Encantamento: “lampejos de experiência intensa”

Imagina-se um corpo cheio de membros pensantes.
(Pascal, Fragmentos, 371/473)

121 - Louise Bourgeois maison à NY

 

Primeiro você precisa conceituar o que quer fazer; precisa ter uma ideia. A ideia, como eu disse antes, vem do fracasso em algum ponto, uma falta de energia em algum lugar. Por exemplo, quando você tem uma discussão com as pessoas com quem trabalha, quando você tem um problema para resolver — com seus filhos, por exemplo —, você tem de enfrentá-lo, não demonstrar crítica ou tensão, e é um esforço terrível. […] É pensando no que está faltando aqui, pensando nisso pouco a pouco, à noite ou quando viajo, e assim por diante — “O que está errado? O que está errado?” —, que descubro uma forma de solucionar a dificuldade ao fazer uma obra. Isso é uma concepção em certo nível — a arte trata da vida. Então para produzir o que preciso produzir, tenho de provar a mim mesma que posso organizar e que vou fazer a peça. Isso é realmente o início. Não é dedutivo, é intuitivo — você precisa ler Pascal!

 

Jean-François Jaussaud, Louise Bourgeois’ bedroom in Chelsea, 1998

 

Nunca mencionei a palavra sonho ao discutir minha arte, embora falassem em sonho o tempo todo. Eu não sonho. Pode-se dizer que trabalho sob um encantamento, realmente dou valor ao encantamento. Tenho o privilégio de ser capaz de entrar em encantamento, de entrar nessa terra muito árida onde provavelmente você encontrará seu direito à vida. No encantamento sou capaz de me expressar.
Estar num encantamento não é também uma ideia surrealista?
Encantamento e sonho não são a mesma coisa. O encantamento é mais amistoso que o sonho. O “encantamento” é vivenciado num nível físico; não é um estado passivo, como um sonho. O sonho o cega; o encantamento, não. É um processo amistoso.

 

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(Louise Bourgeois, trechos de uma entrevista a Donald Kuspit, publicada em 1988)