A recusa

Luiz Inácio Lula da Silvarecusa dilmarecusa aéciorecusa temer

Em certos momentos, em face de acontecimentos públicos[2], nós sabemos que devemos recusar.[1] A recusa é absoluta, categórica. Não discute nem dá suas razões. É por isso que é silenciosa e solitária, mesmo quando se afirma, como lhe é necessário, a luz do dia. Os homens que recusam e que estão unidos pela força da recusa, sabem que ainda não estão juntos. O tempo da afirmação comum foi-lhes precisamente arrebatado. O que lhes resta é a irredutível recusa, a amizade desse NÃO certo, inquebrantável, rigoroso, que os mantém unidos e solidários.

O movimento de recusar é raro e difícil, embora idêntico em cada um de nós, logo que o percebemos. Por que difícil? É que devemos recusar não só o pior, mas também a aparência razoável, uma solução que se diria feliz. Em 1940, a recusa não teve que exercer-se contra a força invasora (não aceitá-la era evidente), mas contra essa probabilidade que o velho homem do armistício pensava poder representar, não sem boa fé e com justificações. Dezoito anos depois, a exigência da recusa não foi produzida pelos sucessos do 13 de Maio (que se recusaram a si mesmos), mas contra o poder que pretendia reconciliar-nos honrosamente com eles, apenas pela autoridade de um nome.

O que recusamos não é algo sem valor ou sem importância. É precisamente por isso que a recusa é necessária. Há uma razão que já não a aceitaremos, há uma aparência de sabedoria que nos horroriza, há uma oferta de acordo e de conciliação que não vamos ouvir. Uma ruptura foi produzida. Obrigaram-nos a retornar ao tipo de franqueza que já não tolera mais a cumplicidade.

Quando recusamos, recusamos por um movimento sem desprezo, sem exaltação e, na medida do possível, de forma anônima, uma vez que o poder de recusar não se realiza desde nós mesmos, nem apenas em nosso nome, mas a partir de um começo muito pobre que pertence, antes de tudo, aos que não têm voz. Dizem que hoje em dia é fácil recusar, que o exercício desse poder contrai pouco riscos. Sem dúvida, isso é verdade para a maioria de nós. Eu acredito, entretanto, que recusar nunca é fácil e que devemos aprender a recusar e a manter intacto, pelo rigor do pensamento e com modéstia na expressão, o poder da recusa que, doravante, cada uma de nossas afirmações deveria verificar.[3]

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BLANCHOT, Maurice. Le refus. In: _____. Ecrits politiques (1953-1993). Textes choisis, établis et annotés par Éric Hoppenot. Paris, France: Gallimard, 2008.

_____. El rechazo. In: _____. La amistad. Madrid: Editorial Trotta, 2007. p.107-108. [4]

Notas:

[1] Refus, no original, rechazo, em espanhol; o sentido poderia estar circunscrito também nos termos rechaçar e rejeitar.

[2] [Nota do editor da versão francesa] Insurreição geral na Argélia e retorno de De Gaulle ao poder para pôr fim ao golpe [dos militares que queriam instituir um governo de direita na Argélia francesa]. A maioria dos autores da revista 14 Juillet, Blanchot não é exceção, viu nos acontecimentos de 13 de maio de 1958 um golpe de Estado [De Gaulle, após tornar-se herói militar na 2ª Guerra Mundial, perde na política; oito anos mais tarde, é alçado a Primeiro-Ministro do Parlamento francês a fim de conter os insurgentes e institui um governo semipresidencialista por uma década].

[3] [Nota do autor] Excepcionalmente, indico quando e onde foi publicado estre breve texto pela primeira vez: em outubro de 1958, na edição número 2 de 14 Julliet. Foi escrito poucos dias depois do general De Gaulle ter voltado ao poder, colocado lá, desta vez, não pela Resistência, mas pelos mercenários.

[4] Tradução do francês, com apoio da tradução espanhola, realizada por Guilherme Magalhães V. S. Oliveira (doutorando FE-USP, junho/2017). Epígrafe que constava na revista onde foi publicado: Tous les arts ont produit leurs merveilles. L’art de gouverner n’a produit que des monstres (Saint-Just) / Todas as artes produziram as suas maravilhas. A arte de governar tem produzido apenas monstros.