uma história cheia de som e fúria, contada por um idiota e que não significa nada”
(Shakespeare, McBeth)

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A responsabilidade da criação:
Deleuze, “Nietzsche e a filosofia”, genealogia, parágrafo 1.

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O todo, a totalidade, nunca é ela enquanto se é contemplada. A cada instante, sua integridade é, por certo, corrompida. Isto é, é alterada – nem para mais ou para menos. A sua configuração se altera. Todas suas leis de constituição, repetição e diferença se transformam na composição de uma “nova” totalidade. Isto quer dizer que o que é está sempre devindo outro.

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Sempre nos incurtiram a falsa idéia de que inventar histórias era errado (junto com uma possível falta de caráter)…

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Para uma interpretação sem fim.

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Uma dor que caminha
caminha sozinha
buscando abrigo
cantando comigo

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-> de como o hábito altera a percepção – tanto da medida quanto da desmedida, falseando ambas em situações inversas.
-> o projeto amoroso da família moderna – amor incondicional daquele que, invevitavelmente, nasce condenado.
-> intuição do instante e a constituição da zona de indeterminação – crítica ao passado para a não-idealização do futuro – o não-senso como método de se estar em comum – a invenção só existe através da história.

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É da natureza das coisas se movimentarem. (Uns diriam que seu ser teria este tal movimento imutável). Mas é também da natureza delas, cada uma ter sua velocidade e, cada qual, interferindo – gerando e retendo – a velocidade umas das outras. Por isso, quando dizemos que algo se sedimenta e se estabiliza, naturalmente falando, estamos a presenciar as manifestações físicas e simulacrais destas velocidades, ao passo que estas velocidades passam a ser tão pequenas e quase imperceptíveis que pensamos as coisas como em repouso.
Todavia, é também numa espécie de “repouso” que, fisicamente, uma coisa (um objeto?) concentra energias, adquire corpo e espalha-se. Assim vemos que, tentar reter a natureza, no seus processos de ganho ou perda de velocidade, é, definitivamente, contra-natural – isto é, idealismos, projetos e verdades – pressupostos absolutos – são de total obra de seres que tentam subjulgar e dominar os outros através do controle da velocidade de suas naturezas.

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E o espírito, talvez, um dos monstros mais ancestrais…

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Com minhas mentiras (nossas verdades) criei algo que não consigo suportar.

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Uma cultura (hábitos e ideais) que prezasse pela própria vida que organiza e sustém, deveria prezar também para que se cultivasse tanto os atos quanto os devires, cuidando e fazendo praticar a todos aquilo que os faz resistr – não indicar o que cada um deve fazer ou pensar, mas uma autonomia das técnicas e meios de produção bem como da contemplação e da percepção, organismos vivos e independentes formando deveras um corpo social.

A sociedade deveria ser à semelhança ao organismo da sua menor parte?
Até então, temos imitado socialmente dos parasitas aos perdulários.

* * *

Dos mesmos infortúnios pelos quais atravesso no espírito e no juízo, sofro também as mazelas no corpo e no ato.

* * *

As dores que infligem meu corpo não são por um desvio, mas por uma má postura causando desvios.
(será que ainda estou sendo demasiado fatalista?)

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“a construção de um <fato> é um processo tão coletivo que uma pessoa
sozinha só constrói sonhos, alegacões e sentimentos, mas não fatos.”
Bruno Latour

O fato só seria social? Apoiado em deveras opiniões e vontades que, não obstante, aquele só existe enquanto estas o investem.
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Para uma extrema liberdade, uma disciplina intransponível: estar diante e não tolher.

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Foi criado por pais em quartos com portas abertas. Todavia cresceu sob uma tendência de olhar para baixo e caminhar inclinado para frente. Agora começa a perceber os ângulos e equilíbrios das vontades, procurando não sustentar mais metas como caprichos. O hábito ainda criará uma história? Logo vê que voltou, naturalmente, o que destarte havia deixado de lado, a lavar as pernas e os pés.

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À luz da história, assim em como boa parte do brilho nas artes, tudo ainda é muito bonito visto aos olhos do que foi idealizado. Mas o que realmente importa – no intutito de trazer à tona o espírito do tempo de cada época à custo de muita escuridão para a confecção da clareza – é o que ser humano fez (por que foram um pouco além das idéias que, todavia, não são logicamente perfeitas).

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“(…) o conhecimento é sempre uma certa relação estratégica em que o homem se encontra situado.”
(Nietzsche por Foucault sobre a generalidade e a particularidade do conhecimento)

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A sedimentação atrasa a sensação, escamoteando sempre a mais nova camada.

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E falo que as vezes aquilo que se deseja sem intuição e estratégia sofre um desvio sem alvo.

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Numa sociedade de controle contínuo e de comunicação instantânea, aonde se viria a possibilidade de uma “organização transversal de indivíduos livres”, tal como um comunismo? Trata-se de sabotar, principalmente, o gerenciamento da comunicação, interromper os fluxos de significação e de ordem dos sentidos, atingir exatamente estes regimes que definem o comum e o normal, que dizem como as pessoas devem ser incluídas e tratadas – é trazer o não-senso como estratégia de abertura comunicação: uma contracomunicação à tornar o podre da palavra (da imagem, do gesto, etc.) em adubo poético de um devir-libertário.

(Em vias da entrevista de Deleuze a Negri)

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A batalha intuitiva do conhecimento – volições e simulacros; pensarei um pouco como Nietzsche a partir de então, só para entender este caráter que não é humano, mas que é ele – visão oposta a da genética, onde o que não é humano é tudo aquilo que não está em seu DNA.
Daí por o homem ser diferente a cada geração, desde que este tenha passado por mudanças a gerar novos conhecimentos, não necessariamente verdades absolutas, mas perspectivas que foram traçadas num certo ângulo, tempo e precisão.

Não devemos, logo, lutar pelo conhecimento, exercer um conhecimento sobre o outro. Ele por si só já é um resultado de uma constante batalha da sobrevivência e é dele que deve-se partir para retomar as configurações desta sobrevivência. Tratar o conhecimento como uma salvação e matar por ele, contradiz seu próprio fim e o inverte em meio para um fim ainda por se alcançar.

* * *

O conhecimento – as práticas, os discursos e os signos usados – designado para certas realidades ou objetos é relativo. A teoria de Decartes sobre a realidade do ser, e logo, do sujeito, em que há o dualismo do material e do espiritual, do corpo e da razão, onde uma é imanente e a outra é extensa, para nossos tempos, esta teoria nos parecerá obsoleta se utilziando da mesma perspectiva que decartes pensava sobre tal realidade ou objeto (sujeito, razão, deus, etc.). Mas é perfeitamente aplicável tal discurso designando uma outra perspectiva – por exemplo, a comunicação e os corpos envolvidos no processo de informação, quando os meios e técnicas são pensados como extensões de um corpo.

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Nietzsche já estava num retorno ancestral à noção orgânico-abstrata imanente, pensando o corpo e as coisas, como num todo interligado. O conhecimento gerado não poderia mais ser observado apenas objetivamente, mas transversalmente. Ao invés de cada palavra para sua coisa, cada conhecimento para sua prática e aplicação, ele efetua uma drástica retomada ao pensamento intuitivo e, por que não, perspectivo – ou seja, ele passa a considerar o conhecimento como um aparecimento de configurações intelecto-corporais (racioanis e irracionais) poderosas e transitórias. Daí uma postura que saiba catalizar as indas e vindas desta vontade de potência.

A loucura é o surgir desta nova configuração, nova vitalidade, a fazer fazer novas investidas do si no ser.

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A alienação do sujeito no processo produtivo, durante sua atividade, pode ser também criativa?

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Nota: Os Monstros e o Acontecer Humano – Tânia Maria José Aiello Vaisberg, PUC-Campinas (visão psicanalítica de Winnicott)

A palavra monstro assume variadas acepções na língua portuguesa, sendo usada para designar desde fetos malformados até pessoas cruéis, desumanas e perversas. Tomaremos uma dessas expressões, a de “pessoa desumana” como fio condutor das considerações que faremos ao redor do tema da relação entre violência e sofrimento, considerando que figura nos dicionários porque como tal é empregada pelo senso comum. Notamos, imediatamente, que a própria expressão, “pessoa desumana” faz apelo à necessidade de banimento, inicialmente teórico, de alguns, do conjunto da humanidade, em virtude da prática de atos violentos e cruéis. Adota-se, assim, uma estratégia segundo a qual os seres humanos se preservariam de ter que reconhecer que alguns dentre “nós” são capazes deste tipo de comportamento e que, potencialmente, todos seríamos capazes de nos tornar violentos. Muito facilmente se desliza, defensivamente, no imaginário ocidental, que preza, desde seus primórdios gregos, a razão, para uma equivalência entre o monstro cruel e o louco, o insensato. Estes infra-humanos são, então, enviados aos manicômios e às prisões, e tudo seguiria relativamente bem, de acordo com a ideologia implícita na psicopatologia psiquiátrica, se o seu número não viesse a aumentar assustadoramente no contexto da sociedade globalizada mercantilista, como, aliás, já antevira e descrevera tão bem Machado de Assis (1882), em seu Alienista.
O laboratório é o típico ambiente para os “cientistas loucos” concretizarem suas épocas: a importância da razão e o conhecimento do mundo animal. … As víboras contra a pátria, a loucura contra a razão, enfim, … A monstruosidade não era somente associada aos que tinham nascido portugueses, mas a sua grande arma é o conhecimento com as ciências antigas. … famoso clássico “O Médico e o Monstro” (The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde), dissenima literaria e essencialmente, que o humano ao experimentar-se em modos de vida escusos e imorais, levam a práticas cujas experiências resultam em um alter-ego monstruoso.

Não tenho conhecimento se renegou sua obra de ficção, que se encerra com o Monstro que chora… o pão para os seus dois estômagos exibindo a sua entranhada monstruosidade em público. … Triste, louco, dava-me quase inteiro ao tolo que me pagasse: um conhecimento, propõe o espaço “em negro” do mistério como o espaço do saber, de clareza e descobrimento, capaz de determinar a loucura ou a morte.

É claro que numa sociedade racional-psicanalítica, a loucura será tratada como desvio, como estranheza e fará de toda sua população alvo de vigilância e controle, bem como de um próximo alvo de um ataque de nervos esquizofrenico sem aviso ou um tratamento prévio pelo próprio paciente que sofre inevitavelmente a alteridade. Em outros termos, agem no sentido de justificar a distinção entre “humanos” e “infra-humanos” ou monstros…

* * *

Sinto ainda uma tremenda dor nas costas, como um nó, uma pressão, um peso sobre mim (de minha cabeça, passando pelo pescoço, caminha pelos ombros, omoplatas e cervical, até o meio dos braços). Toda esta região queima. Preciso cuidar destas costas quentes. Deixar a asas saírem para voar…

* * *

Cioran, em uma de suas entrevistas, ao ser questionado sobre a relação de sua obra com os sentimentos que foram caros a sociedade moderna, como o
tédio e o fracasso, afirmou ser na experiência do fracasso um raro contato que o homem moderno tem com o nada, isto é, muita vezes, o sofrimento na
sua vertente mais sem-sentido. Nossa sociedade formou uma geração de pessoas fracassadas, ao cobrar delas ideais, metas, objetivos tão perfeitos em
sua aplicação como eram as suas imagens de realização. Formou sujeitos neurotizados, delirantemente racionais, esquadrinhando apenas o resultado, sem
pensar nas complicações. O efeito foi o de que os poucos que alcançaram o sucesso, também sofreram com tamanha megalomania. Os muitos que morreram –
literalmente até – no caminho, sofreram em boa parte de suas vidas por algum momento de ressentimento, fraqueza e desilusão: por assim dizer, volta
de vontade de viver. Nenhuma apologia glorificante à vida, mas este processo custou milhares de suicídios, psicoanálises e uma indústria dos remédios
e da auto-ajuda – sujeitos vampirizados e outros catalépticos, sem contar os inúmeros sintomas de perturbações mentais inomináveis e enigmáticas, que
não se corrigem e também não param de surgir e desafiar a ciência psicoanalítica a cada dia.

Não só por isso, formamos sujeitos psicopatas, que atentam a lógica da vida por não compreenderem (completarem) a meta de vida que lhes foi
constituída não só por discursos, mas como pelas práticas sociais.

Mas o que deveria realmente frustrar e fazê-lo resignar-se era esta vontade maligna de o homem creditar a cada invenção sua uma verdade absoluta e
intransigente; que a cada um que concebe-se um sentido da vida este deveria ser o único válido e seguido; que cada homem se achasse um deus superior
perante os outros.

* * *

Anedota digital para o simulacro-vivo:
Dei um “print sceen” de um vídeo passando e quando fui colar no “paint”, o vídeo ainda estava sendo tocado ao mesmo tempo – uma reprodução, aparentemente mera imagem estática, estava em movimento.

* * *

Instintos como fluxos.
O conhecimento, por mais que ele não seja um elemento natural, instintivo, por ser ele efeito dos mesmos, a invenção de um acontecimento nas relações de poder entre os instintos, ele também tem sua característca à da natureza – a de ser sempre em movimento ,e não determinar um efeito necessário e absoluto. Uma sociedade regida ética e politicamente pela ciência, é ser regida pela precariedade e arbitrariedade pessoal que se estipula pelo repetição incerta de um acontecimento aparentemente perfeito – mas que sua antureza é a da imperfeição, ou da, que se está sendo feita a cada instante.

* * *

Os hábitos são as práticas que nos permitem sobreviver e manter certos fluxos mas são eles mesmos que podem nos enfraquecer ao determinar categoricamente os modos pelos quais sobrevivemos.

* * *

Os conhecimentos não são ideais, ou revelações, mas invenção poético-políticas: invenção do que se faz de si. Se o conhecimento são perspectivas, cortes da condição de existência (economica, realidade) que nos proporcionam um certo poder ativo na organização das coisas, da constante na transformação desta condição (que invariavelmente já está mudando e nos mudando), este conhecimento que é como uma invenção do que pode o próprio corpo, a partir dele mesmo, de seus limites, uma invenção a partir das relações de forças que o compõe, sobre o páthos, e um desdobrar deste, uma invenção pela atividade inefável e indizível do pensamento, esta zona de indeterminação das potência, aumentando nossas capacidade de se perceber e se relacioanr com as forças naturais – se o conhecimento são estratégias de vida, de resistência e insistência, paradoxalmente a própria condição transitória que chamamos de vida, qual seria a importância das práticas de alteridade de seus hábitos, percepções e consciência, as quais que estas práticas formariam uma verdadeira postura ética em mutação constante e intensa com o acontecimento. Quais seriam então estes fazeres, estas poéticas da alteridade, à qual apenas propiciam a liberdade de gerir os fluxos produtivos de modos de vida e conhecimento?

Estas novas configurações psicoativas na constituição da postura, incialmente, para a razão, ela não pderia se apresentar de outra maneira do que a loucura. O sonho, a alucinação, o devaneio, a imagem, a crítica, o humor, a analogia…

* * *

A imagem talvez seja o que temos de mais real, no sentido de o quanto ela nos afeta.
Os sonhos são desejos – que se realizam, concientes ou inconcientes, dormindo ou não.

* * *

Quando não se gasta a energia, não se produz mais energia.
(sobre a preguiça e a fraqueza)

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Os hábitos do pensamento são as verdades.
O que pensar que não seja de um interesse que se sedimentou e te alimenta parcamente?

 

 

 

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O começo de uma obra – de uma escrita de uma página de um livro, gesto ou pintura, reverberação invisível ou coporificação das ondas, tal será o caráter obral dos corpos sobre si mesmos na perpetuação de “ser” – o começo de uma obra nunca é propriamente seu começo. Quer dizer que é o começo para aqueles que se encontram primeiramente com este desdobrar-material, mas este mesmo momento é o fim para muitos, e interstício que nos aproxima, ‘no ser em acontecimento’, uns dos outros. Assim, cada começo, não seja o que seja, ou o encontro, como também poderá ser compreendido, é forjado por cada um de nós, conexões e rupturas de seres-orgãos na organização constante de seu fluxo cósmico-molecular.

* * *

Que idéias são estas, as que nomeiam o invisível e incorporal, liberdade, amor, alma, deus? São invenções de algo que descobriram e passaram a sentir ou que sempre sentiram e com o tempo foram se identificando?
Que idéias são essas que não encerram também um pensamento sobre a própria vida, da natureza dos corpos?
São idéias puras ou sentimentos puros? Por ser além-da-física, não me diz a necessidade de serem estas as coisas que movimentam-se para além da natureza (lógicas sempre obscuras)…

* * *

aos olhos de Nietzsche, a relação entre o homem e a linguagem é, primordialmente, uma “relação estético-política”, de gosto ou de apuração dos gostos, para uma abertura ao sempre vindouro, esquivando-se das contradições e aceitando todo paradoxo da razão como desafio do pensamento: conhecimento performativo para mais vida.

* * *

– Cansou de colocar sua minhoca na toca do tatu?
– Tal minhoca já não suporta mais a terra que penetra. Mas de fato, este é o dever da minhoca.
– Minhocas não têm deveres, honra nem moral. Vacilou, caiu com a boca no meu pau.
– Seio…
– Seio? Estrume.
– Estas com seu colo preso e aleijado de todos.
– Aleijado sou eu, aquele que assume a ferida aberta e incicatrizável! Sou o coxo de cada um de vocês corpos dóceis plenos!
– Você se finge de coxo… se finge de freak para ser uma aberração como nozes… seu pé direito não é realmente torto…e seu siamês colado é somente uma dorso empalhado.
– Isto não significa que preciso sorver algum veneno mais forte do que aquele que me sobreveio…

* * *

Os delírios idealistas de salvação, redenção e glória dos homens
– o próprio medo da morte e da transformação –
levaram-lhes a fomentar a permanência da Forma (sobre a vida)

* * *

“O tempo é muito lento para os que esperam
Muito rápido para os que tem medo
Muito longo para os que lamentam
Muito curtos para os que festejam
Mas, para os que amam, o tempo é eterno.”
(SHAKESPEARE, W.)

* * *

Será que tomo como uma verdade instantânea a razão de eu perceber meu carro sempre com um olhar desconfiado e perverso, quase avariado, por ter um enorme sisma a respeito da importância que meu pai dá ao carro e a responsabilidade que cai em minhas mãos de tê-lo e conservá-lo da mesma forma que ele tem e conserva?

* * *

It is common to argue that intellectual property in the form of copyright
and patent is necessary for the innovation and creation of ideas and
inventions such as machines, drugs, computer software, books, music,
literature and movies. In fact intellectual property is a government grant of
a costly and dangerous private monopoly over ideas. We show through theory
and example that intellectual monopoly is not necessary for innovation
and as a practical matter is damaging to growth, prosperity and liberty.

* * *

Os vícios são a servil prática a um ideal instaurado nada mais, nada menos, do que por si mesmo.

* * *

O que pensamos primeiramente quando pensamos ou o que comumente pensamos, quando pensamos em pensar, não deixa de ser o maior inimigo do pensamento…

* * *

Aquilo que percebemos, temo-lo consciente?
E aquilo que temos consciência, estamos percebendo-o?

feitiçaria como conjunto de ou uma poética prática para alteração da percepção.

Em outra ocasião Dom Juan me disse:
— Sonhar só pode ser experimentado. Sonhar não é apenas ter
sonhos; nem devaneios ou desejos ou imaginação. Sonhando
podemos perceber outros mundos, que certamente podemos
descrever; mas não podemos descrever o que nos faz percebê-los. No
entanto podemos sentir de que modo o sonhar abre essas outras
regiões. Sonhar parece uma sensação; um processo em nossos
corpos, uma percepção em nossas mentes.

Sonhar é reconfigurar o plano imanente, o virtual dos estancamentos energéticos circulares para então, nos fazer experimentar sensações até então inencontravéis, desaparecidas, desapercebidas, e que reconfiguram nosso proceder, nossa experiência corporal-imagética sobre nós mesmos em relação ao outro (mundo, si, povo, objeto, etc.) – para aí então produzir-se também como um saber experimental.

* * *

Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a liberdade.

Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e abstratos, também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais – manipansos também.

Encontrar a personalidade na perda dela a mesma fé abona esse sentido de destino.

(Fernando Pessoa, L.D., frag. 34)

* * *

A linguagem não se direciona a algo, não se comunica a nada, coisa nenhuma significa, tal movimento que encerra o si-mesmo e prolifera.

* * *

Reparo que a evolução da poética narrativa da literatura, não só acompanhou a formação de nossa noção de história, como esta mesma noção se confunde, fundando e sendo o caldolento rio de um fundo chamado Signo (“o túmulo”). É como se percebêssemos, com o passar do tempo, que a própria experiência da existência, da duração, da vida, não é senão uma sucessão de instantes ininterruptos e absurdamente inconmensuráveis a respeito de sua viabilidade de distinção e aparência exata. O tempo é a condição de viagem, a condenação a vagar. A literatura-história é a escritura mesma da transformação constante das percepções alteradas de um animal assustado – somos narrados por outros que sobrevivem em nós, como os vivos que reinvidicam uma morte “boa e plena”.

* * *

Digo que à grande saúde, da imoralidade inventiva do espírito que se inventa conhecimento estratégico para o movimento; do niilismo levado ao seu máximo, invertendo a indiferença quanto aos valores e fazendo deles artifícios de mais potência; da convalescença que é a passagem das forças pela vida, no tornar-se sempre outro, uma poética feita história (analógica, crítica, irônica e humorada – sempre num limite, no risco) que é um devir-rizomático da própria vitalidade caótica e constitutiva de nosso desejo e destino.

* * *

Não são bem os signos, palavras e imagens, que ocultam o acontecimento (horrível como seria), senão, a poesia ao produzir estes signos, produz simultaneamente outra: com oque de inverso, ela produz um espécie de vazio, um sentido ou valoração, ocultando assim os outros desígneos do acontecimento —

* * *

Ato e educação. O ato, produtor de multiplicidades. A educação, encontro entre duas ou mais singularidades. Ambas as noções devem caminhar sempre juntas, livres.

* * *

Quando se “está louco” é que se “sente” a liberdade – breve momento de desordem. E, todavia, o que produzimos se não a nós mesmos? E se isso não fosse tão somente nosso corpo, mas tudo o que ele deixou de ser e o que ele será? O ato do corpo e seu espectro virtual: a memória como a duração dos corpos – as oscilações do deixar-ser para as vibrações do vir-a-ser – a imaginação como a sensação desta transformação. Ambas, aesthesis do virtual, na formação mesma de uma traçado sem rastro, dito espectral, dito simulacral, quase inexistente, mas sempre vindouro e persistente – o espírito, uma potência sem ato.

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Iluminação profana (Aléxia Bretas)

Apesar das semelhanças, no ensaio sobre o Surrealismo, Benjamin advertirá: “É um grande erro supor que só podemos conhecer das ‘experiências surrealistas’ os êxtases religiosos ou produzidos pela droga” (BENJAMIN, 1986, p. 23).

Chamando atenção para o que designa por “dialética da embriaguez,” o autor acrescenta: “A superação autêntica e criadora da iluminação religiosa não se dá através do narcótico. Ela se dá numa iluminação profana, de inspiração materialista e antropológica” (BENJAMIN, 1986, p. 23).

Que se recorde que este texto de 1929 mostra que os surrealistas foram os primeiros a detectarem o enorme potencial político impregnado nas coisas ameaçadas de extinção – como roupas velhas, fotografias antigas, objetos anacrônicos e lugares fora de moda.

Ao referir-se a tais artistas como “videntes” e “intérpretes de sinais,” Benjamin afirma que o grupo foi pioneiro em converter o kitsch cotidiano em “niilismo revolucionário.”

Para isso, a linguagem, ou melhor, a relação estabelecida entre a imagem e a escrita, assume uma função preparatória da maior importância gnoseológica, histórica e, no limite, até política.

Rompendo com a lógica de dominação – tanto no plano do conceito, quanto no da mercadoria – a démarche surrealista indicia a emergência de um ethos estético, em última instância, pautado na fórmula que ficará famosa, anos mais tarde, pelo viés do movimento estudantil: “A imaginação no poder!”

Em todo caso, ainda com respeito ao livro “Vague des rêves,” de Aragon, Benjamin escreve:

“A vida só parecia digna de ser vivida quando se dissolvia a fronteira entre o sono e a vigília, (…) e a linguagem só parecia autêntica quando o som e a imagem, a imagem e o som, se interpenetravam, com exatidão automática, de forma tão feliz que não sobrava a mínima fresta para inserir a pequena moeda a que chamamos ‘sentido’” (BENJAMIN, 1986, p. 22).

* * *

“Se você soubesse ao começar um livro o que se ia dizer no final, você crê que teria coragem de escrevê-lo?”
(Foucault, Verdade, poder e si)

* * *

todos escondem algo de si, a isto chamam estilo. (Vivian Caccuri)

* * *

A história contemporânea – a atividade histórica, a cátedra pedagógica e a ciência da produção e interpretação dos fatos – é feita tão somente de <mitos> mais sofisticados, <saberes estóricos>, feitos sob medida para mexer com as sensações e os instintos mais esquecidos, obscuros e vis para o “homem moderno” – o risco e o medo, a sobrevivência e a salvação, de uma tal maneira que estas sensações e instintos sejam substituídos por esperanças e expectativas – uma suspensão do juízo empírico, uma destituiçaõ da experiência de si, uma transferência do direito de vida – a medida que modos de vida lhes são prometidos como soluções de uma realidade confabulada para controlar-se muitos por alguns.

* * *

Pensar a relação entre sensação, linguagem e conhecimento.
Ou do porque a loucura é vista como não-conhecimento – tanto quando uma razão ou linguagem esta fora da norma, isto é, não compartilha com ela as mesmas razões, ou quando a própria sensação não condiz com o senso-comum a respeito de algo.

* * *

De algumas semanas para cá, alguns fatos peculiarmente estranhos e coincidentes aconteceram: me refiro à encontrar moedas em frente a caixas de livrarias e ao longo de corredores ou salas de espera. Mas me refiro, sobretudo, à ter visto dois ratos – um, mais branco, se infiltrou na roda traseira de um carro à minha frente enquanto eu esparava no sinal. O rato não saiu depois que o carro partiu. Alguns dias depois, ao passar à noite pelo quarteirão logo após minha casa, o farol de meu carro ilumina em meio a rua um enorme ratão marrom imóvel, como que mordiscando algo nas mãos, e sem nem ao menos se incomodar com os automóveis passando ao seu lado.

(do vôo do rato-cego)

* * *

Sonhar é experimentar a existência sem consciência?
É experimentar-se nas artes da sensação.

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“A psyqué humana é infinitamente mais complexa do que nosso raciocínio mundano ou acadêmico nos levara a acreditar.” (Castañeda)

Antes de algo ser descoberto, ele existia? Trabalhar com outras percepções sobre as sensações, elucidar outros campos racionais: a descoberta, sempre inominável, de alguma força, qualidade ou intensidade das sensações, não é propriamente uma descoberta; não se descobre nada senão passa a existir uma capacidade de operar nos e entre os acontecimentos, que sucedem de uma maneira diferente após a “percepção” deste “novo movimento”, e este passar a existir pela invenção de uma compreenssão, ou imaginação do que se sente, se chamaria conhecimento ou alteridade, imaginação e elaboração.

* * *

Feitiçaria como conhecimento da loucura – um conhecimento prático, perceptivo-postural, do qual se vale a sensação e a livre imaginação sobre um rígido código de atenção e disciplina: total abertura e desprendimento do e pelo comportamento em relação ao que se é e ao que se sempre pensou.

* * *

imaginação, potência

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Talvez a sensação venha junto à imagem, um corte de luz que se apaga conforme perdemos a atenção energética. Assim, o devaneio aplicado, o sonho desperto nos faz perceber algo através do pensamento que agora flui por ali: ver e sentir…

* * *

E eu mesmo esqueci o nome que me inventei.

* * *

As verdades que me cercam: o que fazer com elas?
O que elas me fazem, o que faço por elas?
O que digo, dizem de mim, com elas? Falo com elas, me dizem algo?
Talvez o que acho que é certo, faz-me errado. Errar é um desacerto: talvez é por aí que eu vou.
Não começar pelo pior para achar a mudança, mas pelo que me incomoda ao não acertar.

* * *

Nem a imagem em si, nem o objeto em si: em si, apenas a loucura tanto quanto vidência, injuria, inominável perplexidade do flexo.

* * *

Cada obra tem um pouco de morada (o que pode haver de bom e ruim nisso).

 

 

 

 

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Por uma singular vez acabo de me perceber com dificuldade de escrever <sobre> o que acontece comigo: a respeito de minhas posições físicas e espirituais, de acordo com aquilo mesmo pelas quais elas se formam, a ver, as forças dialogando. Um certo desprazer pela metáfora bem como pelas imagens começa a desaflorar quando imagens reccorrentes vêm ocupar aquilo que se deseja vazio, sem pré-conceito algum.

* * *

Por uma “poética” entendo uma arte dos fazeres: uma <práxis> <técnica>, produtivo-inventiva, já que na tentativa de reproduzir as formas, fabrica outras: isto é, em toda mímesis, em toda técnica, há, simultaneamente e irrevogavelmente, o processo poiético de diferenciação.

* * *

“O que é então o próximo?— Que compreendemos de nosso próximo, senão suas fronteiras, quero dizer, aquilo com que ele se inscreve e se imprime em nós e sobre nós? Nada compreendemos dele, senão as mudanças em nós que são por ele causadas – nosso conhecimento dele semelha um espaço oco a que se deu uma forma. Nós lhe atribuímos as sensações que os seus atos despertam em nós, dando-lhe, assim, uma falsa positividade inversa. Nós o construímos segundo o que sabemos de nós, dele fazendo um satélite de nosso próprio sistema: e, quando ele nos ilumina ou se escurece, e somos a causa última de ambas as coisas – nós acreditamos o contrário! Mundo de fantasmas, este em que vivemos! Mundo invertido, vazio e, no entanto, sonhado cheio e reto!”
(Nietzsche, Aurora)

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A idéia do “grande sertão”: veredas; em meio à perdição (e muitas vezes em intemperança e secura) do espaço e do tempo desmesuráveis, os caminhos pululam, se multiplicam a cada passo, a cada miragem: de fato, não há um caminho reto e parco a se percorrer; vais e voltas, muitas vezes sem nem retornar, quando sentes a vontade de viver; que veredas se não àqueles (todas?) que o levem sobre a vida?

* * *

E o amore a amizade talvez ainda seja isso, essa inexorável relação com o outro, com o múltiplo; não como conhecimento, mas como constituição, anterior a qualquer formulação, combinação, se não, aquela do encontro. E talvez porque negamos, piamente, a dependência com o outro nas relações sociais, isto é, declaramos guerra ao outro mediante a defesa de nossa “liberdade”, que nos maltratamos no amor, que vivemos em conflito com estas interelações, deste reconhecimento de nós mesmos apenas através do outro, do que ele nos provoca, do que nos dispômos em relação; e somos hábeis negociantes em todas as tramas que envolvem infortúnio de “algo/alguém” e o regojizo de “ser-alguém” e estar <acima> (vitorioso, salvo) de “algo”…

“Porque não posso suportar a distância, mando-te constantemente beijos: por telefone, por carta, por correio eletrônico. E nunca posso estar segura se esse beijo que te mando, sempre ‘um beijo’, o mesmo ‘um beijo’, o mesmo ‘um beijo’ mas a cada vez distintos, a cada vez um, são os mesmos que tu recebes. Por isso, meu amor, digo-te todos os dias que te amo, sempre o mesmo ‘te amo’ mas a cada vez distinto, e nunca sei como recebes esse ‘te amo’ de cada dia, essa oração matutina que, no entanto, não tranqüiliza a ansiedade do meu amor, a vertiginosa sensação de que nada está assegurado, de que nada, nem sequer o ‘te amo’, nunca pode se dar por suposto. Que te digo quando te digo ‘te amo?’ A resposta só poderá vir de ti. Que é esse beijo que te mando, que te dou? A resposta só virá de ti.”
(Jorge Larrosa)

* * *

“… para que pueda ser he de ser otro,
salir de mí, buscarme entre los otros,
los otros que no son si yo no existo,
los otros que me dan plena existencia,
no soy, no hay yo, siempre somos nosotros”
(Octavio Paz)

* * *

O jogo não é hierárquico.

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A morte sempre foi o desafio para o homem. Quero dizer que é contra ela que lutamos para continuar vivendo: contra os acontecimentos que podem acarretar nossa morte. Não necessariamente lutamos para derrotá-la, mas lutamos em embate com ela, desafiando-a também. Aprendemos a como burlar a morte como qualquer outro animal: a partir de suas habilidades e capacidades. De acordo com o que nos foi dado naturalmente, mas sempre em desenvolvimento com o encontro, o embate em si de cada dia.

Sempre pensamos nossa vida, nossa cultura e conhecimento, a partir de dois pontos: primeira, da sobrevivência – e da sobrevivência de si; logo, incorre-se que sobrevivência é uma questão de poder viver, a qualquer custo, até dos próximos. Poder enquanto deliberação sobre as ações, planejamento de encontros.

Sobrevivência e poder caminham juntos desde então.
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Uma impostura disciplinar: uma maquinaria sabotante da forma, produção ao ponto de abandonar-se ao desvairio do profano, ao saber liberto de qualquer pretensão à verdade a não ser aquela do acontecimento, do incrível possível. O homem só subsiste em sua descrença na finitude.

* * *

“O conhecimento poético é o único que nos resta frente ao progressivo anquilosamento da visão religiosa ou frente à dispersão do conhecimento científico. Os grandes sistemas filosóficos desapareceram. A filosofia analítica se encontra em um “impasse”, daí que filósofos como Robert Nozik tentem encontrar uma via de saída. Quanto à fenomenologia e seus herdeiros: não há ninguém depois de Sartre. Seus sucessores são comentaristas de Heidegger, como Foucault e Derrida. E que dizer do marxismo? Converteu-se em uma escolástica universitária nos países capitalistas do Ocidente, especialmente nos Estados Unidos (a moda já passou na Europa), enquanto que no Leste é uma aborrecida ideologia estatal. Nas grandes religiões, a visão poética foi e é central; o mesmo devo dizer dos sistemas filosóficos do passado. Por isto, creio que o que pode dar um pouco de frescor espiritual a nossas vidas é o conhecimento poético. Não digo que a poesia possa substituir a religião ou a filosofia: digo que é a origem da religião e da filosofia. No assombro ante o Outro e os outros está a poesia: foi e é o gérmen, a semente primeira. Regressar a ela será regressar à origem.
Uma relação análoga à que existe entre poesia e filosofia aparece entre a poesia e o mito. A poesia tem sido criadora de mitos e foram os poetas os que converteram os mitos informes em poemas e obras de arte. Esta função da poesia não desapareceu em nossa época. A poesia tem rejuvenescido os mitos – Eliot em um extremo e, no outro, Joyce, para falar tão-somente de poetas de língua inglesa, ainda que também se possa citar Rilke, Apollinaire e outros.
[…]
Antes de tudo: os mitos são realidades. O são de uma dupla maneira: em primeiro termo, por terem vida própria e, em seguida, por expressarem, quase sempre de uma maneira metafórica e cifrada, uma dada situação e que corresponde a todo o grupo social. Por exemplo: a bomba atômica reintroduziu na consciência moderna o antigo mito da extinção do universo. Nossa sociedade não é a primeira que teme o desaparecimento do mundo em um grande cataclisma. Recorde os aztecas, os estóicos ou os cristões do Ano Mil. Em quase todas as religiões figura uma revelação – um apocalipse – relativa ao fim do mundo. Esse fim pode ser definitivo, como no cristianismo ou no Islã, ou cíclico, como no budismo e entre os estóicos. O assombroso é que a sociedade do progresso e da ciência, precisamente através da ciência e do progresso, tenha descoberto, por sua vez, a velha imagem da destruição cósmica. A diferença com o passado não é menos reveladora que a semelhança: para os antigos, a catástrofe confirmaria a verdade da revelação, enquanto que para os modernos a explosão nuclear nega as suposições de nosso mundo: a razão, o progresso, a ciência. Também é assombroso que os poetas tenham dito sempre o que agora descobrem os psicólogos e os sociólogos: a presença da violência mortífera, agarrada às dobras da alma humana ou nas entranhas da sociedade. Voltamos a sentir como os antigos, mesmo que pensemos de uma maneira distinta. Isto quer dizer que em nossa imagem do fim do mundo há uma fratura: foi uma visão religiosa e agora é uma possibilidade filha da ciência moderna e da violência ancestral do animal humano.”

Octavio Paz

[Trechos de “Poesía de circunstancias”, entrevista concedida a César Salgado. Revista Vuelta # 138. México. Maio de 1988.]

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Uma práxis-educativa da inquietação, pela escrita da inquietação: vertiginosa impostura; o campo de nossa ação não se encontra nem no ato nem nas decisões – reverberações, propagações, dilatações e constrações, equívocos e quivocidades, brechas, trizes: o que está despedaçando-se e voltando à brisa convulsionada do ruído magnoeletrônico dissonante e rizofágico…

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Acreditar sem acreditar – eis uma espécie de imagem do espírito-livre? Daqueles procederes oriundos da alteridade das percepções como captação de mundos, onde cada mundo se faz no ato e remete a uma cosmologia ética própria, fundante e de ruptura, variando conforme os encontros, do porvir, da morte (próximo outro).

Arte de fluir e colher.
(Tem de acreditar, C. Castañeda)

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Esta sanha ainda de ser visto, reconhecido… até querido, tocado, jogado, envolvido, roubado, descartado, esquecido, fudido,…

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Tudo o que <se considera> acabado, <passa a ser> obsoleto.

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afora isso, existe o tempo… a elaboraçao… o não mentir para si mesmo e tentar produzir a partir de onde se está e não de onde se pretenderia…

(Fabi Borges)
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O mito hebreu-cristão do pecado e da queda do paraíso é muito propício para o sentimento que promove uma “dúvida” sobre o sentido da vida, de uma queda à loucura do indefinido, que imprime a sensação de condenação ao irracional, explicitada como condenação já que é da nossa natureza racional almejar sempre algo fixo, definido: um deus? Mas será da nossa natureza racional este “fixo”, “o definido”, “o completo” e “íntegro”? E por acaso esta forma fixa, de onde provem está natureza simulacral do pensamento, pela qual destaca-se de um movimento para transforma-se em outro? E será ela então, a idéia, o supostamente fixo?

Logo, a concepção cristá de que há sim uma salvação, uma idéia e um proceder a se seguir para tal fim esperado, mas indefinido. Estimula-se a perdição para incitar uma salvação.

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Com toda essa lógica calculista, exclui-se uma gama de percepções das quais o homem sofre mas torna-se, obrigatoriamente, ignorante de partes de si, algo que se altera e sua consciência não acompanha. As distâncias se tornam ausências, os encontros se tornam provas e os processos se tornam inquéritos e diagnósticos. O outro se torna um adversário, um inimigo que não deve ser honrado, mas humilhado, suprimido. Infelizes interpretações dos mutilados.

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Oportunismo capadócio.

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Todos os projetos e utopias revolucionárias, que visam a transformação do homem com um fim da melhoria por meio de uma conceituação e projeção ideal do que o homem é, pode e deve-se tornar fascista, conforme os desenlaços desejantes que este idealismo fixo, porém sempre vindouro, esperançoso porém sempre confinante e aflitivo, podem advir das propostas de mudança.

Deve-se, a um bom custo, evitar tais projetos utópico-trancendentais.

* * *

But, for myself, the earth’s records had taught me to look for widest ruin as the price of highest civilization (Edgar A. Poe)

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A ilusão de uma liberdade, íntima e intransferível, ligada a nossa existência enquanto identidade e conhecimento de nós mesmos, de nossas ações e escolhas, nos foi tão intimamente entranhada que nos concedemos a presunção e ignorância de dizer que somos mais livres hoje do que fomos antes.

* * *

Inevitavelmente, toda convicção, uma hora ou outra, em momentos de menor suspeita ou maior fascinação, deve ser interrogada, reinterpretada e logo transformada.

* * *

Nem deus, nem o homem, nem a vida: a monstruosidade do amor, tão somente, a loucura das forças.

* * *

Potência e prudência. Ao investir na potência, algo acontece de desgoverno. Com isso, este acontecimento é indissociável de uma relação ética com o desejo, isto é, habita-se o fluxo do rio, transita-se na periferia da aldeia, na medida em que este avança e se retrai sobre o território, erodindo as formas do cultivo e da ensenhança. A forma, que constantemente na resistência, abandona sua consistência e se entrega ao trânsito, nega qualquer obviedade, qualquer presunção, que seja extrema ou pífia. Daí a relação das doses, onde o Estado de Si é indiscernivel do intratável de si, do que foi ou do que será, sendo um Governo impossível, já que tirânico, contundentemente neurótico. As doses são as úncias que podem ser de qualquer qualidade e intensidade, a medida que se anula a relação de confinamento estabelecedio por uma temperança prévia.

* * *

Afirmar todas as coisas, fazendo-as diferente (para Nietzsche e seu Ecce Homo).

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Necessidade da mudança. Estaria eu tentando acarretar outra coisa a qual também seja inalcançável e, por hora, altamente inexorável? Estaria estipulando deveras um novo eu, já este predito e previsto? Como então apenas concentrar forças, isto é, não centralizá-las numa coisa, nem focar as energias apenas nos projetos os quais visam o devir… seria como se, aprendendo a não desperdiçar energia, a cada dia, nos dispuséssemos a toda a potência possível, isto é, a capacidade de exercer, devido as circunstâncias e não somente aos devaneios, um caminho melhor encontrado entre o devaneio e o contingente.

* * *
A verdade é este instante – perplexo: nunca apreendido.

(Ó! Aristóteles…)
* * *

Ao invés de “armadilhas do mundo”, gostaria de falar das “armadilhas da linguagem” (ainda que, seguramente, ambas sejam a mesma coisa). E a linguagem é ardilosa quando articulada para enganar, para consolar, para conformar, para tranqüilizar, para procurar certezas e seguranças, para falsear a realidade, para entorpecer, para fechar os olhos.
(Jorge Larrossa)

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A mordaça aumenta a mordacidade. (Millôr)

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Cada um chama a chama que lhe cabe ao fogo.

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Liberdade é controle? É a capacidade, possibilidade de fazer o que se quer? De realizar o que se pensa? Logo, liberdade enquanto controle é razão? Mas Enrico Berti, nos faz lembrar desta frágil crítica da contemporâneidade à razão, que se limita as “racionalidades” do séc. XVI ao séc. XIX.

* * *

Um intelecto habituado aos ciclos do corpo e da mente, que baseia a organização das sensações e o investimento dos desejos numa estrutura postural estática e pouco apta aos devires, no menor prenúncio da variação destes ciclos, qualquer alusão a deterioração ou mudança inesperada de sua existência, lhe provoca pesares, ruminâncias e dores ou tipos de palpitações <necessárias> a debilidade de sua impostura.

* * *

Seguir uma disciplina criativa ao brincar com a ordem dos hábitos vitais.
* * *

— ver-me — acabei de sair de uma aula e não sei se a dei ou se a recebi. acabei de dar e receber uma aula e já estou me encaminhando a outra. e questiono meu caminho, me preparo sempre com este que aparece: é, este ou aquele, tanto faz, basta por ora enfrentar. não peitar ou resmungar, embora um bom res-piro e alguns… performativos grunhidos façam este tanto. atravessando o rio por baixo, entre os buracos, me vejo agora como o lugar do incógnito da escritura. somente sua textura me permite reparar e desfrutar as co-incidências e as des-vias do maduro fluxo. ouço muito “sabe o que meu psicólogo falou?” e só isso me faz perceber ou relembrar a veemência com que se capta a potência, com que se pratica a indescência. reconhecer e esquecer. no trânsito, pensam em fechar os vidros por causa da poluição e o mau-cheiro. penso na atenção deste momento que se perde e se ganha, para que a música, também ela, não se perca apenas com delírios. abro então uma greta só e o jato fétido que invade e se mistura por inteiro, me dá uma alegria clandestina, gozo a perversidade dessas que se repetem há tempos, sempre inoportunas, imprevisíveis, ínfimas e contundentes. logo surge a vontade de abrir o vidro todo: não quis nem refletir contra ou valorar após, dar um “custo”, qualquer que fosse, quanto mais energético… pois estou no trânsito, e ele está parado. não é a imutabilidade do transitório. ele está parado. não por que quer, nem porque deva. mas porque, tal vez, seu caminho já foi projetado. e este projeto é uma dor, um obstáculo, um desafio. só mais um erro; e isto não é o fim.

(30/09, do farmacólogo-herético)
* * *

monstruosidade e irreconhecimento.

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– Onde tudo se afirma, tudo se faz diferente, então. Aberto ao ordinário, a beleza do acontecimento. Uma sabedoria enquanto alteridade – em colisão de consciências, uma arte da queda: disposição a abandonar-se, “a cair”, para só então, uma arte da suspensão, do bufão, ou mesmo, a do “louco”: ter fé sem acreditar, viver sem a ambição de salvação, a sabotar seus “paraísos”. Arte do desentendimento, diriam, onde a transcendência incólume dá lugar a uma liberdade devassa. Estranha, clandestina alegria: ao pé do rio, de seu fluxo, abandonado e caído nele, aberto ao ordinário ou ao absurdo, a beleza do acontecimento de uma vida: não se espera nada dela; não se quer mais o que se descobre, a fortuna e a glória ou outra coisa que se conquiste nela. Quer-se apenas aí, abandonado e caído, suspendido qualquer juízo absoluto sobre o que ela seja – assim, se é “mais livre e maior” tão somente porque abdica da salvação além vida, de sua idealização, entregando-se a sua potência.
– “Pois bem, agora falta você fazer aquilo que sua escrita imagina falar. Tem coragem?”

 

 

 

J. William Waterhouse - sleep and his half-brother, death-1874 (hypnos e tânatos).jpg

 

 

 

– (Escrita e a doença da existência? Escrever e…) fazer, no ato próprio da escrita, aquilo que se imagina falar ao escrever? Qual escrita suporta isso que não se consegue dizer, fazer falar ou ver? Por que somente ao sepultar suas forças no ato, ao se esconder em meio a signos e traços e trizes, (ou mergulha-se nesta infinetesimal distância entre acontecimentos, sonho insólito de não-ser), desaparecendo-se (em meio à composição dos <corpore scriptum>), aparece uma pergunta: quem é que escreve? “alguém” ou “algo”, que já se sentia e queria, até se vislumbrava, mas não há como se <ver> nem dizer ou fazer perguntar? (Esquece-se, confunde-se, quem escreve, quem vê e quem faz).

… Quem se é, senão, isso que se perde, lambuza-se na tinta viscosa da estepe, enquanto se escreve sem rumo a sombra ou a toca do mundo, tão somente pertencente a uma fauna escritura embrionária e imunda, traço sem rastro de um infante selvagem alambazado, incurável e robusto?…
– “Curioso, excessivo, instigante, bocó. Adorei o ‘trizes'”.

* * *

Pildoras filosoficas tonificantes del Dr. Cioran:
No reducirse a una obra; sólo hay que decir algo que pueda susurrarse al oído de un borracho o de un moribundo.
* * *

Contrário ao louvor do sacrifício heróico por amor a criação da Vida,
o poeta deve retornar a precavida vida para cantar o eterno esquecimento do amor à Morte.

(Frente a temível glória maior da vida!:
o tão sonhado amor eterno sem pranto,
para além da morte, de deus, ou da loucura,
ao não se entregar a seu desconhecido encanto,
e retornar a si em plena sensação de impotência e amargura
seria digno de alguma fabulosa obra, poema ou canto
quais não poderiam revelar ao vivos o porque de tão fascinante ternura e espanto
trazer-lhes, ao invés disso, um pouco de seu fragoroso engano
e ensinar-lhes a alegria de se sustar a famigerada condenação a cura?)

– Deve-se preferir dormir…

(por sobre “A Assombração Artística – Sepultura das Ilusões”, I. Bergman in <Através do Espelho>)

* * *

O medo do frágil corpo. Não tenha medo da fragilidade do corpo.
Só o louco pode sobreviver a tão temida sensibilidade do morto.
O amor para com o outro é essa escrita irrecusável e irreparável,
a qual só se aceita plenamente em renúncia total ao medo do outro.

O amor, tudo isso que não se pode ser dito sem clamar o inominável e maldito grito inaudito do divino
ou a suspensão temporária de uma sentença de morte, a arte da queda a realidade que não possui suporte.

* * *

Conseguimos com a mentira o mesmo efeito que com a verdade: aliviar-nos da vida ao idealizá-la.

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Mas uma vida sem desejo não vale a pena ser vivida, por isso ela é uma grande heroína: sua grandeza mora ali onde mora sua maldição. (Luis Felipe Pondé)

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“en dehors des disciplines particulières, un problème (…) à la clé de tous ceux que pose chaque discipline envisageant le mouvement de l’énergie sur la terre – de la physique du globe à l’économie politique, à travers la sociologie, l’histoire et la biologie (…). Même ce qui peut être dit de l’art, de la littérature, de la poésie est en rapport au premier chef avec le mouvement (…) de l’énergie excédante, traduit dans l’effervescence de la vie” (Georges Bataille)

* * *

Temos esquecido do mínimo. Respirar.

* * *

E não é em Portugal, dando um rolê na periferia, trombando-se na esquina, ou procurando um cigarro, um abraço. E aqui, respiras agora?

* * *

Uma dor insuportável, constante, que presenteia-me. Uma dor que caminha, conforme aquilo ao qual se almeja, e a distância ao que se está de.

Quando comecei a escrever estas notas e fragmentos, não havia-se me revelado; estava ainda por ser transbordado. Precisei fingir uma vida, para que uma outra, como que ainda contida nas bordas, pudesse ser acolhida e logo mergulhar nessas frondosas tinas que criei.

* * *

Sem mais o que fazer, inventei-me numa doença para mim.

(Incurável ciência, prescrevo sintomas táticos, amador paciente do traço sem volta. Ausculto agouros como se praticasse versos em prosa, fragmentos ínfimos de dor, superstições e lorotas…)

* * *

E o inesperado, quanto custa?
* * *

Dias atrás encontrei com Vinicius Vince. Mostrou-me o que é um testamento cultural, bem como o encontro com o inesperado e a entrega ao fastídio e excesso do mesmo:… e foi só mais um instante, com o cu virado pra lua e querendo deixar um recado pro céu. E o inesperado, o que vale, quanto custa mesmo? Se tivesse sido tudo planejado, já perderia seu valor… Limparei meu chiqueiro até que o cheiro seja o suficiente para queimar os R$ 200 milhões.

* * *

“Entrego-me ao prazer de estar desenganado; acima da Dúvida só coloco a satisfação que proporciona…” (Cioran)
* * *

Propositação Desproposital: para saltar os buracos ou aprofundar as fissuras.

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O problema de um hábito que se mantém da mesma forma, mesma temporalidade espacial (hora/local), mesmos procedimentos de conduta, execução e resultado, é o da nebulação ou invisibilização do próprio ato envolvido: mistura-se o ocorrido, a memória e a imaginação, acontecimento e ato, transformação incorporal e atualização do corpo, real-idade-e-estado e fri(c)ção – não sabe se já o realizou quando se propõe a realizá-lo.
* * *

Deixa de algumas vezes tomar os comprimidos e não sabe se adianta mais escrever. A coluna já não se posta mais no seu cutelo. Assim, as dores mantêm-se na espinha, na sustentação, no sentido da caminhada e de quando senta. O descanso só é permitido em sonhos – a dor é imagem.

* * *

Alteridade promovida, liberdade regulada.

* * *

A inquietude da insatisfação. A negatividade da objetividade como a impermanência da subjetividade.

* * *

Tornar-se escritura: nada lhe vem ao escrever. Lê e re-lê para extrair e se distrair do que pretendia a princípio. Arrisca rabiscos na face vazia, a esboçar sobre os fins que não crê, mas que insistem em lhe re-produzirem-se sem saber o porquê. Convalescença do risco: obscuro e intenso se queda ao acolher-se no alento de tal desastrosa escrita de si .

* * *

Na tempestade, o homem perde seu farol: “Você viu um cachorro por aí, amigão?” falou ofegante enquanto passava correndo a procura de <algo>. E acabara de ver num muro <algo> como “herói é aquele que não teve tempo pra correr”. Como seria poderosa a natureza que revela sua expressão mais intempestiva e criativa no desastre e que para nenhum homem é cabível seu sentido sem tê-lo que inventar a cada novo recomeço.

(Efeito, superfície, ilusão, alento.)
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Um bêbado clamava no ponto de ônibus para que os universitários ouvissem o amor em seu mais intenso delírio: “Sou corno e eu sei e é por isso que devem ouvir esta história. Sou corno, mas sou feliz – por que isto prova que gosto de mulher”. Em meio a gargalhadas e balbucios, ele cantou em seguida a música que acordara esta manhã na cabeça. “Lágrimas no escuro, mágicas no absurdo”: chove lá fora, e <aqui>?…

não se precisa o ler e o escrever…
* * *

Pelo diálogo, a linguagem que age sobre a superfície das coisas, que estabelece entre eles não mais limites, mas passagens e que desarticula as seprações das definições de seus estados de formas, passa a conceber a coisa não mais na sua forma que a diferencia da outra, mas na sua substancialidade que permite suas variações.

* * *

O triunfo da escrita, ou da <arte> sobre a <vida>, é que conquistamos uma liberdade a custo de nosso esquecimento.

(nas palavras o homem se projeta, se idealiza, mas só pelo instante da escrita, presume também a sua permanência naquilo. Com o tempo, aliviado do peso de ser, vai se esquecendo do que era, permitindo sua repetição e transformação sem culpa).

* * *

devir-origem: “uma origem porvir”. Será que terei coragem e suportarei tamanha liberdade, ou melhor, o desconhecido, que está para surgir?

* * *

“Súbitamente, necesidad de demostrar agradecimiento, no sólo a los seres sino también a los objetos, a una piedra porque es piedra… Todo parece entonces animarse como si fuera para la eternidad. De golpe, inexistir parece inconcebible. Que esos escalofríos se produzcan, que puedan producirse, muestra que la última palabra tal vez no esté en la Negación.” (Cioran, Desgarradura)

* * *

Ninguém consegue ficar isento do sentido que se apega.

* * *

Escritura e ruído: o que se acha? o que se busca?

* * *

Encontrar o chão. Escavá-lo, erodi-lo. Cravar as mãos e gotejar o pó.

* * *

Eu quero, eu quero, eu quero, sempre, sempre, sempre, em vão, em vão, em vão.
Eu quero sempre em vão.

* * *

Riscos e fissuras, vícios e frescuras: os modos de vidas serão virtudes inventadas, como balangandãs de jogos e travessuras – escritas que se afloram textos, tiques, marmotas, inscrições nos mundos por corpos náufragos, perdigotos, farofas. Tragados sãos, sim, nós, encontros dos mares profundos, boiando pelas superfícies das marés irrequietas, a teimar um alimento d’um sentido – aonde irão atracar tão perdidos? Acham-se excessivos nas direções, excedem a absorção dos líquidos, divergindo do incólume, nada querem dizer sobre seu incontido suspiro. Vertigens que não mareiam mais inspiram o temperamento – ingênuos balanceios erráticos. Dobram-se nos intentos de seu inverso, bebem terra e comem água e curiosamente incham até a repulsividade bocó, oriundos à aberração do que se cria: suspensos do território – do juízo –, aéreos das realidades virtuais, chegam-se ao idiota instigado, cravam-se no fluxo a simular um desaparecimento continental e aqüífero, reciclando sua vitalidade esquecida.
“Você me leu certo?”.

* * *

Vede, vede, é dia já… Vede o dia… Fazei tudo por reparardes só no dia, no dia real, ali fora… Vede-o, vede-o… Ele consola… Não penseis, não olheis para o que pensais… Vede-o a vir o dia… Ele brilha como ouro, numa terra de prata. As leves nuvens arredondam-se à medida que se cobrem… Se nada existisse, minhas irmãs?… Se tudo fosse, de qualquer modo, absolutamente coisa nenhuma?

(Fernando Pessoa: O marinheiro)
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

(Fernando Pessoa: Colhe o dia)
Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses
darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia
não brinque. É melhor apenas lidar com o que se cruza no seu caminho
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este é o último,
que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar
Tirreno: seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo
reescale as suas esperanças. Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento
está fugindo de nós.
Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.

(Horácio)

HORÁCIO, ODE XI (DO LIVRO I)

“Não buscarás, saber é proibido , ó Leucône, / que fim reservarão a mim a ti os Deuses; / nem mesmo os babilônios números perscrutes… / Seja lá o que for, melhor é suportar! / Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos, / quer venha a conceder apenas este último, / que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos, / tem sisa, os vinhos vai bebendo , e a esperança, / Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos. / Colhe o dia de hoje e não te fies nunca,/ um momento sequer, no dia de amanhã…
(Trad. de Ariovaldo Augusto Peterlini. In NOVAK, Maria da Glória & NERI, Maria Luiza – Antologia bilíngüe de escritores latinos: II Poesia lírica. São Paulo, DLCV/FFLCH/USP, 1989,p.45).

* * *

Amaldiçoa não só pela bituca, mas pelo desperdiço do meio cigarro jogado no chão.

* * *

Generosidade maior: dar sentido àquilo que não tem (é)?

* * *

“Os povos felizes não têm história”. (Paul Valéry)

* * *

A guerra não precisa ser para vencedores.
(nesta, talvez só possa haver perdedores para ela mesma)

* * *

Não mais cultua os astros. Ao contrário, profana suas órbitas, transitando entre elas.
Volta a ficar desastrado e a se divertir com o desastre.

* * *

“Quando fraco consigo ser forte… aí é que sou forte.” “O desejo é o começo do corpo.”

* * *

Cada um <cuida> de si, mas é pelos outros que se é <saudável>.

 

 

 

 

Facing Michael02.jpg

 

 

 

 
i have to sneak in and put on your oil
you will know where i’ve been but i need the protection
oh what a strange and miraculous thing
to finally recognize what is driving me crazy

all that i want was here now it’s gone
all that i want was here now it’s gone

don’t be angry, i don’t disagree
it is clear that i left my clothes on the highway
but i’d like to know if you ever told yourself
i could have once given your life some meaning

all that i want was here now it’s gone
all that i want was here now it’s gone
all that i want was here now it’s gone
all that i want was here now it’s gone

don’t be angry, i will die lonely
Don’t want you, and you will see that I will die so very lonely

(the organ)
* * *

viver em sua forma simples …
mas sempre contente com o poder que esse sentimento nos tráz …

(amo por ti, meu amor… e quer-se a morte de cada-dia que isso nos trás…)

* * *

Entre o niilismo e a dialética: uma poética como arte do desentendimento…

* * *

Vá para os braços de Morpheus: vivendo numa cama de ébano numa escura caverna com damas da noite.

* * *

… e nasci na nascente, onde a força cria energia e a energia cria força. Pulo o texto e vivo.

(J. Fonseca)

* * *

Mais do que Mostrar ou demonstrar o caminho, é fazer aparecer sua ambivalência, suas cotraditoriedades, seus possíveis desvios e descaminhos. Isto é, não é apontar o certo, mas mostrar o confronto.
Sócrates, a uma vez só, como herói e anti-herói, libertário e autoritário, revolucionário e conservador: mestre que não ensina nada a ninguém e, ao mesmo tempo, ensina todo a todos; alguém que, sobre tudo, ensina algumas condições para se iniciar no caminho da própria filosofia. (Walter Omar Kohan)

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“Nietzsche pedira a seu alunos que lessem durante as férias a descrição do escudo de Aquiles e que fizessem espontaneamente um trabalho sobre ele. Na volta às aulas, perguntou a um aluno: ‘Você leu a passagem em questão?’.

O aluno, embaraçado, respondeu que sim, que tinha lido o texto, embora não o tivesse lido.

‘Bem, então”, disse Nietzsche, ‘descreva-nos o escudo de Aquiles’. Durante o silêncio que se seguiu, Nietzsche deixou passar os dez minutos que lhe teriam sido necessários para expor completamente o assunto, andando pela classe lentamente, com um ar atento, como tinha costume de fazer. Depois, sem perder uma palavra a mais, disse: ‘Bom, agora que o senhor nos descreveu o escudo de Aquiles, continuemos’ “…. (pág. 57, Nietzsche Educador, Rosa Maria Dial, Editora Scipione, 1990)

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Me disseram quando fosse embora começasse pelo centro. Torcedor meio grego meio turco, descendência portuguesa e sangue italo-romeno, torce para um time nazi-fachista de coloração verde praia sol mar. Eles trocavam uma idéia, os lavadores de para-brisa, esperando o sinal fechar para ganhar a vida: ei, é agora, vamos lá, não tem que dar vacilo desta vez.

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Agora, após ter iniciado uma carreira docente, ao me lembrar melhor dos meus professores, percebo que não me recordo muito das máterias dadas, dos conteúdos trabalhados, das discussões proferidas. O que realmente “ficou” em mim e, de alguma forma ou de outra, me influenciou e me animou ao tomar tal caminho, foi menos os conceitos e mais os gestos, menos os filósofos e mais a atitude, menos a pessoa e mais a energia, a <disposição> com que cada um arcou com seu ofício: uma vitalidade rara de se encontrar no convívio com os outros.

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Na obra há uma <ilusão> de fim. Todo o engenho que se empenha, prescreve um caminho que traça seu destino. Todo empenho que se engenha, força o traçado a derivar do intento. Há algo que se furta no obrar, que se desvirtua na atualização:

“Que é a verdade?” é uma questão fundamental. Porém ínfima comparada com: “Como suportar a vida?” A qual palidece ao lado desta: “Como suportar-se?” – Essa é a pergunta capital a qual ninguém pode responder, (sem que…) (E.C., Desgarradura).

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Numa noite, um grilo bege e um besouro negro me visitam. Na seguinte, é a vez da mariposa ouro. Insetos agourentos.

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Como saber para onde se vai? (Sem ter que fazer o mesmo caminho) É ter de percorrer todos os lados para chegar lá.
E como não-saber para onde se vai? É após percorrer todos os lados para chegar lá.
Se não há a tão desejada <fotografia> da alma, este instante de plena, clara e distinta luz, após tantos aparatos e dispositivos de captura desta mesma luz, por que reside-se ainda tamanha aflição e tentação no apenas mirá-la e, no ficar cego de <não ver mais>, a escuridão raiada criará-ser-a muito aquém e além de seu fulgoroso clarão?

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Na volta da viagem de minha amada, ganhei um vudu do amor.

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Poder-saber ao longo da história do poder: criaram-se saberes afim de legitimar verdades e autoridades, produziram poderes afim de re-afirmar seus saberes e interesses.

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A invenção da história não quer dizer destruir outras, esquecê-las, trancafiá-las, interrompendo sua poética – mas sim, tomar ação neste processo incessante de conhecimento, multiplicar, disseminar, dispersar suas imagens, seus saberes, seus professores, suas condutas, seus percurssores, numa criativa crítica.
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Uma defesa egoística: sempre pela lógica do orgulho, do ensimesmamento, já que em guerra estamos perdendo o reinado, nos acolhemos no nosso trono.

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Lógica pática: fico enjoado ao corrigir provas.

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alucinação e revelação – o aparecimento do desaparecer, o esconder do velado, re-velar a escuridão: não há algo e mesmo assim aparece em meio a nada.

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Lo que es innegable es que todo el tiempo no pasa con la misma velocidad y según el mismo ritmo.

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E é foda, uma forma de vampirização onde uma das relações se acha “menor” a ponto de esperar que o outro a faça sentir constantemente e sempre mais, em compração ao que estava, melhor…

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pornéia agoural: tensão dispersiva, delírio preceptor: não é possível conhecê-la, mas há uma sensibilidade da morte: alucinação morfêmica…

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…e lendo em voz-alta: “asas de aranha” – breu: assanha-se a pré-vocalidade, já que não se ensina, nem se diz como (se) é, se faz com paixão, gratuitamente e na insignificância do ocorrido e do que aconteceu, voz, veio, via, esteio, o ringue da vida, a güela-xilindró do profeta, um boxe historial pelas arché das polis: “roda da fortuna”, diriam, dos muitos que perdem a providência, vencendo onde tudo deve ser visto com certa desconfiança e prudência – será que encontrarei, enfim, o sentido disto?… túmulo vivo, signo, que se fez história dos mortos insepultos apodrecendo logo debaixo de um céu cruel, desencarnado, desértico. Porque não se fala pelo outro e a vida na terceira pessoa pode ficar muito fácil e tediosa (a secura do rolê, a imagem no espelho, currículos e jantares, telefonemas e atletismos, até mesmo as cartas, os cheiros, as discussões, as preguiças). Restos, eis que só nos restos, quase nada acontece, ó, “desvia-se à ‘vida’” – turbilha sua imprescindível abastança. Sem o peso da teia, a viscosidade do-que-não-é lubrifica a linha que se distende nos cruzamentos dos limiares e se abrem nas abstrações de delicadezas ubíquas e indolência oblíqua, estremecendo a armação que de certa maneira se desfaz – estão todos suspensos, jogados, despregados, arrombados – asas à lua, ouço gemidos, grunhidos, zumbidos, litanias dilacerantes de qualquer senso futuro e originário: e após a arte de cair sem se machucar, virá a arte de se manter no ar – confluências, lances, extremidades e umbrais, adversários, enxofre, norte, primavera, diluídos e esgotados, re-cindo, e não têm certeza, mas escrevo porque falho ao ser, sucumbo e deslizo em meio à brecha, se não, sem sendo, à linguagem mortal. Depravação de costumes, libidinagem afetiva, devassidão do pensar; prostituição de si – um sacerdote que, entre os amigos, adivinhava o futuro, a custo do sacrifício da relação consigo, inferindo do vôo e do canto das aves os desígnios dos deuses amorfos… Diz: “Não há como ser isto que tu reclamas ser, meu jovem, e quando te aperceberes d’isto, tempo não haverá mais”.

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Porque o início não aconteceu com o prêmio e o fim eu deixo aos póstumos. Aquela que não sabe quem e o quê é, mas que por alguma razão acredita, ou seja, é MOVIMENTO. Aprecio a idéia de uma fronteira móvel entre as linguagens, ora tocando-se ora se (con)sumindo mutuamente. Mas tanto poesia como filosofia são inúteis: é ai que se encontra a fascinação: a busca de um desespero. A poesia não tem funcionalidade alguma, como a Arte em si também não tem. A única coisa que ela se propõe é revelar (e esconder) sua existência, e faz isso quando se realiza ou se perde. A Arte É.

(M. Maccafferi)

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E porque talvez falemos mais e melhor quando não endereçamos nosso fala/escrita para algo, imediatamente alguém, isto é, uma fala que sustente uma objetividade a custos de uma <condução> da produção subjetiva alheia, uma criação para o outro, uma invenção do entendimento <sobre> a fala/escrita do outro: porque ao falarmos/escrevermos indiretamente, polifonicamente, muitas pessoas falam por nós, com maior precisão – alcançam mais, mas falam menos – uma só palavra, totalmente despreendida da referencia, diz muito mais, melhor, com menos condução e enclausuramento.

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a polifonia, a hibridez, a precisão pro inalcançável, o incessante bio-gráfico… o cansaço… lembrei de ti e perguntei sobre o cansaço do que não pode se render ao poder e nem abrir mão dele… (só para os que realmente são sabotados constantemente por seus esforços e engenhos, tais os insensatos)… Visível: práticas de sonhos e de planos de sabotagem para a transformação social.

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Quando honramos os demais, depreciamos a nós mesmos.(Goethe, Westöstlicher Diwan)

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Crimson alligator blinded by the surf
Came here only yesterday from the worst place on this earth
But in this evil everglades
You’ll find no peace of mind
Watch out for the marsh hawk
He’ll rip off your behind

Do not feed the oyster
Under a cloud
He’ll suck you like a seagull into the so-ou-ou-ou-ou-ound
Under a cloud
Do not feed the oysters
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Underground

I hope you got there early and i hope you brought your date
I hope she travelled chicago, second class not freight
(a-)wedding bells and christmas hell to that life you did aspire
No more time to fight about the tension in the choir

Do not feed the oysters
Under the clouds
They’ll suck you like a seagull into the so-ou-ou-ou-ou-ound
Do not feed the oysters
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound

Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Under the grou-ou-ou-ou-ou-ound
Underground

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Ando atrás de relações, mas nem consigo, estabelecê-las. Ela me liga, já estamos cansados, e o que perturba sua relação com o inefável será a mãe? Me pareceria muito freudiano para meu gosto. Aceito os desgastes, os emplastros, até os disparates, mas como não optar pela indiferença quanto a sua diferença?

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Talvez a postura – a forma, a poesia -, seu fazer – um conhecimento – é a coisa mais difícil de se inventar, um temperamento. O nosso primeiro endereçamento é a nós mesmos.

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circuíto – fiquei intrigado e, confesso, já nesta minha primeira enviezada sanção aos comentários de outrem relativamente famosos – e não ser essa ainda a tamanha grandeza que esta pessoa possui com relação a seu ofício – pois confesso que me <espantei> com o comentário de um grande poeta em relação ao uso de nossos prazeres e o cuidado de si. Compartilho: ¿Por qué no se legalizan las drogas de una buena vez? ¿No será porque brindan el mejor pretexto para las invasiones militares, además de brindar las más jugosas ganancias a los grandes bancos que en las noches trabajan como lavanderías? (E. Galeano)

curto-circuíto – ‘A conversa infinita’ trata do escrever, ‘esse jogo insensato de escrever’. Não mais da escrita que sempre se pôs a serviço da palavra ou do pensamento dito idealista, ou seja, moralizante, mas a escrita que, por sua força própria lentamente liberada, parece consagrar-se a si mesma, permanecendo sem identidade e, pouco a pouco, libera possibilidades totalmente diferentes, um jeito anônimo, distraído, diferido e disperso de estar em relação, um jeito por intermédio do qual tudo é questionado: quem faz qualquer coisa, e não de quem <fala sobre> qualquer coisa.

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Leitura profana, escrita corruptível.

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Voz intempestiva: irromper, perfurar.

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Ando para lá e para cá sem saber muito o que fazer. Tenho tarefas já prometidas, programas interessantes a serem cumpridos, mas vou para a televisão, olho, sento, me levanto e vou até o quarto, ver os e-mails, dar uma olhada no site de esportes. Penso em escrever. Me levanto mais uma vez, vou atrás de um copo d’água, mas paro no meio do caminho, indeciso e ansioso com o que está porvir. Olho o prédio ao lado construindo pela janela, penso em comer, mas logo em você, e no que devo fazer para endireitar-me, caminhando pela sala retornando ao quarto, ou promover uma satisfação com o que eu faço, como um <dever>. Volto e me sento no computador. <Abro um arquivo> e começo a relatar os instantes anteriores, os que até então agora me propus a escrever. Uma linha se sobrepõe a outra e os tempos dos atos vão se misturando aos fatos, tomando um contorno de semioticidade simbiótica. Chego até este <instante complexo> e aí passo a me aproximar do <instante atual>, este mesmo da escrita na escritura, encontrando-o e fugindo-me, que de repente, num jogo de ritmos, comunga-se ao meu pensamento, mesmo diferente, em acontecimento: passo a pensar e a escrever exatamente o momento que vivo. Uma estranha sensação de inutilidade me apodera, uma sensação de sem sentido. Mas não paro, continuo. Se parasse, poderia revelar minha fraqueza frente aos desígneos do desconhecido. Mas se continuo agora a escrever, é porque invento que preciso descobrir a razão pela qual (o pensamento) a escrita possibilita esta suspensão e esta alegria de não ajuizar sobre nada sem delatar seu desatino. cada signo que sepulta a ação é uma ilha, fundada desértica, já que não designa o sentido pela qual se chegou lá, mas abre num desfiladeiro a outro terreiro a ser com pá lavrado. eis o esteio do cultivo, do semeio: no meio de desbraváveis oceanos e continentes ocupados, apercebemo-nos que cada instante pode ser, a seu gosto, uma ilha de um tempo vulcânico, intempestividade ou virada de curso que dá linha a evanescente eternidade.

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a potência tratada como lava quente: a erupção como criação e o endurecimento como hábito.

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A referência a pessoa substancial, tratando de sua nomeação constativa como representante de toda sua existência física e psicológica, é constantemente referido numa fala, ora pelo próprio nome, ora pelos pronomes, ora inventando nomenclaturas para tentar identificar quem é quem no discurso das ações e sofrimentos…

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Em busca do desastre: um casal termina pela enésima vez – eles talvez ainda se gostem (e se gostam muito), mas algo não dá certo, algo machuca ao estarem juntos, impedindo-os exatamente de manterem-se, de suportarem-se juntos por muito mais tempo que meses, semanas, dias, instantes. E isso já faz alguns anos. Mas percebem, e sempre perceberam, que esta impossibilidade de ficarem (de estarem) juntos não os impede de perceber tal impossibilidade. Não quer dizer que, desde o início, sabiam, de alguma forma, que nunca poderiam estar juntos, que estavam fadados à separação, quase que eterna, de um e de outro em relação aos dois. Mas talvez queira dizer que tamanha “ironia do destino” não pudesse fazer parte da <condição da possibilidade> para a própria relação entre si… se perguntam. Observam-se agora e querem sumir. E ambos, um de cada lado da cama, da casa, da cidade, do mundo, na sua agonística solidão, estão a <entender> e a <se perguntar> ainda (quiçá, para o resto da vida, tal como uma lição…) quais razões eles (não) teriam para estarem juntos?

(…)

Ir, voltar, seguir, fugir. E quem sabe talvez apenas a escrita consiga visitar a solidão, penetrar na sua irracionalidade, indagar sobre, permear suas incongruências causais, seus efeitos devastadores para qualquer futuro, atravessando mesmo as dores pelas imagens e das imagens refazendo o caminho do corpo, e, acentuando as disjunções e converções, por entre os acontecimentos, inventar as razões (e disposições) para um devir.

(eles não pararão de chorar pelas lágrimas derramadas?)

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“levar a vida a sério” – “misturar emoção ao prazer” – … – “jorrar no seio uma corrente dolorosa” – “bofetadas”
(Proust, O tempo redescoberto, ed. Globo, 1957, p. 95)

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A pergunta pelo ser sempre foi uma questão de linguagem.

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E porque não há autor que tenha o direito de reinvidicar para si suas palavras, e a linguagem é viva, posso pegar qualquer frase ou palavra a esmo pelo texto do mundo e misturá-las a outras, independente de tempo ou intenção prévia, a promulgar um sentido totalmente ambíguo e novo a ponto de traír suas crenças e atrair outras. Aí reside também uma educação a potência.

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“Toda a educação assenta nestes dois princípios: primeiro repelir o assalto fogoso das crianças ignorantes à verdade e depois iniciar as crianças humilhadas na mentira, de modo insensível e progressivo”
(Franz Kafka, Contos)

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Cultivamos uma mania de pensar, confabular, projetar constante um corpo porvir, o corpo que poderia ser, o corpo que queremos, queríamos, quiséssemos, um corpo que não o que sofre, o que está sofrendo para que este exato instante do pensamento aconteça. Perdemos tempo nestes delírios ressentidos de um corpo porvir, com um temor, um asco, uma vergonha do corpo que agora se vive, que não para de se transformar também. Este corpo “em devir”, este corpo nos seus processos disjuntivos, amálgamos, canibais, perde força ao não se pensar a si mesmo, ou melhor, não se corporizar a si mesmo, ou mesmo descorporizar-se. Falemos em sentir-se… um corpo que se sente. Penssemos as sensações do instante, do infinito, a cada novo instante. Sentirmos o pensamento que brota e causa, sem cessar, em abruptas correntezas de cortes e supurações, excreções e absorções, um corpo incognoscível por inteiro, por absoluto – corpo inominável, corpo austero e prudente, corpo resistente e fraco, esguio, viciado. Um corpo sedento e um corpo privado. Corpos mil que não deixam de atravessar a corporação, a corporatura, a formação indefinida das formas-de-composição. Me faria tolo, se não terminásse tal meditação sem um neologismo: porque o corpo talvez seja isso, uma lógica selvagem, um orgão demoníaco, comum a todos os seres, macro e micro, inexistentes – um fluxo constante de organização autosabotante.

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Não um cansaço do incessante, nem um esgotamento, mas talvez uma serenidade, “plenitude vazia”, diriam os céticos atraentes.

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O corpo-escrita, o espírito-escritura.

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uma solidão que sobrevém na fraqueza, surge na eminência de uma frustração, não há como apagar sem esperar o tempo cobrir e borrar. até o desejo de ir, de ver no que dá, oculta o propósito do paradeiro, do encontro. uma solidão que não tem nome, mas escuta, faz-nos escutar. quando quis, quando pensei e imaginei e “castelei” meu porvir para que eu escrevesse no meu bloco de notas, por tais momentos que se seguiram, o tinha perdido. não quis ansiar por ele, e percebi que usamos a palavra desespero nos momentos errados. “a crença é força de labuta”, penso agora. lá então, peguei minha flauta em minha estante após ter procurado pelos cômodos de minha casa e pus-me a salopar melódias que vinham: a escrita nos confronta, pois por mais que já vivemos aquilo. remonta-nos a singularidade do instante em que nos encontramos sem encontrar o que esperávamos – admirável potência de fiar a desconfiança (com o que “é, vai ser”).

viro a página e ela está em branco não por muito tempo. mas não preciso que a vire também. não é mais solidão, é solitude, suspensão, não o desregramento, mas descompostura. educar é contar o que se viveu, nem que for para você mesmo. sem medo de perder, de roubarem, na correspondência, na disposição, no cómputo errar. considerar – não há como ser imparcial nisso. nos enganaremos sobre os enganos caso acreditemos (n’isto) de uma vez por todas. todo a via que desvia tem um como e não um porque. e é aí que percebo a tensão de meu traço e alivío a escrita. estou tomando cuidado com uma certa precisão. não posso desacreditar nem acreditar de mais ou de menos. a inutilidade necessária de escrever a vida aparenta a utilidade desnecessária para sobrevivência ao lhe dar algum sentido: quando posicionei a luz para enxergar melhor, minha sombra cobria o que escrevia.
a isto sinto ainda que darei tantos nomes que não desperdiço, já que não termino:

para os soldados desertados, “cálamos de tristezas”, supõe ouvir, “flores do tempo”;

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re-presentar, voltar a tornar presente, pre-sente. . des fiar com. desconfiar este fio.
desfibrilar este frio: o in-pulso que antecede o pulo. solo. o bloco.com. sozinho. por vir.
em branco, escrevo melhor com as pernas. o corpo, página escrita. é escuta. se se educa.
as cartas que escrevi, pra nunca as entregar. desblocos. peco peço. o acesso desta (toda) via: peço, eu devia. desvia. um como, assim, como. se não tomo este cuidado, impreciso. reviro a luz em mim, para não enxergar o que escrevo. se escrevo. desperdiço, pq despedaço. não obrigada; grata. como inteiro o este espaço. curioso. baixinho… você vem?

empunho, meu caro, de presente, tão caro, este rascunho duro e meio sujo. não pensado muito, não sem propósito. este invólucro, é o que eu deixo passar sem ponto

e não guardo

meu abraço
(Júlia Barnabé)

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As crenças são forças as quais devemos modificar seus sentidos, cosntantemente. Pois, só são válidas quando renovamos a relevância que possuem na disposição de nossas forças, para onde a direcionamos. É da natureza de crer crer em infinitas coisas.

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“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Estou hoje vencido, como soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer.”

(Tabacaria, A. Campos.)

E fala-me a morte. Como a desejo, mas ainda constrangido, a distância, a sinto. Não é falta, não é um fascínio ou veneração, creio que deva ser o oposto do orgulho ao desejá-la. É um espécie de presságio, um agouro. Procuro não temer tudo aquilo que me remete ao fastídio do pesar da mudança. Não é um esgotamento, repito. Prefiro entender como uma desincumbência de mim mesmo. Isto não quer dizer que vou me suicidar. Apesar de todos os grandes poetas esbanjados pelo seu tempo, a mendingar a alegria dos futuros que, hoje ausentes, são arrendados do passado, não serei aquele que escolhe a morte. Ela já me escolheu. E remeto estas inquietações como a paciência mesmo daquilo que virá. Mas com certeza não a espero. Deixo outros a minha espera. Estes, saberão o que fazer com meus restos:

“Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! vou existir.
E-xis-tir…
E–xis–tir…
Dêem-me de beber, que não tenho sede!”

(Bicarbonato de Soda, F. Pessoa)

e…
* * *

e por fim esta monstruosidade nunca se torna beleza, senão após longos anos de penúria.

* * *

“Acreditar que Deus não existe faz a vida ter sentido. É um alívio! Dor e morte tornam-se coisas naturais”, diz o pastor ao recolher o corpo do ex-fiel que acabara de dor um tiro no ouvido. (Bergman, Luz e Inverno)

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Na fé há luz suficiente para aqueles que querem acreditar e sombras suficiente para cegar aqueles que não querem. (Pascal)

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Que intrincado cruzamento me ponho, <não sei> se venho, vou ou me encontro: acredito em minha loucura, no que vou além, explicitando seu caráter intensivo e dispersivo e sacrificial, ou aproximo-me de uma doença, na qual sacrificando minha loucura, educo-me perante os outros sobre as graças e os perigos do desejo e da vida.

 

 

 

 

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…Hemos llegado a la ignorancia a través de la razón. En boca de un personaje, Virginia Woolf se pregunta: “¿Con qué nombre tenemos que llamar a la muerte? ¿Y cuál es la frase para el amor? No lo sé. Necesito un lenguaje elemental como el de los amantes, palabras como las que usan los niños”. (Ernesto Sabato, Antes del Fin)
* * *

Haverá uma depressão que seja alguma forma afirmativa de recusa do mundo que é?
* * *

A dinâmica da saúde, da doença e da convalescença parece estar invertida pela nossa moral. Digamos estarmos saudáveis quando tudo está bem, aparentemente sem afecção que nos perturbe, dor que nos incomode, nada que saia do nosso <hábito psicofísico>. Já quando estamos doentes, é como se algo saísse fora desse ritmo habitual e entrasse numa molestação, resultando em afecções e dores pontuais ou generalizadas. Isto é, uma transformação em nós que não compreendemos e não aceitamos. A convalescença, digamos, é corriqueiramente um estado entre ambos estes aparentes opostos. É a retomada de um para o outro. Um estado geralmente breve, que antecede a bonanza sempre <muito bem> esperada.
Mas há algo de pernicioso nesse esquema geral. Estes juízos a respeito destes estados parecem pestabelecer regras para um jogo o qual, inicialmente, não há bom ou mau. Parece-me que quando estou bem, dito com saúde, perco inúmeras potências, mergulho-me num automatismo retardado, perdendo o cuidado devido de quem está concientemente enfermo. Quando as coisas comecem a sair dos trilhos de minha razão, quando os projetos empacam os movimentos e gestos do dia a dia, começo a perecer de uma vontade de alegria, de verdade, para me encontrar num desespero conspícuo. Quando estou “mal”, percoo sentido do que estava fazendo. É uma exatidão de que os engenhos nunca são o bastante para tocar os esforços, digamos, o fracasso logo de partida ou o cansaço durante a derrota não me molestam, mas me fazem entrever uma lógica um tanto maliciosa, uma lógica que me torna filho de alguns instintos – sobrevivência e ansiedade, medo e desolação. Me sinto enfraquecido pela valoração que não para de cobrar sobre os sentimentos, direcionando as sensações, mas em meio a lúcidas vertigens, vagueio com uma sensação de escambo, de resto, de exilado, não-escolhido. Tais sensações voltam-me após está “errada”. E no que diriam convalescença, vejo que aquilo que fiz para começar a retomar o fôlego rumo a uma “melhora”, esconde-me nas causas e me faz perder os efeitos. Creio ser eu, minhas decisões, meus gostos, minha atenção que me levou a sair dessa, falseando, no entanto, que as afecções é que caminham por mim, isto é, sou agora fruto de uma confluência inesperada, mas prediletamente atribuída a este “projeto do que sou ou era ou serei”. É que percebo as preguiças dos cuidados na saúde, e vejo que saúde não é o que penso ser, mas o que sinto ser. Uma tal potência desgovernada, subterrânea e aérea, ora febril ora relaxante, dispersiva e atordoante, mas sempre uma pungência de erupção e meditação. Nenhum outro estado conserva e aguenta tamanha disparidades, diferenças. A saúde é algo de pueril, não inocente, mas culpada pelo seu próprio orgulho. A que estado é esse que almejamos como uma idéia, uma fração que não para nem espera, mas vai? Por isso a convalescença ser, talvez, o estado da própria vida em movimento.

* * *

se o toque é intimidade para a pele, o sonho é a intimidade para a idéia; sonho e pele se encontram em suas sueprfícies.

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diminuir ou desprezar uma descrição, uma narração pelo que ela aponta ou descreve de mais ou de menos, com detalhes materiais precisos ou referências abstratas e absurdas, é no mínimo uma falta de consideração com a singularidade que cada descrição apresenta exatamente no que ela consegue perceber e descrever, re-suscitar; eis que digo: não sejeis tolos para consigo, queremos que aceitem nosssa loucura e gostem ainda por cima.

* * *

a velocidade do pensamento vai, e a do copro fica.
antes comia as letras na escrita das palavras, hoje são estas as que excecro e excreto sem percever o pancro.

* * *

agora são e com a doença avançada é até a ponta do dedo indicador da mão esquerda que destende e pede uma cavitação. os ossos contraem-se e criam um vacúolo de ar entre a cartilagem suspensória e o atrito osmótico dos tecidos. é o assento, me digo sempre, até aos médicos e amigos, mas o que será que me impede de não escrever sobre isso e constatar que não efetua exatamente o mais preciso e atestado do meu estado de óbito modular? o pulso do braço esquerdo também retem-se no estralo, frizando os músculos que latejam o que era no calcanhar agora no cotovelo, passando para o meio das costas. me disseram, novamente, ser uma posição no abdomên, “como se puxasse o saco pra cima”, postrar o pescoço junto a cabeça alinhavado com o ouvido e o ombro. estufar o peito, mas baixar os ombros!, relaxando os braços em conjunto… omeio do corpo, o chamado “quadril”, mantendo o rebolado, mas empostado na cervical subjacional. é, essa eu inventei, mas para dizer este meio que se está como para o dito “ser’. metáfora: como se ouvindo uma música no mudo – a mulher do caixa quando eu pagava meu sorvete falou: nossa, você é a cara do moço que foi assassinado no programa de ontem a noite! é, foi bem assim, ó, cortaram a cabeça dele bem no pescoço…

* * *

um caso de uma “tolerância fascista”. fascismo, ser governado, é o próprio populismo de um meio, de uma medida exata, a condução a este meio através de outrem que lhe diga o caminho, uma servidão voluntária perfeita: render-se a tudo que lhe cobra a vida para viver – um ideal, uma pessoa, um estado, um hábito.

daí o sentido do não-sentido: o meio que não está na manutenção do meio. como aristóteles disse, como todos nós tendemos a um bem, a esta sedimentação de um caminho, a esta idealização e consternação máxima a um sentido, não será a ele, a esta procura do meio, que devemos devotar nossos esforços de sobrevivência. a desmedida, tal seria um jogo do paradoxo: não dar a medida do sentido antecipadamente pela sua doxa.
* * *

L’ultime jalsa avec le chanteur de Ustad Vilayat Khan em Jalsaghar: The Music Room, 1958, o minuto final do raga.

* * *

<Fazer ser> o que é – uma imprescindível atividade.

* * *

O não-esperado, o não-calculado, nunca nos foi tão caro. A isto que chamos de fracasso, frustração ou decepção, nada mais indica que um afeto de um tipo de postura específica com relação ao desconhecido – postura esta, a do homem – um homem que imagina e pensa o futuro, e qualquer animal que possa ter essa capacidade tão aguçada de imaginar o que não é. Mas a especificidade desta postura pode estar na qualidade ou o sentido que o homem dá a e para sua própria <natureza>, pancreática gaia: o que ele faz de si mesmo? E, partir de si, o que pode realmente fazer?

(Fernando Aleister Pã I)

Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está fazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.

(Fernando Aleister Pã II)

Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.

(Fernando Aleister Pã III): Crawley Pessoa, Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!

E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.

“Estou sempre citando, e sendo citado”: a depressão, a ausência de potência, os afetos consumidos pelo projeto do projeto de não haver projeto (doença do simulacro).

Numa sociedade de poder disciplinar que educa para que – cada um e todos – se construa todo um projeto <órganón> <dito> absoluto e mais verdadeiro que outros – leia-se, idéias, sonhos, ideais, valores, verdades, universal, superior, tudo numa escala do torpor neurótico que pode ser gerado por essa atividade e que pode levar a morte mesmo antes da vida – numa hierarquia ou tabela sistêmacia de valoração dos projetos – e que talvez o importante é ressaltar que este tipo de educação pode levar… porque é possível o fascismo? o que pode haver de fascista na nossa própria existência?

perdi meu emprego, a mulher que eu amo não quis me ver, furei o pneu do carro e fechei meu dedo na porta.
recebi todas as “mensagens”: estou indo pro exterior.
* * *

A Silvina Ocampo
Quem canta nas ourelas do papel?
De bruços, inclinado sobre o rio
de imagens, me vejo, lento e só,
ao longe de mim mesmo: 6 letras puras,
constelação de signos, incisões.
na carne do tempo, ó escritura,
risca na água!
Vou entre verdores
enlaçados, adentro transparências,
entre ilhas avanço pelo rio,
pelo rio feliz que se desliza
e não transcorre, liso pensamento.
Me afasto de mim mesmo, me detenho
sem deter-me nessa margem, sigo
rio abaixo, entre arcos de enlaçadas
imagens, o rio pensativo.

Sigo, me espero além, vou-me ao encontro,
rio feliz que enlaça e desenlaça
um momento de sol entre dois olmos,
sobre a polida pedra se demora
e se desprende de si mesmo e segue,
rio abaixo, ao encontro de si mesmo.

Octávio Paz.

* * *

“Por mi mala cabeza yo me puse a escribir./ Otro, por mucho menos, se hace Guardia Civil./ Por mi mala cabeza creí en la libertad./ Otro respira incienso las fiestas de guardar.” Goyt

 

 

 

Hamada Chimei, Mad Man, 1962.jpg

 

 

 

 

Escrita.
Esta “vida” impessoal…

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